Insinuação 2.4

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“Ninguém gosta dela. Ninguém quer ela aqui,” disse Julia.

“Que lesada. Nem entregou o trabalho de artes, sexta passada,” respondeu Sophia.

“Se ela nem vai tentar, por que está vindo pra escola?”

Apesar de como a conversa soava, elas estavam falando comigo. Estavam apenas fingindo falar umas com as outras. Era calculado em como podiam manter uma negabilidade plausível ao mesmo tempo em que imaturamente faziam de conta que eu não estava ali. Uma mistura de imaturidade com esperteza que só adolescentes conseguiam fazer. Eu teria rido de como era ridículo, se não fosse comigo.

No momento em que saí da sala, Emma, Madison e Sophia me encurralaram num canto, com outras seis garotas para dar apoio. Eu não podia sair do meio delas sem ser empurrada ou acotovelada de volta para o canto, então não pude fazer mais do que me inclinar na janela, ouvindo enquanto oito garotas matraqueavam uma lista infinita de provocações e insultos. Antes que uma delas terminasse, outra já começava a falar. Enquanto isso, Emma observava ao fundo, quieta, o menor dos sorrisos em seu rosto. Eu não podia olhar para nenhuma das outras garotas sem que elas latissem uma torrente fresquinha de insultos na minha cara, então fiquei encarando Emma.

“A menina mais feia do nosso ano.”

Elas nem estavam pensando no que estavam dizendo e um monte dos insultos eram mentiras deslavadas ou contraditórios. Uma dizia que eu era uma puta, por exemplo, e outra dizia que eu fazia rapazes vomitarem ao chegar perto deles. O objetivo não era ser espertas, inteligentes ou corretas. O que importava era o sentimento por trás das palavras, repetidamente, martelando em mim. Se eu tivesse apenas um momento para falar, eu poderia ter inventado umas respostas. Se eu pudesse matar seu movimento, elas provavelmente não voltariam ao ritmo fácil de novo. De qualquer forma, eu não conseguia encontrar as palavras para isso, e não haviam brechas na conversa onde eu não seria cortada.

Mesmo que esta tática em particular fosse nova para mim, eu estive aturando esse tipo de coisa por um ano e meio já. Num certo ponto, eu havia chegado à conclusão de que era mais fácil ficar de boa e aguentar a maioria das coisas. Elas queriam que eu revidasse, porque tudo estava a favor delas. Se eu tentasse lutar contra isso e elas ‘ganhassem’, eu só teria alimentado seus egos. Se eu conseguisse alguma coisa, elas ficariam mais persistentes e más da próxima vez. Então pela mesma razão pela qual não briguei com Madison pela lição que ela tinha me roubado, simplesmente me inclinei sobre a janela e esperei elas se entediarem com a brincadeira ou ficar com fome o suficiente para ir almoçar.

“O que ela usa pra lavar o rosto? Um pedaço de Bombril?”

“Pois deveria! Ficaria mais bonita!”

“Nunca fala com ninguém. Talvez ela saiba que é uma retardada e por isso fica de boca fechada.”

“Não, ela não é esperta o suficiente pra isso.”

A não mais de um metro atrás de Emma, eu pude ver o Sr. Gladly saindo de sua sala. A tirada não parou quando observei-o por suas pastas embaixo do braço, achar as chaves e trancar a porta.

“Se eu fosse ela, eu me mataria,” uma das garotas anunciou.

O Sr. Gladly se virou para me olhar nos olhos.

“Ainda bem que não fazemos educação física com ela. Imagina ver ela no vestuário? Só de pensar já fico com ânsia de vômito.”

Não sei que expressão eu tinha na cara, mas feliz não era. Não mais que cinco minutos atrás, o Sr. Gladly estava tentando me convencer a ir com ele para a diretoria falar sobre o bullying. Observei enquanto ele me deu um olhar triste, passou as pastas para sua mão livre e foi embora.

Fiquei estupefata. Não consegui entender como ele poderia simplesmente ignorar isso. Quando tentou me ajudar, será que ele estava só se ajudando, fazendo o que era obrigado numa situação que ele não podia ignorar? Será que havia desistido de mim? Depois de tentar ajudar, de sua própria maneira completamente inútil, depois de eu ter negado sua oferta de ajuda duas vezes, será que ele havia decidido que eu não valia o esforço?

“Vocês tinham que ter visto o grupo dela se estrepar na aula agora há pouco. Doeu de assistir.”

Fechei o punho, e então me forcei a abri-lo. Se fôssemos garotos, esse cenário seria totalmente diferente. Eu estava mais em forma do que nunca. Eu poderia ter dado uns socos desde o início, ensanguentar um nariz ou dois, talvez. Sei que perderia a luta no final, sendo empurrada para o chão pela força dos números e chutada enquanto estivesse lá, mas as coisas terminariam ali. Eu ficaria fisicamente dolorida por dias, mas ao menos teria a satisfação de saber que outras também estavam machucadas, e não teria que aceitar esse rio de insultos. Se conseguíssemos fazer bastante estrago, seria chamada a atenção da escola, e eles não poderiam ignorar as circunstâncias de uma luta de uma contra nove. Violência ganha atenção.

