Insinuação 2.8

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“Tira esses cachorros daqui!” Brian gritou.

O maior dos cachorros, um rottweiler feioso ou um misto de rottweiler com sei lá o que, agarrou meu pulso com a mandíbula. Meus joelhos quase se dobraram em resposta à dor, que só piorou quando ele moveu bruscamente a cabeça para o lado e puxou meu braço. Caí, e num instante, os outros dois cachorros – um pastor alemão e uma terrier de pelo curto sem uma orelha e um olho – pularam em mim.

O pastor alemão ficou latindo e rosnando na minha cara, ocasionalmente mordendo e puxando os cabelos que estivessem na frente do meu rosto. A outra começou a me arranhar com as garras e os dentes, tentando achar algum lugar em minhas pernas, costas ou tórax que pudesse morder.

Enquanto isso, o rottweiler ainda tinha meu pulso em seus dentes, e começou a me puxar, como se quisesse me arrastar para algum lugar. Rangi os dentes com a dor, e tentei pensar em algo que eu pudesse fazer fora me curvar numa posição fetal para proteger meus braços, pernas e rosto.

“Tira essas porras de cachorros daqui!” ouvi Brian berrar de novo.

Um dente ou garra arranhou minha orelha. Acho que foi isso que me assustou, porque perdi a compostura e dei um grito.

Um instante depois, o que parece muito mais tempo do que você imaginaria quando um bando de cachorros está te atacando, houve um assobio. Ouvindo o barulho, os cães abruptamente saíram de perto de mim. A terrier de um olho só ainda me deu um latido hostil, seguido de um longo rosnado, enquanto se afastava, como se ainda tivesse maldade demais dentro de si e tivesse que liberar um pouco.

Lisa e Alec me ajudaram a levantar. Eu estava tremendo como uma folha no outono. Uma de minhas mãos agarrava o antebraço do outro lado, tanto para fazê-lo parar de tremer quanto para cuidar do ferimento. Eu tinha lágrimas nos cantos dos olhos e estava mordendo os dentes com tanta força que minha mandíbula doía.

Do outro lado da sala, Brian esfregava as costas de uma de suas mãos. Os três cachorros estavam sentados bem certinhos numa fileira a três metros de uma garota deitada no chão. A garota tinha sangue saindo das duas narinas. A reconheci da foto que tinha visto na wiki. Rachel Lindt. Hellhound. Bitch.

“Eu fodendo odeio,” Brian grunhiu para a garota, enfatizando o palavrão, “Quando você me obriga a fazer isso.”

Bitch se levantou um pouco, se inclinando na parede oposta a mim, para ter uma vista melhor da sala. Uma vista melhor de mim. Ver ela em pessoa só confirmou o que eu havia achado de suas fotos online. Ela não era atraente. Uma pessoa cruel talvez a chamasse de homem, e eu não estava me sentindo muito boazinha em relação a ela. A maioria de seus traços provavelmente ficaria melhor num rapaz do que numa moça. Ela tinha um rosto quadrado, sobrancelhas grossas, e um nariz que já havia sido quebrado mais de uma vez – talvez acabasse de ter sido quebrado de novo, julgando pelo sangue saindo de suas narinas. Até mesmo em seu biotipo corporal, ela era grande sem ser gorda. O tronco de seu corpo sozinho era maior do que o meu com os braços inclusos, só por ter um torso mais largo e mais grosso e mais carne nos ossos do que eu. Ela usava botas, jeans pretos cobertos de cortes e rasgos, e uma jaqueta militar verde por cima de um moletom cinza. Seu cabelo castanho era mais curto do que médio.

Respirei fundo. Então, falando devagar para não tropeçar nas palavras nem deixar algum tremor aparecer, perguntei “Por que bucetas você fez isso?”

Ela não respondeu. Ao invés disso, lambeu o sangue de cima da boca e sorriu. Era um sorriso mau, arrogante e zombeteiro. Mesmo que fosse ela que estivesse caída no chão com o nariz ensanguentado, de alguma forma ela ainda achava que tinha me vencido. Ou sei lá, né.

“Puta que pariu, porra!” Brian estava gritando. Ele começou a falar alguma coisa, mas eu não ouvi, por causa do zumbido de meu poder em meus ouvidos. Percebi que estava cerrando o punho, e me forcei a relaxá-lo.

Então, assim como eu tinha feito tantas vezes nos últimos dias e semanas, procurei um motivo que justificasse eu estar recuando. Era quase um reflexo. Quando as bullies vinham pra cima de mim, eu sempre tinha que tirar um momento pra me acalmar e tentar me convencer de que eu não devia retaliar.

Por alguns momentos, me senti como se estivesse flutuando. Pela hora em que percebi que não havia motivos para recuar, descobri que eu já tinha me soltado do apoio de Lisa e Alec e atravessado metade da sala correndo. Procurei os insetos e percebi que eu já estava usando meu poder sem nem pensar. Eles já estavam se juntando na escada e nas janelas. Tudo o que eles precisaram foi de uma ideia, e começaram a entrar na sala em grande quantidade. Baratas, piolhos, aranhas e moscas. Não tantos quanto eu gostaria, eu não estivera usando meu poder por tempo o suficiente para coletar muitos insetos nas bordas dessa vizinhança, mas ainda era uma quantidade significativa.

Bitch viu eu me aproximando e levou os dedos à boca, mas não dei a ela a chance de alertar seus animais. Chutei a cara dela como eu chutaria uma bola de futebol, e ela desistiu do assobio para cobrir a cabeça com os braços. Meu pé quicou em um de seus braços e o corpo todo dela se encolheu.

Como eu não havia diminuido a minha velocidade antes de chegar nela, tive que usar as mãos para não dar com a cara na parede. Uma linha de dor quente e vermelha correu pelo meu braço com o impacto, começando pelo lugar onde o rottweiler havia mordido meu pulso. Lembrando dos cachorros, olhei para a direita, e vi o maior deles se levantando, pronto para acudir sua mestre. Coloquei uma grande parte dos meus insetos entre eu mesma e as feras. A última coisa que eu vi deles antes que o enxame bloqueasse a minha visão foi os cachorros se afastando rapidamente do enxame, assustados.

Me descobrindo em pé acima de Bitch, encolhida contra a parede, pressionei o ataque. Seus braços cobriam seu rosto e peito, mas vi sua orelha exposta como um alvo e taquei o pé nela. Sua cabeça quicou no chão, e sangue apareceu do topo de sua orelha. A visão do sangue quase me parou, mas eu sabia que recuar agora daria a ela a chance de mandar os cachorros pra cima de mim com um assobio. Meu pé encontrou seu estômago exposto, e quando ela juntou os joelhos para proteger a barriga mirei um chute entre suas pernas. Consegui chutar firmemente três vezes suas costelas antes de ela protegê-las com um cotovelo.

Não tive chance de fazer mais do que isso, porque os cachorros estavam superando seu medo dos insetos e estavam se aproximando de mim e de Bitch enquanto o enxame se expandia. Abandonei meu ataque a Bitch para me afastar e encará-los. Eu sabia que podia tacar os insetos neles, mas algo me disse que os cachorros não iam ficar ganindo e fugir enquanto sua mestre estava machucada. Eu poderia mandar o enxame atacá-los, mas se a dor das picadas e mordidas não os detesse, eles me atacariam e eu estaria na mesma situação de um minuto atrás. Eu duvidava que Bitch fosse deter os cachorros desta vez.

Uma sombra caiu sobre minha visão, como uma cortina negra se fechando na minha frente, bloqueando minha visão de metade da sala e dos cachorros. Se dissolveu em resíduos de fumaça preta um segundo depois, e me assustei ao ver Brian bem na minha frente, entre eu e os cachorros.

“Chega,” ele disse. A pequena terrier ciclope sem orelha rosnou para ele em resposta.

Ouvi um som que não reconheci. Só depois de Bitch tentar de novo, com mais sucesso, foi que eu percebi que aquilo tinha sido uma tentativa fraca de assobio. Os cachorros olharam para sua mestre e então recuaram, ainda meio afastados do enxame. Recuei um pouco também, tomando cuidado em manter Brian entre eu e as feras.

Bitch tossiu, e então levantou a cabeça para me olhar nos olhos. Ela esfregou a orelha com uma mão, e sua palma estava vermelha de sangue quando ela a abaixou. Quando o pastor alemão se aproximou dela, ela pôs a mesma mão em sua cabeça. Os outros dois cães foram para perto dela, como se pudessem protegê-la, mas sua atenção estava fixada inteiramente em mim e em Brian.

Quando uns bons segundos se passaram e Bitch não fez nenhuma menção de me atacar, mandei uma instrução para o enxame se dispersar. Pude ver Brian relaxar visivelmente enquanto eles sumiam pelas frestas.

“Nada de brigas,” ele disse, com a voz mais calma, “Estou falando com você, Rachel. Você mereceu o que a Taylor te fez.”

Ela o encarou, tossiu uma vez, e olhou para os outros dois antes de virar seu olhar raivoso para o chão.

“Taylor, senta aqui. Eu prometo que nós-”

“Não,” o interrompi, “Foda-se. Vão se foder.”

“Taylor-”

“Vocês disseram que ela não tava de boas comigo no grupo. Nunca disseram que ela estava puta o suficiente pra tentar me matar.”

Bitch e Brian começaram a falar ao mesmo tempo, mas Brian parou quando ela começou a tossir. Quando a tosse foi embora, Bitch olhou para mim e rosnou, “Se eu tivesse mandado te matar, Brutus ia ter rasgado a sua garganta antes de você conseguir gritar. Eu mandei machucar.”