Mas as coisas não funcionavam assim. Garotas pegavam pesado. Se eu atacasse Emma, ela correria para a diretoria com alguma história inventada, suas amigas testemunhando a favor dela. Para a maioria das pessoas, pedir ajuda para a escola era suicídio social, mas Emma estava no topo da pirâmide. Se ela fosse para a diretoria, as pessoas só levariam tudo mais a sério. Quando eu voltasse para a escola, a história já teria se espalhado como uma videira, de um jeito que me fizesse parecer uma psicopata. Tudo pioraria. Emma seria vista como a vítima e as garotas que haviam se juntado a ela no bullying a defenderiam.

“E ela é fedida,” uma garota disse, bestamente.

“Tem cheiro de suco de uva e de laranja vencidos,” cortou Madison com uma risadinha. De novo, esse negócio do suco? Suspeitei que essa tivesse sido ideia dela.

Pareceu que elas estavam perdendo o fôlego. Calculei que seria só mais um minuto ou dois antes que se entediassem e fossem embora.

Emma deve ter tido a mesma impressão, porque veio à frente. O grupo se dividiu para dar espaço a ela.

“O que aconteceu, Taylor?” disse Emma. “Você parece tão tristinha.”

Suas palavras não combinavam com a situação. Eu havia mantido a compostura por todo esse tempo. O que eu sentia era mais frustração e tédio do que qualquer outra coisa. Abri a boca para dizer alguma coisa. Um simples “Vai se foder” teria servido.

“Tão triste que tem chorado até dormir essa semana inteira?” ela perguntou.

Minhas palavras pararam na garganta ao processar o que ela havia dito.

Quase um ano antes de começarmos o ensino médio, eu estava na casa dela, ambas tomando o café da manhã e ouvindo música alto demais. A irmã mais velha de Emma havia descido as escadas com o telefone. Abaixamos a música, e era meu pai do outro lado da linha, esperando para me contar com a voz fraca que minha mãe havia morrido num acidente de carro.

A irmã de Emma havia me dado uma carona para minha casa, e eu chorei o caminho inteiro. Lembro de Emma chorando também, por empatia, talvez. Pode ter sido o fato de que ela achava minha mãe a adulta mais legal do mundo. Ou talvez foi porque realmente éramos melhores amigas e ela não tinha ideia de como me ajudar.

Eu não queria pensar nos meses que se seguiram, mas fragmentos me vieram à memória sem eu pedir. Eu podia lembrar de ter ouvido meu pai falando mal do corpo de minha mãe, porque ela estava mandando mensagens enquanto dirigia, e era a única culpada nisso tudo. Houve um ponto em que eu fiquei quase sem comer por cinco dias, porque meu pai estava tão mal que não prestava atenção em mim. Eventualmente pedi ajuda a Emma, pedindo para comer na casa dela por alguns dias. Acho que a mãe dela descobriu o que estava rolando e conversou com o meu pai, porque ele começou a se endireitar. Estabelecemos nossa rotina, e não nos separaríamos como família de novo.

Foi um mês depois de minha mãe ter morrido que Emma e eu estávamos sentadas na ponte de um brinquedo no parque, nossos traseiros frios por causa da madeira úmida, tomando um café que havíamos comprado na Buraco de Donut. Não tínhamos nada pra fazer, então só ficamos andando e falando sobre qualquer coisa. Nossa caminhada havia nos levado ao parquinho, e estávamos descansando os pés.

“Sabe, eu admiro você,” ela havia dito, abruptamente.

“Por quê?” eu havia respondido, completamente encantada com o fato de que alguém linda e incrível e popular como ela poderia achar algo para se admirar em mim.

“Você é tão forte. Depois que a sua mãe morreu, você ficou em pedacinhos, mas você está tão de boa depois de um mês. Eu não conseguiria fazer isso.”

Eu podia me lembrar de ter admitido, “Eu não sou forte. Eu consigo me segurar durante o dia, mas tenho chorado até dormir essa semana inteira.”

Aquilo havia sido o suficiente para abrir as comportas ali mesmo. Ela me deu seu ombro para chorar, e nosso café esfriou antes de eu me recompor.

Agora, eu olhava para Emma, de boca aberta, sem palavras, seu sorriso alargado. Ela lembrava o que eu tinha dito, então. Ela sabia as memórias que isso traria à tona. Em algum ponto, aquela lembrança havia passado por sua mente, e ela havia decidido transformá-la numa arma. Esteve esperando para atirá-la em mim.

Me fodi, porque funcionou. Senti uma lágrima escorrendo pela bochecha. Meu poder rugiu nas bordas da minha consciência, agitado, me pressionando. Eu o suprimi.

“Tem mesmo! Ela está chorando!” Madison riu.

Com raiva de mim mesma, passei a mão na bochecha para limpar a lágrima. Mais já estavam chegando, prontas para substituí-la.

“É como se você tivesse um superpoder, Emma!” uma das garotas falou.

Eu havia tirado minha mochila para poder me recostar na parede. Me inclinei para pegá-la, mas antes que eu pudesse fazê-lo, um pé deslizou pela alça e a arrastou para longe de mim. Olhei para cima e vi a dona do tal pé – esbelta, corada Sophia – me dando um sorrisinho arrogante.

“Ai meu deus! O que ela está fazendo?” uma das garotas disse.