Ri um pouco, só um pouco mais agudo do que eu gostaria, “Isso é ótimo. Ela tem seus cães treinados para machucar pessoas. Sério? Vão se foder. Contem isso como mais um recrutamento fracassado.”

Me dirigi para a escada, mas não pude dar dois passos antes de a cortina negra aparecer de novo, bloqueando meu caminho. Os poderes de Brian na wiki estavam listados como geração de escuridão. Eu sabia onde a escada e o corrimão estavam, então pus a mão na minha frente para me assegurar de que não ia dar com a cara num campo de força opaco, e ao descobrir que era mais parecido com fumaça, continuei meu caminho. Ao entrar na área, a escuridão serpenteou sobre minha pele, oleosa e com uma consistência esquisita. Combinado com a total ausência de luz que me impedia de saber se meus olhos estavam abertos ou fechados, era horrível.

Quando minhas mãos entraram em contato com o corrimão, um par de mãos tocou meus ombros. Me girei e o afastei de mim, minha voz alta enquanto eu gritei, “Me deixa!”

Só que as palavras quase não me alcançaram. O som ecoou como se viesse de um lugar distante, e era vazio de um jeito que me fez pensar em alguém gritando do fundo de um poço profundo. A escuridão não bloqueava apenas a luz. Engolia sons também. Eu tinha largado o corrimão ao me virar para a pessoa na escuridão, e tive um momento de pânico ao descobrir que eu não sabia mais onde a escada estava. A textura da escuridão era inconsistente, deixando difícil identificar meus movimentos. Me lembrei da sensação de se estar embaixo d’água e perder a noção de em qual direção ficava a superfície. Eu sabia onde era pra cima, claro, mas era isso.

Privação sensorial. Quando essas duas palavras me vieram à mente, relaxei um pouco. O poder de Brian bagunçava seus sentidos… Visão, audição, tato. Eu não estava limitada a eles. Usando meu poder, identifiquei onde todos os insetos do loft e da fábrica de baixo estavam. Usando-os para me localizar como um marinheiro usaria as constelações, deduzi onde a escada deveria estar e achei o corrimão. As mãos não me agarraram novamente, então corri para baixo, descendo a escada e saindo da escuridão opressiva.

Eu estava a alguns passos da porta quando Brian me chamou, “Taylor!”

Quando me virei para vê-lo, vi que ele estava sozinho.

“Vai usar seu poder em mim de novo?” perguntei, alerta, com raiva.

“Não. Não aqui fora, não sem uniforme, e não em você. Foi burrice minha fazer isso antes. Eu não estava pensando, eu só queria te impedir de fugir. Mal consigo perceber que está lá, então esqueço como isso pode afetar as outras pessoas.”

Comecei a me virar, pronta para sair andando, mas Brian deu um passo rápido em minha direção, e eu parei.

Brian tentou de novo, “Olha, desculpa. Por ter usado meu poder em você, pela Bitch.”

O cortei antes de ele falar maos alguma coisa, “Você não tem que se preocupar. Não vou contar pra ninguém o que vocês me mostraram hoje, e não vou atacar vocês se eu encontrá-los de uniforme. Eu to puta, mas não tão puta.” Não tenho certeza de quanto daquilo era mentira, mas pareceu a coisa certa a dizer.

Quando ele não disse nada em resposta, adicionei, “Vocês me ofereceram uma escolha. Eu podia pegar o dinheiro e ir embora, ou me juntar a vocês. Me deixe mudar de ideia. Depois do que a sua colega acabou de fazer, vocês me devem ao menos isso.”

“Se dependesse de mim, eu tirava a Bitch do grupo e ficava com você,” Brian falou.

Suas palavras foram como um balde de água na minha cara, me acordando. Eu tava puta, furiosa, e por quê? Porque estava me sentindo traída e desapontada. A ironia disso, dada minha razão para estar lá, não me passou despercebida. Eu não teria me sentido desapontada ou traída se eu não gostasse da companhia deles. Aqui estava Brian, expressando sentimentos parecidos do outro lado das coisas.

Respirei fundo. Adivinhei, “Mas você não pode?”

“É complicado. Por mais que eu queira você no grupo, dependemos do chefe para as mesadas, informações, equipamento e garantia de qualquer coisa que roubarmos. Contamos com a Bitch pra chegar com o peso pesado. Perderíamos tudo isso se a tirássemos do grupo.”

“Eu virei uma-” eu quase disse super heroína, “capa pra fugir dessa merda, de babacas como a Bitch.” Também tinha o fato de que a Tattletale me assustava, mas eu não podia dizer isso em voz alta.

“Volte pra dentro, Taylor. Por favor. Eu pessoalmente te garanto que não vou deixar ela fazer outra coisa assim ou eu saio do grupo. Você está machucada, sangrando, suas roupas estão rasgadas, e você deixou sua mochila com o dinheiro lá em cima. Eu sou treinado em primeiros socorros. Pelo menos deixa a gente te ajudar com isso, te dar umas roupas novas.”

Olhei para meu braço. Minha mão direita agarrava meu outro pulso, e havia sangue na manga do meu moletom. E meu uniforme ainda estava lá em cima? Que merda.

“Tá bom,” suspirei, “Mas só pra você saber, só estou voltando porque ela não quer que eu volte. Se eu desistir, ela vai achar que ganhou. Ganhou é o caralho.”

Brian sorriu e abriu a porta pra mim, “Se é o que tem pra hoje.”

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Insinuação 2.7

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Quando aceitei me juntar aos Desajustados, houve uma pequena comemoração com alguns vivas. Me senti um pouco culpada, por estar usando de subterfúgios. Também me senti contente comigo mesma, irracionalmente.

“Para onde vamos daqui?” Lisa perguntou para o Brian.

“Não tenho certeza,” disse Brian, “Não é como se já tivéssemos feito isso antes. Acho que devíamos deixar a Rachel sabendo, mas ela disse que talvez fosse trabalhar hoje.”

“Se a garota nova estiver de boa com isso, podemos ir pro apê,” Lisa sugeriu, “Ver se a Rachel está lá, celebrar a nova recruta e atualizá-la com o que ela precisar saber.”

“Pode ser,” eu disse.

“É só a algumas quadras daqui,” disse Brian, “Mas a gente vai chamar muita atenção se você for de uniforme.”

Encarei ele por um momento, não querendo entender o que ele tinha dito. Se eu demorasse demais pra responder, me toquei, arruinaria esse plano antes de ele sequer começar direito. De qualquer forma, eu queria me bater. É claro que isso ia acontecer. Me juntar ao grupo significava que eu teria que expor minha identidade, já que eles já tinham exposto as deles. Até que eu o fizesse, eles não poderiam confiar seus segredos a mim.

Eu podia culpar minha lerdeza de pensamento no pouco sono que eu havia conseguido na noite passada ou nas distrações do meu dia, mas isso não mudava os fatos. Eu havia me encurralado.

“Tá bom,” eu disse, soando mais calma do que eu me sentia. “Esse uniforme é meio desconfortável por baixo de roupas. Se eu pudesse ter um pouco de privacidade?”

“Você quer um beco, ou…” Lisa perguntou, sem completar a frase.

“Vou me trocar aqui, só vai levar um minuto,” eu disse, num impulso, olhando em volta. A maioria dos prédios da rua tinha um ou dois andares, os únicos que eram mais altos do que este em que estávamos ficavam a meia quadra de distância, além do prédio vizinho. Ele não tinha janelas com um ângulo que permitisse me ver, e eu duvidava que alguém mais longe fosse ver mais do que uma pessoinha de cinco centímetros de altura. Se alguém pudesse me ver trocando de roupa e enxergar detalhes o suficiente para me identificar, eu ficaria surpresa.

Enquanto eles três desciam pela saída de incêndio, tirei as roupas que eu tinha enfiado na mochila. Fora os pedaços de armadura, meu uniforme era basicamente uma coisa só, com as exceções da máscara e do cinto. Mantive a máscara enquanto tirava o cinto e a parte principal do uniforme. Eu não estava pelada – estava usando regata e bermuda pretas por baixo, para não passar frio. Seda não é o melhor isolante térmico do mundo. Vesti as calças e o moletom, esfregando os braços para espantar o frio. Guardei o uniforme e a lancheira plástica na mochila.

Senti o arrependimento por não ter escolhido roupas melhores para usar do que um moletom largo e jeans que eram grandes demais pra mim. Este arrependimento logo se transformou numa pontada de ansiedade. O que eles pensariam quando vissem a eu de verdade? Brian e Alec eram rapazes atraentes, ambos bonitos, de jeitos bem diferentes. Lisa, na escala entre normal e bonita, estava mais pro lado de bonita. Já o meu nível de beleza, por outro lado, me colocava em algum lugar entre ‘nerd’ e ‘normal’. Minha opinião de onde eu estava nessa escala variava de acordo com o humor que eu estivesse quando me olhasse no espelho. Essas pessoas eram legais, descoladas, assertivas. Eu era… eu.

Parei de pensar nisso antes que começasse a surtar. Eu não era a Taylor velha de sempre, aqui. Aqui e agora, eu era a garota que havia posto Lung no hospital, mesmo que acidentalmente. Eu era a garota que iria se infiltrar para conseguir os detalhes sobre uma gangue particularmente persistente de super vilões. Eu era, até conseguir um nome melhor, Bichinho, a garota que os Desajustados queriam no seu time.