Sophia se recostava na parede, um pé casualmente em cima da minha mochila. Não pensei que fosse valer a pena lutar para ter a mochila de volta, se isso desse a ela uma oportunidade de continuar seu joguinho. Deixei a mochila onde estava e abri caminho empurrando as outras garotas, esbarrando num observador curioso forte o suficiente para fazê-lo tropeçar. Corri para as escadas e pela porta da frente no andar térreo.

Fugi. Não chequei, mas provavelmente elas estavam olhando da janela no fim do corredor. Não importava muito. O fato de eu ter prometido pagar trinta e cinco pratas do meu próprio dinheiro por um livro novo de Questões Mundiais para substituir o que havia sido encharcado com suco de uva não era minha prioridade. Mesmo que fosse quase todo o dinheiro que eu tinha depois de comprar as partes do meu uniforme. Meu trabalho de artes também estava na mochila, recém-consertado. Eu sabia que não o conseguiria de volta inteiro, se o conseguisse.

Não, minha preocupação no momento era sair de lá. Eu não quebraria a promessa que havia feito a mim mesma. Nada de usar poderes nelas. Este era o limite que eu não ultrapassaria. Mesmo se eu fizesse algo inócuo, como passar piolhos pra todas elas, eu não achava que ia parar ali. Eu não confiava em mim mesma o suficiente para manter minhas habilidades em segredo, sem nenhuma pista óbvia, só para ver a cara delas quando percebessem que a garota que tinham estado atormentando era uma super heroína em formação. Era algo em que eu não podia deixar de pensar, mas eu sabia que as consequências a longo prazo estragariam isso.

Talvez a coisa mais importante, pensei, fosse manter os dois mundos separados. De que me servia uma rota de fuga, se o mundo para o qual eu fugia estivesse cheio das pessoas e coisas que eu queria evitar?

Antes que o pensamento de voltar para a escola passasse por minha mente, me vi pensando no que eu faria esta tarde.

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Insinuação 2.3

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Não tive tempo para ficar pensando na mensagem que havia recebido de Tattletale. O sinal tocou e tive que me apressar para sair da minha conta e desligar o computador antes de ir para a próxima aula. Ao pegar minhas coisas, percebi que eu tinha me entretido tanto em pesquisar os vilões que havia conhecido noite passada e pensando na mensagem de Tattletale que esqueci de me preocupar com estar encrencada por ter matado aula. Senti um pouco de resignação ao perceber que eu teria que lidar com isso mais tarde hoje, de qualquer forma.

Madison já estava em seu lugar quando entrei na sala. Ela tinha duas garotas agachadas de ambos os lados de sua carteira, e as três deram risadinhas ao me ver. Escrotas.

Meu lugar preferido para sentar era à direita, na primeira fileira, o mais perto da porta. A hora do almoço e a de ir embora era quando o trio tendia a me atormentar mais, então eu tentava sentar o mais perto possível da porta, para poder sair rápido. Vi uma poça de suco de laranja no assento, com a garrafa vazia embaixo da cadeira. Madison estava matando dois coelhos com uma cajadada só. Era tanto uma ‘pegadinha’ quanto um lembrete de como elas haviam me encharcado com suco e refrigerante sexta passada. Irritada, tomei o cuidado de não olhar para ela e me sentei num lugar vazio algumas fileiras mais para trás.

O Sr. Gladly entrou na sala, ele era baixinho e jovem o suficiente que quase dava pra confundi-lo com um estudante ali da escola. Levou alguns minutos para ele começar a aula, e imediatamente ele nos mandou formar grupos de quatro para compartilhar nossa lição de cada uns com os outros e nos preparar para apresentá-la para a turma. O grupo que contribuísse mais ganharia o prêmio que ele havia mencionado na sexta, os doces da máquina de guloseimas.

Eram coisas desse tipo que faziam do Sr. Gladly o professor que eu menos gostava. Eu tinha a impressão de que ele ficaria surpreso em saber que ele era o professor que algum aluno menos gostava, mas isso só seria um ponto a mais contra ele para mim. Não acho que ele entenderia porque pessoas não gostariam dele, ou quão miserável era fazer trabalhos em grupo quando você não se identificava com nenhum dos grupos ou panelinhas da escola. Ele deduzia que as pessoas gostavam de trabalhos em grupo pra poder conversar com seus amigos na aula.

Enquanto a turma se dividia, resolvi não ficar lá sendo a lesada sem amigos com quem formar grupo. Fui até a mesa do professor.

“Sr. Gladly?”

“Me chame de Sr. G. Sr. Gladly é meu pai,” ele disse, com um tom brincalhão de professor austero.

“Desculpe, hã, Sr. G. Preciso de um livro novo.”

Ele me olhou, curioso, “O que aconteceu com o seu?”

Foi encharcado com suco de uva por um trio de harpias. “Eu perdi,” menti.

“Livros novos são trinta e cinco dólares. Não vou pedir agora, mas…”

“Eu pago até o final da semana,” terminei a frase por ele.

Ele me deu um livro, e procurei pela sala um grupo no qual poderia entrar: Brilhante e Greg. Havíamos formado grupos várias vezes antes, os restos que sobravam quando todos os grupos e panelinhas se juntavam.

Brilhante aparentemente tinha conseguido seu apelido na terceira série, quando um professor o chamou disso ironicamente, e ficou, ao ponto em que eu duvidava que qualquer um além de sua mãe soubesse o nome dele. Ele era um baterista, de cabelos compridos, e era tão fora da casinha que você podia parar de falar no meio de uma frase e ele nem notaria. Ele vivia a vida num torpor calmo, presumivelmente enquanto não estivesse com sua banda.

Greg era bem o contrário. Ele era mais inteligente que a média, mas falava tudo o que lhe vinha à cabeça – sua linha de pensamento não tinha freios. Ou linhas propriamente ditas. Teria sido mais fácil estar num grupo só com o Brilhante e fazer todo o trabalho sozinha do que trabalhar com o Greg.

Tirei minha lição da mochila nova. O Sr. Gladly havia pedido para fazermos uma lista de como capas haviam influenciado a sociedade. Entre as várias etapas de me preparar para minha primeira noite de uniforme, tomei um tempo para consertar meu trabalho de artes e fiz uma lista bem bacana para o trabalho do Sr. Gladly. Eu tinha até usado reportagens de jornais e revistas para reforçar meus pontos. Eu estava me sentindo bem com ela.

“Eu não fiz muita coisa,” Greg disse, “Me distraí com esse jogo novo que eu comprei e é realmente muito bom, se chama Space Opera, já jogou?”

Um minuto inteiro depois ele ainda estava no mesmo assunto, mesmo que eu não estivesse prestando atenção ou dado qualquer resposta ao que ele estava falando, “…você tem que entender que é um gênero, um que eu estou muito envolvido ultimamente, desde que assisti aquele anime que – Oh, oi, Julia!” Greg quebrou seu monólogo para acenar com tanta energia e animação que eu senti um pouco de vergonha por estar do lado dele. Me virei no meu assento para ver uma das amigas de Madison chegar atrasada.

“Posso ficar no grupo da Madison?” Julia perguntou para o Sr. Gladly.

“Isso não seria justo. O grupo do Greg só tem três pessoas. Ajude eles,” disse o Sr. Gladly.

Julia andou para onde estávamos e fez uma careta. Alto o suficiente para só a gente ouvir, ela murmurou um “Eca” enojado. Eu sentia o mesmo em relação a ela se juntar a nós.

Foi de mal a pior desde então. O grupo de Madison veio para mais perto do nosso para que Julia pudesse conversar com elas e ficar no nosso grupo ao mesmo tempo. A presença de todas as garotas atraentes e populares da turma só deixou Greg ainda mais animado, e ele começou a se meter na conversa delas, para logo ser cortado ou ignorado. Era vergonhoso de assistir.

“Greg,” falei, tentando distraí-lo do outro grupo, “Aqui o que o fiz no final de semana. O que você acha?”

Entreguei o trabalho que eu tinha feito. Um ponto para Greg, por ter lido ele todo.

“Isso está muito bom, Taylor,” ele disse, quando terminou.

“Deixa eu ver,” disse Julia. Antes que eu pudesse contê-lo, Greg entregou meu trabalho a ela. Observei-a dar uma olhada, e então jogá-lo na carteira de Madison. Houve risadinhas.

“Me devolve,” eu disse.

“Devolver o quê?” disse Julia.

“Madison,” eu disse, ignorando Julia, “Me devolve.”

Madison, fofa e pequena e a paixão de metade dos caras do nosso ano, se virou e conseguiu combinar um olhar e tom de tamanha condescendência que poderia fazer um homem feito se encolher de medo, “Ninguém está falando com você, Taylor.”

E foi aquilo. Fora ir correndo para o professor para reclamar, não ia ter jeito de eu conseguir meu trabalho de volta, e qualquer pessoa que considerasse o professor uma opção claramente nunca tinha estado no ensino médio. Greg olhou entre eu e as garotas com um tipo de pânico antes de ficar numa fossa, Brilhante estava com a cabeça na mesa, dormindo ou quase isso, e eu fiquei lá, fula da vida. Tentei salvar as coisas, mas fazer o Greg se focar era impossível, pois ele estava constantemente me pedindo desculpas e tentando débilmente convencer o outro grupo a me devolver o trabalho. Nosso tempo esgotou, e o Sr. Gladly escolheu uma pessoa de cada grupo para ir lá na frente apresentar o que o grupo tinha conseguido.

Suspirei quando o professor escolheu Greg para apresentar pelo nosso grupo, e fui forçada a assistir enquanto Greg ferrou tanto com o trabalho que o Sr. Gladly pediu para ele ir se sentar antes que ele terminasse. Greg era uma daquelas crianças que eu sempre pensei que fizessem os professores xingar mentalmente quando levantavam a mão na aula. O tipo de aluno que demorava o dobro do tempo que outros levariam para responder, e frequentemente estava só meio certo ou tão errado que desviava o assunto da aula. Eu não podia imaginar o que havia possuído o Sr. Gladly para ele escolher Greg para apresentar pelo nosso grupo.

O que deixou as coisas piores foi quando eu tive que assistir Madison matraquear sobre minha muito impressionante lista de modos como capas mudaram o mundo. Ela falou todas as minhas coisas; moda, economia, Engenheiros e o boom tecnológico, o fato de que o cinema, a televisão e as revistas haviam se distorcido para acomodar celebridades capas, e por aí vai. Mesmo assim, ela explicou errado na parte de como a segurança (N.T.: polícia, exército, etc) havia mudado. Meu ponto tinha sido que com capas qualificadas diminuindo o trabalho e se responsabilizando pelas maiores crises e ameaças, policiais e militares de todos os níveis tinham mais liberdade para treinar e expandir suas habilidades, sendo policiais mais espertos e versáteis. Madison fez parecer que eles só ganhassem um monte de férias.