Se eu dissesse que desci a saída de incêndio cheia de energia e ânimo renovado, estaria mentindo. Mesmo assim, eu estava animada o suficiente para descer a escada, ainda com a máscara, o uniforme guardado. Houveram alguns segundos aterrorizantes em que fiquei meio cega, os traços de seus rostos meras manchas borradas, antes de colocar os óculos que eu trazia na mochila.

“Oi,” eu disse, sem graça, arrumando o cabelo com as mãos, “Acho que não daria certo vocês ficarem me chamando de Bichinho ou garota nova. Eu sou a Taylor.”

Usar meu nome real era um grande risco para mim. Fiquei com medo de ser mais uma coisa que me daria vontade de me bater dali a cinco minutos, assim como perceber que teria que tirar o uniforme. Me acalmei, usando a lógica para me lembrar de que eu já estava nessa por completo. Ser honesta com meu nome bem que poderia salvar o meu couro, se um deles decidisse pesquisar um pouco sobre mim, ou se eu encontrasse alguém conhecido enquanto estivesse com eles. Eu achei que, quando tudo isso acabasse, talvez eu pudesse pedir um favor para que alguém como o Armsmaster evitasse eles vazarem meu nome real. Não era impossível, dado o nível de segurança que algumas prisões tinham para parahumanos criminosos. De qualquer forma, eu daria um jeito quando precisasse.

Alec girou levemente os olhos ao ouvir minha introdução, Brian só sorriu. Lisa, no entanto, me envolveu com um braço, tipo um abraço com um braço só. Ela era um pouco mais velha que eu, e era bem da altura certa para fazer isso. O que me pegou de surpresa foi como eu gostei do abraço. Como se eu estivesse precisando de um (vindo de alguém que não fosse o meu pai) há muito tempo.

Andamos para o meio das Docas como um grupo. Mesmo que eu tenha vivido na periferia a vida toda, e que a maioria das pessoas afirmasse que a parte da cidade onde eu morava fazia parte das ‘Docas’, eu nunca tinha ido para as áreas que davam a esse bairro sua reputação ruim. Digo, se eu não contasse a noite passada, quando estava escuro.

Não era uma área bem cuidada, e meio que dava a impressão de uma cidade fantasma, ou como uma cidade seria se uma guerra ou um desastre natural forçasse as pessoas a abandoná-la por alguns anos. Grama e mato cresciam entre as rachaduras da calçada, a rua tinha buracos tão grandes que dava pra esconder um carro dentro deles, os prédios todos com a tinta descascando, vigas enferrujadas e argamassa rachada. As cores desbotadas dos prédios contrastavam com as pichações vívidas. Passando pelo que antes havia sido uma rua principal para os caminhões que descarregavam nos depósitos e docas, vi uma fileira de postes sem fios entre eles. Em algum momento ervas daninhas haviam se alastrado por toda a altura dos postes, apenas para murchar e morrer. Agora cada um dos postes tinha uma bagunça marrom de plantas mortas penduradas neles.

Tinha pessoas também, embora não muitas estivessem passeando na rua. Haviam aquelas que já se esperavam, como uma mendiga com um carrinho de supermercado e um idoso sem camisa com a barba quase nos quadris, catando latinhas e garrafas de uma lixeira. Haviam outras que me surpreenderam. Vi uma mulher que parecia surpreendentemente normal, com roupas que não estavam velhas o suficiente para chamar atenção, levando quatro crianças quase idênticas para uma fábrica com uma placa desbotada. Me perguntei se eles estariam vivendo lá ou se ela trabalhava ali e simplesmente não tinha onde deixar suas crianças. Passamos por um jovem artista com sua namorada, sentados na calçada com pinturas à sua volta. A garota acenou para Lisa quando passamos, e Lisa acenou de volta.

Nosso destino era uma fábrica de tijolos vermelhos com uma porta de metal enorme trancada com correntes. Ambas as correntes e a porta estavam tão enferrujadas que não achei que seriam muito úteis. O tamanho da porta e a largura da garagem me fizeram pensar que caminhões grandes ou barcos pequenos costumavam entrar na fábrica por ali quando ela funcionava. O prédio em si era enorme, cobrindo quase metade da quadra, com dois ou três andares. O fundo da placa acima da porta havia desbotado de vermelho para um rosa-alaranjado claro, mas ainda dava pra ler as letras brancas dizendo ‘Soldas Redmond’.

Brian abriu para nós uma porta pequena na lateral do prédio, ao invés da porta enorme e enferrujada. O interior era escuro, iluminado apenas por fileiras de janelas empoeiradas perto do teto. Pude ver o que haviam sido máquinas gigantes e esteiras antes de terem sido reduzidas a seus esqueletos. Lençóis cobriam a maioria dos restos vazios e enferrujados. Vendo as teias de aranha, usei meu poder e senti a presença dos insetos. Ninguém havia feito nada aqui por um bom tempo.

“Vamos,” Brian me apressou. Olhei para trás e vi que ele estava na metade de uma escada em espiral que subia para um canto. Fui atrás dele.

Depois da desolação do primeiro piso, ver o segundo andar foi um choque. Era um loft (N.T.: um tipo de apartamento), e o contraste era alarmante. As paredes do lado de fora eram tijolos vermelhos, e não havia teto além do telhado e um esqueleto de metal para suporte. Em termos de área, o loft parecia ter três seções, embora fosse difícil ter certeza por causa do layout aberto.

A escada levava ao que eu chamaria de sala de estar, embora só esse cômodo já fosse mais ou menos do tamanho do andar de baixo inteiro da minha casa. O espaço era dividido por dois sofás, posicionados a noventa graus um do outro, ambos de frente para uma mesinha de centro e uma das maiores televisões que eu já tinha visto. Embaixo da televisão tinha uma meia dúzia de consoles de videogame, um DVD player e umas duas máquinas que eu não reconheci. Alto-falantes maiores do que as TVs que eu e meu pai tínhamos em casa ficavam de ambos os lados disso tudo. Atrás dos sofás haviam mesas, um espaço aberto com tapetes e estantes encostadas nas paredes. As estantes estavam cheias só pela metade com livros e revistas, com o resto do espaço tomado por coisas e trecos, desde um pé de sapato até velas.

A segunda seção eram aparentemente quartos. Só que era difícil pensar neles com essa palavra, porque eles eram mais tipo cubículos, três em cada parede com um corredor entre eles. Eles tinham um bom tamanho, e haviam seis portas, mas as paredes de cada quarto tinham só uns três metros de altura, não chegando até o teto. Três das portas tinham sido grafitadas. A primeira porta tinha uma coroa feita num estilo dramático. A segunda tinha a silhueta branca de um homem e uma mulher num fundo azul, imitando os sinais comuns de banheiro feminino e masculino. A terceira tinha o rosto de uma garota fazendo bico. Me perguntei qual seria a história, ali.

“Arte legal,” eu disse, apontando para a porta com a coroa, me sentindo meio boba por falar uma coisa dessas logo de cara.

“Valeu,” respondeu Alec. Acho que isso queria dizer que o trabalho era dele.

Olhei em volta por mais um momento. Lá no fundo do loft, a última das três seções tinha uma mesa grande e uns armários. Embora eu não pudesse ver muito bem, a não ser que eu atravessasse o loft, deduzi que aquilo era a cozinha.

Por todo o lugar, havia bagunça. Me senti quase grossa por ter reparado, mas tinham caixas de pizza empilhadas numa das mesas, dois pratos sujos na mesinha de centro, e algumas roupas jogadas num dos sofás. Vi latinhas de refrigerante – ou talvez de cerveja – arrumadas numa pirâmide na mesa da cozinha. Não era bagunçado o suficiente que fosse meio ofensivo, no entanto. Era uma bagunça significativa, como se dissesse, ‘Este é o nosso espaço.’ Nada de supervisão adulta.

“Estou com inveja,” admiti, sendo honesta.

“Nerd,” Alec disse, “Inveja do quê?”

“Eu quis dizer que é maneiro,” protestei, meio na defensiva.

Lisa falou antes que Alec pudesse responder, “Acho que o que o Alec quer dizer é que esse lugar é seu também. Esse é o nosso espaço, do grupo, e você é um membro do grupo, agora.”

“Ah,” eu disse, me sentindo burra. Lisa e Alec foram para a sala de estar, enquanto Brian foi andando até a cozinha. Quando Lisa me chamou com um gesto, a segui. Alec se deitou, tomando um sofá inteiro com isso, então me sentei do outro lado do sofá onde estava Lisa.

“Os quartos,” disse Lisa, “Do lado de lá, do mais perto para o mais longe, o do Alec, o banheiro, o meu.” Isso significava que o quarto de Alec era o da coroa, e o de Lisa era o da menina fazendo bico. Ela continuou, “Do lado de cá, quarto da Rachel, quarto dos cachorros da Rachel, e o quarto da bagunça.”

Lisa pausou, olhou para Alec e perguntou, “Você acha que ela-”

“Dãã,” Alec a cortou.

“O que?”, perguntei, meio perdida.

“Nós vamos limpar o quarto da bagunça,” Lisa decidiu, “Para que você tenha um quarto.”

Fui pega de surpresa. “Vocês não tem que fazer isso,” eu disse, “Eu tenho onde ficar.”

Lisa fez uma careta, quase que de dor. Ela me perguntou, “Podemos fazer isso, mesmo assim? Seria muito melhor se você tivesse seu próprio espaço aqui.”