O Sr. Gladly nomeou outro grupo como vencedor, por eles terem conseguido achar mais coisas ainda, embora ele tenha falado que a qualidade do trabalho de Madison era quase boa o suficiente para contar. Daí em diante, ele passou sua matéria.

Eu estava puta e mal pude me concentrar na aula, meus poderes estalando e puxando minha atenção para a periferia de minha consciência, me deixando extremamente consciente de cada inseto num raio de 150 metros. Eu poderia desligar isso, mas a concentração extra que isso me exigiria, juntamente com a raiva que eu sentia em relação a Madison e ao professor, me distrairiam tanto que eu não poderia me focar na matéria. Tomei a deixa do Brilhante e abaixei a cabeça sobre a mesa. Exausta que eu estava depois da noite passada, quase cochilei. Mesmo assim, passar a aula meio dormindo fez ela acabar mais rápido. Me assustei quando o sinal tocou.

Enquanto todos pegavam suas coisas e saíam da sala, o Sr. Gladly veio me dizer baixinho, “Eu gostaria que você ficasse aqui por alguns minutos, por favor.”

Assenti com a cabeça e guardei meus livros, e então esperei o professor terminar de combinar onde encontraria os integrantes do grupo vencedor para pagá-los seu prêmio.

Quando estávamos só eu e o Sr. Gladly na sala, ele pigarreou e me disse, “Eu não sou burro, sabe.”

“Tá bom,” respondi, sem saber direito o que falar.

“Eu tenho uma noção de o que acontece na minha sala de aula. Não tenho certeza de quem, mas eu sei que algumas pessoas têm te incomodado.”

“Ok,” eu disse.

“Eu vi a bagunça na cadeira onde você geralmente senta hoje. Lembro que algumas semanas atrás havia cola espalhada em sua cadeira e carteira. Também houve aquele incidente no começo do ano. Todos os seus professores tiveram uma reunião sobre aquilo.”

Não consegui olhar em seus olhos quando ele falou daquele evento. Baixei o olhar para meus pés.

“E acho que tem mais coisa nisso do que o que eu sei?”

“É,” eu disse, ainda olhando para baixo. Era difícil explicar como eu me sentia quanto a essa conversa. Eu estava grata, acho, que alguém havia tocado no assunto, mas irritada que esse alguém fosse o Sr. Gladly. Fiquei com um pouco de vergonha também, como se eu tivesse dado de cara com uma porta e alguém estivesse tentando demais em se assegurar que eu estava bem.

“Eu perguntei depois do incidente da cola. Estou perguntando de novo. Você gostaria de ir para a secretaria comigo, conversar com a diretoria?”

Depois de pensar por algum tempo, olhei para ele e perguntei, “O que aconteceria?”

“Teríamos uma discussão sobre o que tem acontecido. Você daria o nome ou os nomes de quem você acredita serem os responsáveis, e cada um deles seria chamado para falar com a diretora, em seguida.”

“E eles seriam expulsos?” perguntei, mesmo que já soubesse a resposta.

O Sr. Gladly balançou a cabeça, “Se houvesse prova o suficiente, eles seriam suspensos por vários dias, a não ser que tivessem feito algo muito sério. Mais ofensas poderiam levar a suspensões mais longas ou expulsão.”

Dei uma risada amarga, sentindo a frustração aumentar, “Ótimo. Então pode ser que elas percam alguns dias de aula, e só se eu conseguir provar que estão por trás disso, e sendo suspensas ou não, elas se sentem totalmente justificadas em fazer o que quer que seja para o rato de laboratório por vingança.”

“Se você quer que as coisas melhorem, Taylor, tem que dar o primeiro passo.”

“Isso não é um primeiro passo. É atirar no meu próprio pé,” eu disse, colocando a mochila nas costas. Quando ele não respondeu, saí da sala.

Emma, Madison, Sophia e uma meia dúzia de outras garotas estavam no corredor, esperando por mim.

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Gestação 1.1

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Nota breve do/a autor/a: Essa história não é recomendada para leitores muito jovens ou sensíveis. Leitores que não gostam/podem ler cenas fortes não são aconselhados a ler Worm.

A aula terminava em cinco minutos e tudo o que eu podia pensar era, uma hora é tempo demais pro almoço.

Desde o começo do semestre, eu tinha estado ansiosa para a aula em que começaríamos a discutir capas na disciplina Questões Mundiais do Sr. Gladly. Agora que ela finalmente chegara, eu não conseguia me concentrar. Eu estava inquieta, movendo a caneta de uma mão para a outra, batucando na carteira, ou desenhando alguma coisa no canto da página junto com outros rabiscos. Meus olhos estavam agitados também, indo do relógio acima da porta para o Sr. Gladly e de volta para o relógio. Eu não estava prestando atenção o suficiente no que o professor dizia para acompanhar a aula. Vinte minutos pro meio-dia; cinco minutos faltando para a aula acabar.

Ele estava entusiástico, claramente animado sobre o que estava falando, e, pela primeira vez, a turma estava escutando. Ele era o tipo de professsor que tentava ser amigo dos alunos, o tipo que preferia ser chamado de “Sr. G” ao invés de Sr. Gladly. Gostava de terminar a aula um pouco mais cedo que o normal e conversar com os populares, dava um monte de trabalhos em grupo para que os alunos pudessem ficar com seus amigos durante a aula, e fazia ‘dinâmicas divertidas’ como debates.