Eu devi ter parecido confusa, porque Alec explicou, “Brian tem um apartamento, e foi bastante firme em não precisar ou querer um quarto aqui, mas ele e Lisa discutem o tempo todo por causa disso. Ele não tem outro lugar pra dormir, fora o sofá, se ele se machucar e não puder voltar pra casa, e não tem lugar pra deixar suas coisas, então elas acabam ficando por todo o lugar. Pegue o quarto. Você nos faria um favor.”

“Tá bom,” eu disse. Adicionei, “Obrigada, tanto pela explicação quanto pelo quarto em si.”

“Da última vez que ele encontrou a Shadow Stalker, voltou pra cá e sangrou um monte no sofá branco,” grunhiu Lisa, “um sofá de novecentos dólares, e tivemos que comprar um novo.”

“A porra da Shadow Stalker,” concordou Alec.

Brian voltou do outro lado do loft, falando alto para ser ouvido de longe, “Rachel não está aqui, nem os cachorros. Ela deve estar levando eles pra passear ou trabalhando. Droga. Fico estressado quando ela está fora.” Ele se aproximou dos sofás e viu Alec deitado em um.

“Tira as pernas daí,” Brian disse a ele.

“Tô cansado. Senta no outro sofá,” Alec falou, cobrindo a cara com um braço.

Brian olhou para Lisa e eu, e Lisa foi mais pro lado para abrir espaço. Brian olhou feio para Alec e então sentou-se entre nós. Mudei de posição e sentei em cima de uma das pernas para abrir espaço também.

“Então,” Brian explicou, “O negócio é esse. Dois mil por mês, só pra ser um membro do grupo. Isso quer dizer que você ajuda a decidir quais trabalhos a gente faz, você vai junto fazer os trabalhos, você fica ativa, e fica disponível se ligarmos pra você.”

“Eu não tenho celular,” admiti.

“A gente te arranja um,” ele disse, como se não fosse a menor preocupação. Provavelmente não era, mesmo. “Geralmente a gente consegue de uns dez a trinta e cinco mil por trabalho. Isso é dividido por quatro – por cinco, agora que você entrou.”

Assenti, e exalei devagar. “Não é pouca coisa.”

Brian acenou com a cabeça, um sorrisinho brincalhão nos lábios, “Não. Agora, quanto você sabe, sobre o que vamos enfrentar?”

Pisquei algumas vezes, e chutei, “Sobre as capas locais? Pesquisei online, li religiosamente as revistas de capas por alguns anos, um pouco mais desde que ganhei meus poderes – mas sei lá. Se eu aprendi alguma coisa nas últimas vinte e quatro horas, foi que tem muita coisa que eu não sei, e só vou descobrir do jeito difícil.”

Brian sorriu. Tipo, sorriu de verdade. Me fez pensar mais em um menino do que em um homem quase adulto. Ele respondeu, “A maioria não aprende nem isso, sabe? Vou tentar compartilhar o que sei, pra você não ser pega de surpresa, mas não tenha medo de perguntar sobre qualquer dúvida que você tenha, ok?”

Concordei, e seu sorriso aumentou. Ele disse, com uma risada tranquila, “Você não tem noção de como é um alívio saber que você leva essas coisas a sério, já que certas pessoas -” ele parou para se inclinar e chutar o lado do sofá onde Alec estava deitado, “- precisam ter o braço torcido pra ouvir alguma coisa, e outras pessoas,” ele apontou para o lado com o dedão, “acham que sabem tudo.”

“Mas eu sei tudo,” disse Lisa. “É o meu poder.”

“O quê?” eu disse, interrompendo Brian. Meu coração acelerou, mesmo que não estivesse exatamente relaxado pra começo de conversa. “Você é onisciente?”

Lisa riu, “Não, não. Mas eu sei coisas. Meu poder me conta elas.”

Engolindo em seco, esperando não estar chamando atenção por fazer isso, perguntei, “Tipo o que?” Tipo por que eu estava me juntando a eles?

Lisa sentou-se mais para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos, “Tipo como eu sabia que você estava na biblioteca quando mandei as mensagens. Se eu estivesse afim disso, e soubesse como, eu poderia ter descoberto entrando no banco de dados do site e procurando os logs para achar o endereço de onde você havia se conectado, mas meu poder me deixa pular esse passo assim.” Ela estalou os dedos.

“E por que exatamente você mencionou que sabia onde ela estava?” Brian perguntou, sua voz um pouco calma demais.

“Eu queria ver a reação dela. Zoar ela um pouquinho,” Lisa sorriu.

“Puta que p-” Brian começou, mas Lisa fez um gesto de descaso.

“Estou falando com a novata,” ela disse, “Grite comigo depois.”

Não dando a ele uma chance de responder, ela se virou para mim e explicou, “Meu poder preenche as lacunas do meu conhecimento. Eu geralmente preciso de alguma informação e partir dali, mas posso usar os detalhes que o meu poder me fornece para descobrir mais coisas, e tudo meio que se encaixa, me dando um fluxo estável de informações.”

Engoli em seco de novo, “E você sabia que uma capa estava vindo noite passada?”

“É,” ela disse, “Pode chamar isso de um chute calculado.”

“E é assim que você sabia as coisas que aconteceram no QGP?”

O sorriso de Lisa aumentou, “Tenho que admitir que trapaceei com isso. Descobrir senhas é bem fácil com meu poder. Eu dou uma olhada nos arquivos do QGP, e assisto um pouco de reality TV (N.T.: como reality shows) nas suas câmeras de segurança quando estou entediada. É útil não apenas para descobrir a roupa suja com o que vejo, ouço e leio, mas meu poder preenche os detalhes em coisas como mudanças na rotina deles e como são as relações entre os grupos em geral.”

Encarei ela, uma boa parte de mim horrorizada por eu ter me metido numa infiltração num grupo com uma garota com uma super intuição.

Interpretando meu silêncio como admiração, ela sorriu seu sorriso vulpino, “Não é tão incrível assim. Eu realmente me dou melhor com coisas concretas. Onde coisas estão, horários, criptografia, bla bla bla. Eu sei ler mudanças de linguagem corporal e rotina, mas é menos confiável e meio que um saco. Já tenho informação demais sem isso, entende?”

Eu entendia, sua explicação ecoando meus próprios pensamentos sobre minha habilidade de ver e ouvir coisas pelos meus insetos. Mesmo assim, suas palavras não me fizeram sentir muito melhor.

“E,” disse Brian, ainda olhando feio para Lisa, “mesmo que ela saiba um monte de coisas, isso não quer dizer que a Lisa não possa ser uma anta às vezes.”

Lisa socou o braço dele.

“Então, quais são seus poderes?” perguntei a Brian e Alec, querendo mudar de assunto.

Eles não tiveram chance de responder. Ouvi latidos do andar de baixo. Em questão de segundos eu estava em pé, a três passos do sofá. Três cães, rosnando, haviam me encurralado contra a parede, baba voando enquanto suas bocas escancaradas mostravam os dentes, tentando morder meu rosto e minhas mãos.

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Insinuação 2.6

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Apareci de uniforme. Eu não dava a mínima se eles achassem que eu estava sendo grossa ou paranóica, eu achava melhor estar à prova de facadas do que ser legal.

Eu havia pegado um ônibus da biblioteca para a minha casa e vestido o uniforme por baixo das roupas. A maior parte da armadura do meu uniforme eram pedaços separados, seguros por faixas que iam por dentro do tecido do uniforme. Nem todos eram, no entanto. Eu havia feito um pouco da armadura parte do bodysuit, seções finas e rígidas de armadura em locais como o centro do peito, costas, canelas, pulsos, quadris e em cima dos ombros; para que, quando eu vestisse os pedaços maiores, a textura da parte de dentro da armadura fizesse os pedaços se encaixarem e impedisse que eles saíssem do lugar. Me olhei no espelho antes de sair, e não achei que alguém ia notar a não ser que eu fizesse uma pose estranha e a pessoa estivesse prestando bastante atenção no que eu estava vestindo. Pus roupas largas por cima do uniforme, um dos meus jeans mais soltos e um moletom, e mesmo assim não me senti muito discreta.

Me troquei do mesmo jeito que o tinha feito na noite passada, encontrando uma viela deserta, rapidamente colocando a máscara, tirando as roupas que eu usava por cima e as colocando dentro de uma mochila velha do meu pai. Eu tinha escondido a mochila antes de sair patrulhando ontem à noite, mas hoje optei por levá-la comigo. Saí pelo outro lado da rua.

Quando eu estava a uma distância curta do local da luta de noite passada, mandei uma dúzia de moscas para pesquisar o terreno. Me foquei no que elas estavam sentindo.

Insetos, provavelmente nem preciso dizer isso, sentem as coisas de um jeito muito diferente do nosso. Mais do que isso, eles sentem e processam as coisas numa velocidade muito diferente. O resultado era de que os sinais que meu poder conseguia traduzir e me mandar de uma maneira que o meu cérebro pudesse entender vinham enfraquecidos. Informação visual vinha como manchas de tinta num monotom de claro e escuro, alternando entre embaçadas demais e nítidas demais. Sons eram quase dolorosos de se ouvir, se transformando em vibrações de baixo que distorciam minha visão e ruídos agudos que se pareciam com unhas arranhando um quadro negro. Multiplique isso por cem, mil, dez mil, e era demais. Quando meu poder era novo para mim, eu não conseguia desligá-lo. A overdose de sentidos nunca realmente me machucou, mesmo nos piores momentos, mas me deixava muito miserável. Agora, eu mantinha aquela parte do meu poder desligada noventa e nove porcento do tempo.