Ele me parecia um daqueles adolescentes “populares” que virou professor. Provavelmente pensava que era o preferido de todos. Eu imaginava como ele reagiria se ouvisse a minha opinião sobre o assunto. Será que quebraria a auto-imagem que ele tinha de si mesmo, ou ele ignoraria isso como uma anomalia da garota sombria que nunca participava da aula?

Olhei por cima do ombro. Madison Clements sentava duas fileiras à minha esquerda e dois assentos atrás. Ela me viu olhando e deu um sorrisinho afetado, seus olhos se estreitando, e baixei os meus para meu caderno. Tentei ignorar a sensação feia, azeda que embrulhava meu estômago. Voltei a olhar para o relógio. Onze e quarenta e três.

“Me deixem terminar aqui,” disse o Sr. Gladly, “Desculpem, pessoal, mas há lição de casa pro fim de semana. Pensem nas capas e em como elas impactaram o mundo ao seu redor. Façam uma lista se quiserem, mas não é obrigatório. Na segunda-feira vamos nos dividir em grupos de quatro pessoas e ver qual grupo tem a melhor lista. Vou comprar doces da máquina de guloseimas para o grupo vencedor.”

Houve uma série de comemorações, seguida pela classe se transformando num caos barulhento. A sala se encheu com os sons de fichários, livros e cadernos sendo fechados, cadeiras arranhando os ladrilhos baratos e o barulho chato de conversas. Um punhado dos membros mais sociais da turma se reuniu perto do Sr. Gladly para papear.

Eu? Guardei meus livros e fiquei quieta. Não tinha escrito quase nada de anotações; haviam coleções de rabiscos se espalhando pela página e números nas margens onde eu tinha feito uma contagem regressiva dos minutos que faltavam para o almoço como se estivesse acompanhando o timer de uma bomba.

Madison conversava com seus amigos. Ela era popular, mas não linda do jeito esteriotipado que as garotas populares da TV eram. Ao invés disso, era “adorável”. Pequena, magrinha. Ela incitava essa imagem com presilhas azul celeste em seu cabelo castanho na altura dos ombros e uma atitude fofinha. Madison usava uma blusa tomara-que-caia e uma saia jeans, o que parecia totalmente besta pra mim já que estávamos no comecinho da primavera e ainda dava pra ver nossa respiração no ar de manhã.

Eu não estava exatamente numa posição de criticá-la. Meninos gostavam dela e ela tinha amigos, enquanto o mesmo não era verdade pra mim. A única característica feminina que eu tinha era meu cabelo cacheado e escuro, que eu deixei crescer. As roupas que eu usava não mostravam pele, e eu não me exibia em cores vibrantes como um pássaro exibindo suas plumas.

Os garotos gostavam dela, eu acho, porque ela era atraente sem ser intimidadora.

Ao menos se eles soubessem.

O sinal tocou com um dim-dom crescente, e fui a primeira a sair da sala. Eu não corri, mas andei numa velocidade boa enquanto subia as escadas para o terceiro andar e caminhava até o banheiro das meninas.

Uma meia dúzia de meninas já estavam já, o que significava que eu tinha que esperar até uma porta abrir. Nervosamente eu observava a porta do banheiro, sentindo meu coração pular cada vez que alguém entrava.

Assim que havia uma divisória livre, entrei e tranquei a porta. Me encostei na parede e soltei a respiração devagar. Não era exatamente um suspiro de alívio. Alívio quer dizer que você se sente melhor. Eu não me sentiria melhor até chegar em casa. Não, eu apenas me sentia menos apreensiva.

Demorou uns cinco minutos até o barulho das outras pessoas no banheiro parar. Uma espiada por baixo das divisórias mostrou não ter mais ninguém nas outras privadas. Sentei na tampa do vaso e peguei meu lanche na sacola marrom de papel para começar a comer.

Almoçar no banheiro era rotina agora. Todo dia letivo, eu terminaria meu almoço e então faria a lição de casa ou leria um livro até a hora do almoço acabar. O único livro na minha mochila que eu ainda não tinha lido era chamado “Triumvirato”, uma biografia dos três líderes do Protetorado. Estava pensando em demorar o mais possível na lição do Sr. Gladly antes de ler, porque não estava gostando do livro. Biografias não faziam meu estilo, principalmente quando eu suspeitava que era tudo inventado.

Qualquer que fosse meu plano, não tive a chance nem de terminar meu beirute. A porta do banheiro se abriu com um estalo. Congelei. Eu não queria fazer um ruído com a sacola e dar uma dica a alguém do que eu estava fazendo, então fiquei quieta, escutando.

Não consegui identificar as vozes. O barulho da conversa foi obscurecido por risadinhas e o som da água nas pias. Houve uma batida na porta, me fazendo pular. Ignorei, mas a pessoa do outro lado apenas bateu de novo.

“Ocupado,” gritei, hesitante.

“Ai meu deus, é a Taylor!”, uma das meninas o lado de fora exclamou com alegria, e em resposta outra sussurou algo que quase não ouvi, “É, faça isso!”

Me levantei abruptamente, derrubando a sacola de papel com o resto do meu almoço no chão ladrilhado. Destranquei e empurrei a porta. Ela nem se mexeu.

Ouvi barulhos nas divisórias dos dois lados da minha, e então um som acima de mim. Olhei para ver o que era, só para ficar com a cara molhada. Meus olhos começaram a arder, e fiquei momentaneamente cega pelo fluido queimante em meus olhos e o borrão em meus óculos. Senti seu gosto enquanto escorria pelo meu nariz e minha boca. Suco de cranberry.

Elas não pararam por aí. Consegui tirar meu óculos bem a tempo de ver Madison e Sophia se inclinando acima do topo da divisória, ambas com garrafas plásticas a postos. Me encolhi, minhas mãos cobrindo a cabeça logo antes de elas esvaziarem o conteúdo em mim.

Escorreu pela minha nuca, encharcou minhas roupas, borbulhou enquanto escorria pelo meu cabelo. Empurrei a porta de novo, mas a garota do outro lado empurrou de volta com seu corpo.

Se as garotas derramando suco e refrigerante em mim eram Madison e Sophia, isso significava que a garota do outro lado era Emma, líder do trio. Sentindo raiva ao perceber isso, empurrei a porta com força, todo o peso do meu corpo batendo contra ela. Não consegui nada, e meus sapatos não tinham tração no chão melecado de suco. Caí de joelhos na poça açucarada.

Garrafas plásticas vazias com os rótulos de suco de uva e cranberry caíram no chão perto de mim. Uma garrafa de refrigerante de laranja quicou no meu ombro para cair com um splash na poça antes de rolar por baixo até a próxima divisória. O cheiro das bebidas de frutas era enjoadamente doce.

A porta se abriu, e olhei para as três com uma carranca. Madison, Sophia e Emma. Onde Madison era fofa, com “desenvolvimento atrasado”, Sophia e Emma eram o tipo de garota que combinava com a imagem de “rainha do baile”. Sophia tinha a pele escura, com um corpo esguio e atlético que ela desenvolvera participando do time de corrida da escola. A ruiva Emma, por contraste, tinha todas as curvas que os garotos queriam. Ela era bonita o suficiente para conseguir empregos ocasionais como modelo amadora para os catálogos dos shoppings e lojas de departamento locais. As três estavam rindo como se fosse a coisa mais engraçada do mundo, mas os sons de seu entretenimento mal foram registrados por mim. Minha atenção estava no fraco som do sangue pulsando em meus ouvidos e um ruído sinistro, ameaçador que não ficaria mais quieto ou menos persistente se eu cobrisse minhas orelhas com as mãos. Eu podia sentir gotas correndo pelos meus braços e costas, ainda geladas pelas máquinas refrigeradas de guloseimas.

Eu não confiava em mim mesma para dizer algo que elas não tentassem usar contra mim, então fiquei em silêncio.

Cuidadosamente, fiquei em pé e virei as costas para elas para pegar minha mochila da tampa do vaso sanitário. Vê-la me fez pausar. Tinha sido um verde cinzento, ante, mas agora manchas roxo-escuras a cobriam, a maior parte do conteúdo da garrafa de suco de uva. Pondo as alças em meus ombros, me virei. As garotas não estavam lá. Ouvi a porta do banheiro bater fechada, cortando os sons de sua alegria, me deixando sozinha no banheiro, ensopada.

Me aproximei da pia e fitei a mim mesma no espelho arranhado e manchado que estava pregado acima dela. Eu tinha herdade uma boca larga, expressiva e com lábios finos da minha mãe, mas meus olhos grandes e cara de embasbacada me faziam parecer muito mais com meu pai. Meu cabelo escuro estava molhado o suficiente que grudava em minha cabeça, pescoço e ombros. Eu vestia um moletom marrom com capuz sobre uma camiseta verde, mas manchas coloridas de roxo, vermelho e laranja listravam ambos. Meus óculos estavam cheios de gotinhas multicoloridas de suco e refrigerante. Uma correu pelo meu nariz e caiu de sua ponta na pia.

Usando uma toalha de papel, limpei meus óculos e os coloquei de novo. As manchas residuais ainda dificultavam a visão, isso se não estivesse pior.

Respire fundo, Taylor, eu disse a mim mesma.

Tirei os óculos para limpá-los de novo com uma toalha molhada, e descobri as manchas ainda ali.

Um grito inarticulado de fúria e frustração saiu de meus lábios, e chutei o balde de plástico que estava embaixo da pia, fazendo-o voar até a parede com a escova de limpeza dentro dele. Quando aquilo não foi o suficiente, tirei minha mochila e a joguei usando as duas mãos. Eu não usava mais meu armário: certos indivíduos o tinham vandalizado ou arrombado em quatro ocasiões diferentes. Minha mochila estava pesada, cheia com tudo o que eu precisava para as aulas do dia. O impacto fez um som de ‘tum’ contra a parede.

“Mas que porra!?”, gritei para ninguém em particular, minha voz ecoando no banheiro. Haviam lágrimas no canto dos meus olhos. “O que caralhos eu devo fazer!?”, eu queria socar algo, quebrar algo. Retaliação contra a injustiça desse mundo. Quase bati no espelho, mas me contive. Era uma coisa tão pequena que senti como se fosse me fazer sentir ainda mais insignificante, ao invés de extravasar minha frustração.