Meu método preferido de sentir com os insetos era o toque. Não é como se o tato deles fosse traduzido muito melhor do que a audição ou a visão, tinha mais a ver com o fato de que eu podia sentir onde eles estavam em relação a mim. Eu tinha total noção de quando eles estavam bem quietinhos, se estavam se mexendo, ou se alguma coisa estava movimentando eles. Aquilo era uma coisa que se traduzia bem.

Então, quando mandei os bichinhos pesquisarem, primeiro os doze pares de olhos compostos identificaram o trio como silhuetas borradas em cima de uma sombra maior e mais definida, iluminados por trás por um foco de luz branca que só podia ser o sol. Mandei as moscas mais perto, em direção às ‘cabeças’ das figuras, e elas aterrissaram em pele. Nenhum dos três estava de máscara, o que me deu motivos para acreditar que Tattletale estivera falando a verdade. Eles não estavam de uniforme. Não haviam garantias de que os três eram mesmo Tattletale, Grue e Regent, mas me senti confiante o suficiente para dar a volta na saída de incêndio e subir no telhado.

Eram eles, sem dúvidas. Os reconheci mesmo sem os uniformes. Dois rapazes e uma moça. A moça tinha seu cabelo loiro escuro preso numa trança, um punhado de sardas espalhadas pelo nariz e bochechas e o mesmo sorriso vulpino que reconheci da noite anterior. Ela usava uma camiseta de manga comprida preta com um desenho estilizado e uma saia jeans na altura dos joelhos. Fui tomada de surpresa pelo verde fundo-de-garrafa de seus olhos.

O menor e mais novo dos dois rapazes – por volta da minha idade – era com certeza Regent. Reconheci os cachos pretos. Ele era um cara atraente, mas não de um jeito que me faria dizer que ele era lindo. Ele era bonitinho, com um rosto triangular, pele clara, olhos azuis e lábios cheios virados numa leve expressão de desagrado. Ele me parecia ter ascendência francesa ou italiana. Dava pra imaginar as garotas caindo em cima dele, mas eu não estaria interessada. Os moços bonitinhos – Leonardo DiCaprio, Marcus Firth, Justin Bieber, Johnny Depp – nunca chamavam a minha atenção. Ele estava usando uma jaqueta branca com capuz, jeans e tênis, de pé na borda do telhado, uma garrafa de coca na mão.

Em contraste, Grue tinha uma aparência surpreendente. Pelo menos uns vinte centímetros mais alto que eu, Grue tinha a pele escura, cornrows (N.T.: um tipo de penteado) na altura dos ombros e aquela mandíbula masculina que geralmente era associada com super heróis homens. Ele estava de jeans, botas e uma camiseta verde lisa, que me pareceu um pouco fria para a primavera. Eu notei que ele tinha uma definição muscular considerável em seus braços. Esse era um cara que malhava.

“E ela chegou,” Tattletale anunciou, “Pode pagar.”

A careta mau-humorada de Regent se pronunciou por um segundo, e ele pegou em seu bolso um maço de notas, que entregou para Tattletale.

“Vocês apostaram se eu ia vir ou não?” eu adivinhei.

“Apostamos se você viria de uniforme,” Tattletale me disse. Em seguida, mais para o Regent do que para mim, falou, “e eu ganhei.”

“De novo,” murmurou Regent.

“Culpa sua por ter apostado, pra começo de conversa,” disse Grue, “Mesmo se não fosse a Tattle, era uma aposta inútil. Aparecer com uniforme faz sentido demais. É o que eu faria.” Ele tinha uma voz bacana. Era uma voz adulta, mesmo que sua aparência me desse a impressão de um rapaz no final da adolescência.

Ele estendeu a mão para mim, “Oi, eu sou Brian.”

Apertei sua mão, e ele não teve vergonha de apertar firme. Eu disse, “Podem me chamar de Bichinho, acho. Pelo menos até eu achar um nome melhor, ou até eu ter certeza de que isso não é um truque ardiloso.”

Ele deu de ombros, “Ok.” Não havia o menor sinal de ele ter ficado ofendido com a minha desconfiança. Eu quase me senti mal.

“Lisa,” Tattletale se introduziu. Ela não me ofereceu um aperto de mão, mas acho que teria sido estranho se ela tivesse oferecido. Não que ela não parecesse amigável, mas ela não tinha a mesma aura de bacanisse que o Grue tinha.

“Meu nome é Alec,” Regent me informou, com uma voz quieta, e completou, “E a Bitch é Rachel.”

“Rachel não quis vir hoje,” disse Grue, “Ela não concordou com o nosso objetivo aqui.”

“O que nos traz a questão,” cortei, “Qual é o objetivo aqui? Estou estranhando vocês revelarem suas identidades secretas assim, ou fingirem estar fazendo isso.”

“Desculpe,” Grue… Brian se desculpou, “Isso foi ideia minha. Achei que seria legal mostrar confiança.”

Por trás das lentes amarelas da minha máscara, meus olhos se estreitaram, indo de Lisa para Alec para Brian. Não consegui decifrar nada em suas expressões.

“Por que, exatamente, vocês precisam da minha confiança?”

Brian abriu a boca, e a fechou. Olhou para Lisa, que se abaixou e pegou uma lancheira de plástico. Ela a ergueu para mim.

“Eu disse que a gente te devia uma. Todo seu, sem compromissos.”

Sem pegar a lancheira, virei a cabeça para ver melhor a imagem, “Alexandria. Ela era a minha membro preferida do Protetorado quando eu era criança. A lancheira é colecionável?”

“Abra,” sugeriu Lisa, girando os olhos.

Peguei a lancheira. Pelo peso e por como o conteúdo se mexia, imediatamente saquei o que era. Abri a lancheira.

“Dinheiro,” respirei fundo, abobada por ganhar tanto assim de repente. Oito maços de notas, envoltos por faixas de papel. Cada uma tinha um número escrito com canetinha. Duzentos e cinquenta cada…

Lisa respondeu antes de eu somar de cabeça, “Dois mil.”

Fechei a lancheira. Sem a menor ideia do que falar, me mantive em silêncio.

“Você tem duas opções,” explicou Lisa, “Pode aceitar isso como um presente. Um obrigado por, intencionalmente ou não, salvar nossa pele do Lung noite passada. E talvez um incentivozinho para contar a gente como seus amigos quando for sair de uniforme pra fazer suas traquinagens.”

Seu sorriso aumentou, como se ela tivesse dito algo que achou engraçado. Talvez fosse a ironia de uma vilã dizendo “traquinagens”, ou como a frase soava brega. Ela continuou, “Entre disputas territoriais, diferenças ideológicas, e discrepâncias de egos e poderes em geral, são raras as pessoas na comunidade vilã que não nos atacam à primeira vista.”

“E a segunda opção?” perguntei.

“Você pode aceitar isso como seu primeiro pagamento da mensalidade que ganharia como membro dos Desajustados,” Brian falou, “Como uma de nós.”

Fiquei olhando os três de um para o outro, procurando a piada. Lisa ainda tinha um sorrisinho na cara, mas eu estava começando a ver aquilo como sua expressão normal de sempre. Alec parecia meio entediado. Brian estava bem sério. Caramba.

“Dois mil por mês,” eu disse.

“Não,” Brian me cortou, “Isso é só o que o chefe paga pra gente continuar juntos e ativos. Nós ganhamos, hã, um bom tanto além disso.”

Lisa estampou um sorriso malandro na cara, e Alec riu um pouquinho ao chacoalhar sua garrafa de coca. Anotei mentalmente essa menção a um ‘chefe’.

Não querendo mudar de assunto, me apressei em repassar mentalmente a conversa toda, agora ciente do contexto de uma oferta de ‘emprego’.

Perguntei, “Então Bitch não veio porque ela era contra o, er, recrutamento?”

“É,” disse Alec, “Fizemos uma votação, e ela disse não.”

“Em compensação, o resto de nós votou sim,” Brian completou rapidamente, olhando feio para Alec. “Ela vai aceitar. Ela sempre vota contra membros novos, porque não quer dividir o dinheiro por cinco.”

“Então vocês já fizeram esse negócio de recrutar antes,” concluí.

“Hã, sim,” Brian parecia meio envergonhado, esfregou a nuca, “A gente não se deu bem. Tentamos com a Spitfire, e ela fugiu assustada antes mesmo de oferecermos a vaga a ela. Nossa culpa, por ter levado a Bitch junto daquela vez.”

“E daí ela foi recrutada por outro grupo,” disse Alec.

“É,” Brian deu de ombros, “Ela foi laçada pela Faultline antes de a gente conseguir uma segunda chance. Fizemos uma oferta à Circus, também, e ela deixou bem claro que trabalha sozinha.”

“E aproveitou a chance pra me ensinar alguns xingamentos novos,” disse Alec.

“Ela foi bem expressiva sobre como segue carreira solo,” Brian admitiu.

“Então vocês estão dando um passo a mais, sem uniformes, mostrando confiança e uma grana extra logo de cara, pra eu me juntar a vocês,” eu disse, ao juntar as peças mentalmente.

“É, mais ou menos isso aí,” Brian concordou. “Agora, sem o Lung para chefiar a ADM, é certeza que vai ter um empurra-empurra com relação aos territórios das várias gangues e grupos daqui. Nós, a Galera da Faultline, o resto da ADM, o Império Oitenta e Oito, os vilões solo e quaisquer grupos ou gangues de fora da cidade afim de pegar um pedaço de Brockton Bay. Quando rolar isso, queremos ter músculos. Não estragamos nenhum trabalho até agora, mas do jeito que tá, nós três aqui achamos que é uma questão de tempo até a gente se meter numa luta que não podemos ganhar, com Bitch sendo a única que pode foder mesmo com alguém.”

“Só não entendo o que vocês querem comigo,” eu disse, “Eu controlo insetos. Isso não vai deter a Alexandria, a Glory Girl ou o Aegis.”

“Você fodeu legal o Lung,” Lisa deu de ombros ao dizer, “Tá bom pra mim.”

“Hã, na verdade não,” rebati, “Caso não tenham notado, vocês é que o impediram de me executar ontem à noite. Isso só prova o meu argumento.”

“Querida,” disse Lisa, “Grupos inteiros de capas lutaram contra o Lung e tiveram suas bundas chutadas. Ter conseguido o que você fez é fantástico. O fato de aquele cuzão estar numa cama de hospital por sua causa é só a cereja do bolo.”

Minha resposta travou antes mesmo de sair da minha boca. Só consegui um “Hein?”

“É,” Lisa ergueu uma sobrancelha, “Você sabe que bichos mandou picar ele, né? Viúva Negra, Aranha Marrom, Mariposa Marrom, Mildei, Formigas de Fogo-”

“É,” a cortei, “Eu não sei os nomes oficiais, mas eu sei exatamente o que mordeu ele, o que picou e o que os venenos fazem.”

“Então por que está surpresa? Um ou dois desses insetos seriam perigosos pra caralho se mordessem só uma vez, mas você fez eles morderem várias vezes. Pior ainda, quando Lung foi preso e foi examinado por médicos, o chefe idiota deles disse algo como, ‘Oh, bem, isso parece mesmo com mordidas e picadas de insetos, mas os venenosos de verdade não mordem mais de uma vez. Vamos combinar de checar de novo daqui a algumas horas’.”

Entendi onde aquilo ia dar. Tapei a boca com as mãos, deixando escapar um “Ai meu deus” baixinho.

Tattletale sorriu, mostrando os dentes. “Não acredito que você não sabia.”

“Mas ele se regenera!” protestei, tirando as mãos da boca, “Toxinas não deviam ter nem um porcento do efeito normal contra alguém que se cura como ele.”

“Têm efeito o suficiente, eu acho, ou a regeneração dele parou de funcionar em algum ponto,” Lisa me disse, “Pela hora em que foram vê-lo, o grandalhão estava começando a apresentar sinais de necrose de tecido em larga escala. Seu coração até parou algumas vezes. Você lembra bem onde mandou os bichinhos picarem?”

Fechei os olhos. Eu podia ver minha reputação indo pro fundo do poço. Uma das aranhas que eu estivera usando era a aranha marrom. Provavelmente a aranha mais perigosa dos Estados Unidos, mais até que a Viúva Negra. Uma picada da aranha marrom já fazia um bom pedaço de carne em volta da mordida apodrecer. Eu havia feito os bichinhos picarem Lung nas partes mais sensíveis de sua anatomia.

“Digamos que mesmo com a habilidade de se curar várias vezes mais rápido do que uma pessoa normal, Lung vai ter que se sentar para usar o banheiro.”

“Tá, isso basta,” Brian impediu Lisa de continuar, “Lung vai se recuperar, certo?”

Do jeito que o Brian estava olhando pra ela, achei que a Lisa fosse mentir, qualquer que fosse a verdade. Ela deu de ombros e me disse, “Ele já está se recuperando. Devagar, mas ele está indo, e deve estar em perfeitas condições em de seis meses a um ano.”

“É melhor você rezar pra ele não fugir,” Alec disse, sua voz ainda quieta mas com um tom divertido, “Porque se alguém fizesse meu homenzinho cair pra fora, eu ia ficar sanguinário.”

Brian beliscou o nariz dele, “Obrigado por isso, Alec. Do jeito que vocês dois estão, nossa recruta em potencial vai fugir num ataque de pânico antes da ideia de virar uma Desajustada sequer passar pela mente dela.”

“Como sabem disso?” perguntei, assim que o pensamento me passou pela cabeça. Quando Brian se virou para mim com uma cara como se ele pensasse ter me ofendido com alguma coisa, esclareci, “Tattletale, ou Lisa, ou o que quer que eu deva te chamar. Como você sabe essas coisas sobre o Lung… ou que eu estava na Biblioteca, ou que a capa estava vindo, noite passada?”

“Biblioteca?” Brian perguntou, olhando feio de novo para Lisa.

Ela ignorou a pergunta dele e piscou para mim, “Uma garota tem seus segredos.”

“Lisa é metade da razão de não termos falhado em nenhum trabalho ainda,” Alec disse.

“E nosso chefe é uma boa parte do resto,” ela completou sua frase.

“É o que vocês falam,” Brian resmungou, “Mas não vamos entrar nesse assunto.”

Lisa sorriu para mim, “Se você quiser saber, temo que os detalhes do que fazemos só vêm com a carteirinha de membro. O que eu posso te contar é que somos um grupo bom. Nosso histórico é top de linha, e fazemos isso por diversão e dinheiro. Nada de planos grandiosos. Nenhuma responsabilidade de verdade.”

Apertei os lábios, por trás da máscara. Embora eu tivesse conseguido informações, me senti como se eu tivesse muito mais perguntas. Quem era esse chefe deles? Estaria ele bancando outros grupos de vilões bem-sucedidos, em Brockton Bay ou onde quer que fosse? O que fazia desses caras tão eficientes, e será que eu poderia copiar ou roubar esse segredo?

Não era como se eu estivesse fazendo um pacto de sangue ou coisa parecida. Eu podia ganhar tanto com isso.

“Tá bom então, eu tô dentro,” disse a eles.

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Insinuação 2.2

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A corrida me ajudou a acordar, assim como o banho quente e a xícara de café que meu pai havia deixado para mim. O cansaço aumentou ainda mais o senso de dissonância que eu sentia indo para a aula, um dia tão normal. Meras horas atrás, eu havia estado numa luta de vida ou morte, eu até conheci o Armsmaster. Agora era um dia como qualquer outro.

Me senti um pouco nervosa ao chegar na primeira aula. Tendo basicamente matado duas aulas na sexta passada, não entregando um trabalho importante, pensei que provavelmente a Sra. Knott já sabia. Não me senti aliviada quando ela olhou para mim e me deu um sorriso duro antes de voltar sua atenção para o computador. Aquilo só significava humilhação dobrada quando a aula fosse interrompida por alguém vindo da secretaria. Uma parte de mim queria matar essa aula também, só pra evitar a possível humilhação e para não chamar a atenção.

Enfim, eu estava ansiosa ao sentar-me na frente do computador, o que era um saco porque aula de Informática era uma das poucas partes do meu dia de aula que eu não odiava. Pra começar, era a aula em que eu estava indo bem. Além disso, nem a Madison, nem Sophia nem Emma estavam na minha classe, embora algumas de suas amigas estivessem. Essas garotas geralmente não sentiam necessidade de me atormentar sem o trio por perto, e estavam afastadas de mim pelo fato de eu estar na turma avançada da aula. Uns três quartos das pessoas na sala não sabiam nada sobre computadores, vindo de famílias que não tinham dinheiro para comprar um ou que não se interessavam muito por isso, então eles praticavam digitar sem olhar o teclado e tinham aulas de como usar mecanismos de busca (tipo o Google). Contrastando, eu estava no grupo que estava aprendendo programação básica e bancos de dados. Não ajudava muito a melhorar a reputação de nerd que eu já tinha, mas eu podia lidar com isso.

A Sra. Knott era uma mulher alta, de ombros largos e mandíbula forte (????). Ela era uma professor bacana, geralmente se contentava em passar um trabalhinho para a turma avançada e então focar na maioria ignorante da sala pelo resto da aula. Eu gostava disso – porque eu geralmente terminava o trabalho em meia hora, o que me deixava uma hora para fazer o que eu quisesse. Minha cabeça tinha estado cheia dos acontecimentos da noite passada quando fui correr, e a primeira coisa que eu fiz quando o computador antigo terminou seu processo agonizante de abrir a área de trabalho foi procurar informações.

O lugar para se procurar notícias e discussões sobre capas era o Parahumanos Online. A página principal mostrava as mais recentes notícias internacionais envolvendo capas. Daí, eu podia ir para a wiki, onde havia informações específicas sobre cada capa, grupo e evento, ou para os fóruns, que se dividiam em quase cem sub-fóruns, para cidades e capas diferentes. Abri a wiki numa aba, e então procurei e abri o fórum de Brockton Bay em outra.

Eu tinha a sensação de que o líder do grupo que eu tinha encontrado era ou Tattletale ou Grue. Procurei por ela na wiki. O que achei foi uma decepção minúscula que começava dizendo: “Este artigo é um toco. Seja um herói e nos ajude a expandi-lo.” Era uma frase descrevendo-a como uma suposta vilã ativa em Brockton Bay, com uma foto borrada. A única informação nova para mim era que seu uniforme era lilás. A pesquisa nos fóruns não me deu absolutamente nenhum resultado. Nem mesmo uma dica de qual era o poder dela.

Procurei pelo Grue. Até tinha informação sobre ele, mas nada detalhado ou definitivo. A wiki dizia que ele estava ativo há quase três anos, cometendo crimes pequenos como assaltar lojas pequenas e sendo uma espécie de segurança para alguém que quisesse um pouco de músculo superpoderoso num trabalho. Recentemente, ele havia passado para crimes maiores, incluindo roubos a corporações e um assalto a um cassino, junto com seu grupo novo. Seu poder estava listado como geração de escuridão na barrinha embaixo de sua foto. Ela parecia ter uma qualidade decente, mas seu foco, Grue, era apenas uma silhueta preta borrada no centro.