Eu tinha aturado isso desde o primeiro dia do ensino médio, um ano e meio atrás. O banheiro tinha sido a coisa mais próxima que eu pude encontrar de refúgio. Tinha sido solitário e indigno, mas era um lugar para o qual eu podia recuar, um lugar onde eu estava fora do radar delas. Agora eu não tinha nem aquilo.

Eu não sabia nem o que fazer para minhas aulas vespertinas. Nosso trabalho de artes de meio de semestre estava para ser entregue, e eu não podia ir para a aula desse jeito. Sophia estaria lá, e eu conseguia imaginar seu sorrisinho metido de satisfação ao me ver entrar na sala parecendo ter falhado uma tentativa de fazer tie-dye em tudo o que eu possuía.

Além disso, eu tinha acabado de jogar minha mochila contra a parede e duvidava que meu trabalho ainda estivesse inteiro. O zumbido na ponta de minha consciência estava piorando. Ao me dobrar sobre a pia e agarrar sua borda, respirando fundo bem devagar, minhas mãos tremiam, e abandonei a defesa. Por três meses, eu me segurei. Agora? Eu não me importava mais.

Fechei meus olhos e senti o zumbido cristalizar em informações concretas. Tão numerosos quanto as estrelas no céu noturno, minúsculos nós de dados intrincados encheram a área ao meu redor. Eu podia focar em cada um por sua vez, pegar detalhes. Os montinhos de informação tinham estado reflexivamente vindo em minha direção assim que fui borrifada na cara. Eles respondiam a meus pensamentos e emoções subconscientes, sendo uma reflexão de minha frustração, minha raiva, meu ódio por aquelas três garotas tanto quanto meu coração batendo forte e minhas mãos tremendo. Eu podia fazê-los parar ou se mexer quase sem pensar nisso, da mesma forma que eu podia levantar um braço ou dobrar um dedo.

Abri os olhos. Eu podia sentir adrenalina pulsando no meu corpo, sangue fluindo pelas veias. Tremi em resposta ao frio que sentia depois de ter sido encharcada com as bebidas geladas que o trio derramara em mim, em antecipação e com um pouquinho só de medo. Em toda superfície do banheiro haviam insetos; moscas, formigas, aranhas, centopeias, piolhos, besouros, vespas e abelhas. A cada segundo que passava, mais vinham da janela aberta e das várias aberturas no banheiro, se movendo com uma velocidade surpreendente. Alguns rastejavam por um vão onde o ralo da pia entrava na parede enquanto outros emergiam do buraco triangular no teto onde uma seção de ladrilho tinha sido quebrada, ou da janela aberta com tinta descascando e bitucas de cigarro enfiadas nas rachaduras. Eles se reuniam em volta de mim e se espalhavam por toda superfície disponível; pacotes primitivos de sinais e respostas, esperando instruções.

Minhas sessões de treinamento, feitas longe de olhares curiosos, me ensinaram que eu poderia fazer um único inseto mover uma antena, ou comandar a horda toda a se mover em formação. Com um pensamento, eu poderia separar particularmente qualquer grupo, maturidade ou espécie e dirigi-los como eu desejasse. Um exército de soldados sob meu completo controle.

Seria tão fácil, tão fácil simplesmente bancar a Carrie na escola. Dar ao trio sua justa recompensa e fazê-las se arrepender do que tinham me feito passar: os e-mails perversos, o lixo que colocavam na minha mesa, minha flauta – a flauta da minha mãe – que elas roubaram do meu armário. Não era só elas também. Outras garotas e um punhado de garotos haviam se juntado a elas, ‘acidentalmente’ me pulando ao entregar os trabalhos, adicionando suas vozes às provocações e à enchente de e-mails nojentos, para conseguir o favor e a atenção de três das mais bonitas e populares garotas da nossa série.

Eu tinha plena consciência de que seria pega e presa se eu atacasse meus colegas estudantes. Haviam três times de super heróis e qualquer número de heróis solo na cidade. Eu não me importava de verdade. A ideia de meu pai vendo os resultados no jornal, seu desapontamento em mim, sua vergonha? Aquilo era mais apavorante, mas ainda não sobrepunha a raiva e a frustração.

Só que eu era melhor que tudo isso.

Com um suspiro, mandei uma instrução ao enxame reunido. Dispersar. O que importava não era muito a palavra, mas sim a ideia por trás dela. Eles começaram a sair do banheiro, desaparecendo entre as rachaduras no ladrilho e pela janela aberta. Andei até a porta e encostei as costas nela para que ninguém entrasse na cena antes que todos os insetos fossem embora.

Não importando o quanto eu quisesse, eu não poderia realmente seguir com o plano. Mesmo enquanto eu tremia com a humilhação, eu consegui me convencer a pegar minha mochila e sair pelo corredor. Continuei meu caminho para fora da escola, ignorando os olhares e as risadas de todos a quem eu passava, e peguei o primeiro ônibus que parasse perto de casa. O frio do começo da primavera combinou-se ao desconforto de minhas roupas e cabelos encharcados, me fazendo tremer.

Eu iria ser uma super heroína. Este era o objetivo que eu usava para me acalmar em momentos como esses. Era o que me fazer sair da cama num dia de aula. Era um sonho louco que deixava as coisas toleráveis. Era algo para esperar por, algo para trabalhar por. E me possibilitava parar de pensar no fato de que Emma Barnes, líder do trio, tinha sido minha melhor amiga.

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