A seguir, procurei por Bitch. Nenhum resultado. Fiz outra busca por seu nome mais oficial, Hellhound, e achei um monte de informações. Rachel Lindt nunca havia realmente tentado esconder sua identidade. Ela havia vivido nas ruas durante a maior parte de sua carreira criminal, fugindo sempre que a polícia ou uma capa fosse atrás dela. As visões e encontros com a garota sem-teto terminaram mais ou menos um ano atrás – inferi que foi quando ela se juntou a Grue, Tattletale e Regent. A imagem na barrinha era de uma câmera de segurança – uma garota de cabelo escuro, sem máscara, que eu não chamaria de bonita. Ela tinha um rosto meio quadrado, com feições grosseiras e sobrancelhas grossas. Ela estava montando um de seus ‘cachorros’ monstruosos como um jóquei monta um cavalo, bem no meio de uma rua.

De acordo com a wiki, seus poderes haviam se manifestado quando ela tinha catorze anos, seguidos quase imediatamente por ela demolindo a casa da família que a havia adotado, ferindo sua mãe adotiva e outras duas crianças adotadas no processo. Isto havia se seguido por dois anos de brigas e recuos pelo Maine enquanto vários heróis e grupos tentavam apreendê-la, e ela sempre conseguia derrotá-los ou fugir. Ela não tinha nenhum poder que a deixasse mais forte ou mais rápida que uma garota qualquer, mas aparentemente era capaz de transformar cachorros comuns nas criaturas que eu tinha visto no telhado. Monstros do tamanho de um carro, puro músculo, ossos, presas e garras. Uma caixa vermelha quase no fim da página dizia, “Rachel Lindt tem uma identidade pública, mas é particularmente hostil, anti-social e violenta. Caso a reconheça, não se aproxime e não a provoque. Deixe a área imediatamente e notifique as autoridades quanto a sua última localização conhecida.” Bem no final da página havia uma lista de links relacionados a ela: dois fansites e uma reportagem sobre suas atividades iniciais. Uma busca nos fóruns me deu resultados demais, me incapabilizando a discernir entre lixo, discussões, especulações e adoração a vilões para encontrar os núcleos de verdade naquilo tudo. Ao menos, ela era famosa. Suspirei e continuei, anotando mentalmente um lembrete de investigar melhor quando tivesse tempo.

O último membro do grupo era Regent. Já que o Armsmaster havia dito que ele era discreto, eu não estava esperando achar muita coisa. Fiquei surpresa ao encontrar menos que isso. Nada. Minha pesquisa na wiki resultou numa resposta automática, “Não há resultados para esta busca. 32 endereços IP buscaram a Wiki de Parahumanos.net por ‘Regent’ em 2011. Gostaria de criar uma página?” Os fóruns também não me mostraram nada. Até procurei por outras escritas de seu nome, como Regence e Recant, caso eu tivesse ouvido errado. Não achei nada.

Se meu humor já estava azedo quando cheguei na primeira aula, os becos sem saída só pioraram a situação. Voltei minha atenção ao trabalho em sala, fazer uma calculadora em Visual Basic, mas era muito trivial para me distrair. Os trabalhos de quinta e sexta já haviam nos dado as ferramentas para fazer isso, então era só juntar e encher linguiça. Eu não me importava em aprender coisas, mas trabalhar só por trabalhar era irritante. Eu fiz o mínimo, chequei que não tinha erros, movi o arquivo para a pasta de “trabalhos completos” e voltei para a internet. Afinal, o trabalho só demorou quinze minutos.

Procurei Lung na wiki, o que eu já havia feito antes, como parte de minha pesquisa e preparação para ser uma super heroína. Eu queria saber com certeza quem eram os vilões proeminentes das redondezas e o que eles podiam fazer. A busca por ‘Lung’ foi redirecionada para uma página geral sobre sua gangue, a ADM, com um bom bocado de informações detalhadas. A parte sobre os poderes de Lung se encaixava bem com a minha experiência, embora não houvesse menção de sua super audição ou de ele ser à prova de fogo. Considerei adicionar essa informação, mas decidi não fazê-lo. Não era seguro, havia a possibilidade de isso ser rastreado até a escola Winslow, e então até mim. De qualquer forma, provavelmente seria deletado como especulação sem provas.

A seção embaixo da descrição de Lung e seus poderes cobria seus subordinados. Era estimado que ele tivesse uns quarenta ou cinquenta capangas trabalhando para ele em Brockton Bay, escolhidos entre jovens asiáticos. Não era nada comum uma gangue ter membros de tantas nacionalidades como a ADM tinha, mas Lung tinha uma missão de conquistar e absorver toda gangue com membros asiáticos e muitas sem. Quando ele conseguia a mão-de-obra que precisava, as gangues não-asiáticas eram dispersadas por seus recursos, seus membros descartados. Mesmo que não houvessem mais gangues na parte leste da cidade para absorver, ele ainda estava recrutando zelosamente. Seu método agora era ir atrás de qualquer pessoa com mais de doze anos e menos de sessenta. Não importava se você era membro de uma gangue ou não. Se você era um asiático morando em Brockton Bay, Lung e seu pessoal esperavam que você ou se juntasse a eles ou pagasse um tributo de uma forma ou de outra. Haviam reportagens locais sobre isso, artigos de jornal, e eu podia lembrar dos avisos na secretaria da escola dizendo onde as pessoas que virassem um alvo deles poderiam encontrar ajuda.

Os tenentes de Lung estavam listados como Oni Lee e Bakuda. Eu já sabia o geral sobre Oni Lee, mas fiquei intrigada quanto às mudanças recentes em seu artigo da wiki. Haviam detalhes específicos sobre seus poderes: ele podia se teleportar, mas quando fazia isso, ele não desaparecia. Quando ele fazia isso, seu ‘eu original’, por falta de um termo melhor, ficaria onde estava, sendo ativo por de cinco a dez segundos antes de se desintegrar numa nuvem de cinzas de carbono. Essencialmente, ele podia criar outra versão de si mesmo em algum lugar próximo, enquanto sua versão antiga duraria tempo o suficiente para te distrair ou atacar. Se isso não fosse assustador o suficiente, haviam relatos de ele segurando uma granada em sua mão ao se duplicar repetidamente, com suas duplicatas de vida curta agindo como homens-bomba suicidas. Pra completar, a página da wiki de Oni Lee tinha uma caixa vermelha de aviso similar à que Bitch/Hellhound tinha na dela, sem o pedaço sobre identidade pública. Pelo que sabiam dele, as autoridades haviam decidido classificá-lo como um sociopata. O aviso cobria os mesmos elementos gerais: muito violento, perigoso, não devia ser provocado, e por aí vai. Olhei sua foto. Seu uniforme consistia em um bodysuit (N.T.: uma roupa que cobre o corpo todo, tipo um collant do tamanho de um macacão) preto com um cinto preto para pendurar suas facas, armas e granadas. Os únicos pontos de cor nele eram sua máscara estilo demônio japonês, vermelha com duas listras verdes de cada lado. Fora a máscara, seu uniforme tinha a aparência distinta de um ninja, o que só aumentava a impressão de que ele era um cara que podia e iria enfiar uma faca entre suas costelas.

Bakuda era um artigo novo, adicionado à página wiki da ADM apenas dez dias atrás. A foto só a mostrava dos ombroa para cima, uma moça de cabelos pretos e lisos, óculos de proteção grandes e opacos sobre seus olhos e uma máscara de metal com um filtro estilizado de máscara de gás cobrindo a metade de baixo de seu rosto. Um cordão trançado de fios pretos, amarelos e verdes dando a volta em um ombro. Não dava pra saber sua etnicidade com a máscara e os óculos, nem sua idade.

A wiki tinha um monte dos detalhes que Armsmaster havia me contado. Bakuda havia feito uma universidade de refém com sua habilidade sobre-humana de projetar e fabricar bombas de alta tecnologia. Havia um link para um vídeo chamado ‘Ameaça de Bomba em Cornell’, mas não achei inteligente tocá-lo na escola, principalmente sem fones de ouvido. Decidi ver quando chegasse em casa.

A próxima coisa que me chamou a atenção foi a seção denominada ‘Derrotas e Capturas’. Resolvi ler. De acordo com a wiki, Lung aparentemente havia sido derrotado algumas vezes por vários grupos, desde a Guilda até os grupos locais de Nova Onda, Vigilantes e o Protetorado, mas sempre conseguia escapar, até noite passada. Um pedaço dizia, ‘Armsmaster emboscou e derrotou o líder da ADM, que estava enfraquecido por um encontro recente com uma gangue rival. Lung foi levado ao QGP para custódia até ser julgado via teleconferência. Dado o histórico criminal extenso e bem documentado de Lung, é esperado que ele seja detido na Gaiola caso seja julgado culpado.

Respirei fundo e exalei devagar. Eu não sabia o que pensar. Por direito, eu deveria estar brava pelo Armsmaster ter pego os créditos da luta que poderia ter me custado a vida. Ao invés disso, senti uma alegria borbulhante. Senti vontade de chacoalhar o ombro do garoto ao meu lado e apontar para a tela, dizendo, “Eu, eu tornei aquilo possível! Eu!”

Com novo entusiasmo, abri a aba do fórum e comecei a procurar o que as pessoas estavam falando sobre isso. Um post de um fã ou subordinado de Lung ameaçou violência contra Armsmaster. Havia um pedido de alguém por mais informações na luta. Pausei ao ler um post perguntando se Bakuda poderia usar bombas em larga escala e a ameaça de potenciais milhares ou centenas de milhares de mortos, para resgatar Lung.

Tentei tirar aquilo da mente. Se acontecesse, seria responsabilidade de heróis melhores e mais experientes do que eu.

Reparei que havia uma pessoa pela qual eu não tinha procurado. Eu mesma. Abri a página de busca avançada do fórum Parahumanos.net e fiz uma busca por várias palavras. Incluí inseto, aranha, enxame, bichinho, praga, e um monte de outros termos que eu lembrava de quando eu estava procurando por um bom nome de heroína. Ajustei para pesquisar por posts feitos nas últimas 12 horas e cliquei em Pesquisar.

Meus esforços encontraram dois posts. Um se referia a um vilão chamado Pestilência, ativo no Reino Unido. Aparentemente, Pestilência era uma das pessoas que podia usar ‘magia’. Quer dizer, se você acreditasse que magia era real, e não alguma interpretação errada ou confusa de um certo conjunto de poderes.

O segundo post era na seção ‘Conexões’ do fórum, onde donzelas resgatadas deixavam seus contatos para seus heróis reluzentes, onde convenções e eventos eram organizados e onde pessoas postavam ofertas de emprego para capas e os obcecados por capas. A maioria era criptografada ou bem vaga, se referindo a coisas que somente as pessoas em questão saberiam.

O título da mensagem era, simplesmente, “Bichinho”.

Cliquei nela e esperei impacientemente para que o sistema obsoleto e o modem sobrecarregado da escola carregassem a página. Era uma mensagem curta.

Assunto: Bichinho

Te devendo uma. Gostaria de pagar o favor. Encontro?

Mande uma mensagem,

Tt.

O post era seguido por duas páginas de pessoas comentando. Três pessoas sugeriram que talvez fosse algo importante, enquanto uma meia dúzia os chamavam de chapéus de lata, o termo de Parahumanos.net para teoristas conspiratórios.

Era significativo, no entanto. Eu não conseguia interpretar de nenhuma outra forma; Tattletale havia achado um jeito de entrar em contato comigo.

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Gestação 1.5

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Não se aprecia direito o que superforça significa até que se veja alguém saltar da calçada ao segundo andar de um prédio do outro lado da rua. Ele não alcançou o telhado, mas chegou a uns três quartos da altura. Eu não sabia o que exatamente impedia Lung de cair, mas pode ser que ele simplesmente enterrasse as pontas dos dedos no prédio.

Enquanto ele subia ruidosamente, olhei para minha única rota de fuga. Não me iludi quanto à minha capacidade de descer pela saída de incêndio antes que Lung chegasse ao telhado e sacasse por onde eu tinha fugido. Pior ainda, ele chegaria à rua antes de mim, saltando do telhado, ou atearia fogo em mim por entre os degraus enquanto eu descesse. A ironia de a saída de incêndio ser tudo menos isso não me passou despercebida.

Desejei poder voar. Minha escola oferecia a escolha entre Química, Biologia e Física, com Ciência Básica para os mais atrasados. Eu não havia escolhido Física, mas ainda tinha certeza de que, não importando quantos eu conseguisse juntar, pular do telhado com um enxame de insetos voadores me segurando seria tão efetivo quanto aquelas crianças que apareciam no jornal, sonhando em ter poderes e pulando de muros com guarda-chuvas e lençóis.

Por enquanto, eu estava encurralada.

Alcançando a armadura convexa que cobria minha coluna, passei os dedos pelas coisas que eu tinha enfiado lá. As EpiPens eram para tratar choque anafilático em caso de reação alérgica a picadas de abelha e coisas do tipo, e provavelmente não fariam nada a Lung, mesmo se eu chegasse perto o suficiente para injetá-las. Na pior das hipóteses, as injeções aumentariam seu poder, enchendo suas veias de quaisquer hormônios ou endorfinas que fossem seu combustível. Não eram úteis, se tanto, perigosas. Eu tinha um bocado de pó de giz para escaladores e ginastas, que eu tinha visto na loja de esportes quando estava comprando as lentes para minha máscara. Eu tinha luvas e não achei que fosse precisar do atrito extra, mas tinha tido a ideia de que poderia ser útil se eu o jogasse num inimigo invisível, e acabei comprando. Em retrospecto, foi uma compra meio boba, já que meu poder me permitia localizar tais inimigos com os insetos. Como uma ferramenta contra Lung… Talvez explodisse como pó normal em contato com chamas, mas o fogo não o machucava de qualquer forma. Opção rejeitada.

Tirei o pequeno tubo de spray de pimenta da armadura. Era um tubo preto, com sete centímetros de comprimento, não muito mais grosso que uma caneta, com um gatilho e uma trava de segurança. Tinha sido um presente de meu pai, quando comecei a sair de manhã para correr. Ele me aconselhou a não repetir sempre o mesmo caminho e me deu o spray de pimenta, junto com uma corrente para prendê-lo no meu cinto, para que não pudessem usá-lo contra mim na eventualidade de um ataque. De uniforme, optei por não usar a corrente para não fazer barulho. Desativei a segurança com meu dedão, preparada para atacar. Me agachei, fazendo de mim um alvo menor, e fiquei esperando ele aparecer.

Suas mãos, ainda em chamas, foram a primeira coisa à vista, segurando a borda do telhado com força o suficiente para distorcer o material que a cobria. Logo em seguida apareceram sua cabeça e torso, enquanto ele se erguia. Lung parecia ser feito de várias camadas de facas ou espadas, brilhando num tom amarelo-alaranjado com as chamas. Não havia pele à mostra, e sua altura aproximava dois metros e meio, pelo comprimento dos braços. Só os ombros já tinham pelo menos um metro e meio do esquerdo para o direito. Até mesmo o olho que ele mantinha aberto parecia metálico, uma amêndoa brilhante de metal líquido.

Mirei no olho aberto, mas o spray saiu pelo lado errado e o atingiu de raspão no ombro. Onde a pimenta alcançou, uma pequena bola de fogo.

Xinguei baixinho e ajustei o tubo. Enquanto ele punha uma perna no telhado, arrumei o ângulo e tentei novamente. Dessa vez, virando um pouquinho minha mira ao atirar, o atingi no rosto. A bola de fogo logo se desfez, mas a pimenta no spray surtiu o efeito desejado. Ele gritou, soltando uma das mãos do telhado e apertando o rosto com ela.

Vã esperança, achar que ele ia cair. Tive sorte de ele ainda ter partes vulneráveis ao spray, metálico daquele jeito.

Lung terminou de escalar o telhado. Eu o tinha machucado… só não podia usar isso. Meus insetos eram oficialmente inúteis, não havia mais nada no meu compartimento de utilidades, e eu machucaria mais a mim do que a ele se atacasse. Corri para a saída de incêndio, anotando mentalmente para me lembrar de conseguir uma faca ou cacetete caso saísse viva disso.

“Fuh… Filho da puta!” gritou Lung. Como eu estava de costas, não dava pra ver, mas o telhado se iluminou por um instante antes de a onda de fogo me atingir por trás. Perdendo o equilíbrio, tropecei no cascalho e caí na borda do telhado, bem do lado da saída de incêndio. Passei as mãos pelo corpo, nervosamente. Meu uniforme não estava pegando fogo, mas meu cabelo – rapidamente o examinei com os dedos para ter certeza de que não estava em chamas.

Dei sorte, pensei, que não havia piche no telhado. Eu podia imaginar as chamas o lambendo, e quão pouco eu poderia fazer se isso acontecesse.

Lung se levantou, lentamente, ainda cobrindo parte do rosto com a mão. Ele mancava um pouco ao se aproximar de mim. Cego, lançou uma larga onda de fogo que cobriu mais da metade do telhado. Cobri minha cabeça com as mãos e encostei os joelhos no peito enquanto o ar quente e as chamas passaram por mim. Meu uniforme absorveu o pior, mas ainda estava tão quente que eu tive que morder os lábios para continuar quieta.

Lung parou de avançar, lentamente virando a cabeça para um lado e para o outro.

“Chupa. Pintos,” ele rugiu, com sotaque pesado, interrompendo o xingamento para respirar arfando, “Se mexa. Me dê um alvo.”

Segurei a respiração e fiquei o mais quieta possível. O que eu poderia fazer? O spray de pimenta ainda estava na minha mão, mas mesmo se eu o atingisse de novo, correria o risco de ele atacar indiscriminadamente e me cozinhar viva antes de eu poder reagir. Se eu me movesse antes, ele me ouviria e eu seria atingida por outra onda de fogo, antes mesmo de levantar.

Lung tirou a mão do rosto. Piscou algumas vezes, olhou em volta, piscou mais um pouco. Era uma questão de segundos até que ele pudesae enxergar bem o suficiente para me ver entre as sombras. Spray de pimenta não deveria incapacitar uma pessoa por trinta minutos? Como esse monstro não estava na lista de prioridades?

Subitamente ele se moveu, chamas envolvendo as mãos, e fechei os olhos com força.

Quando ouvi o ruído crepitante do fogo sem ser queimada viva, abri os olhos novamente. Lung estava mirando rios de fogo na borda do telhado do prédio ao lado, um triplex. Olhei para ver o que era o alvo, mas não consegui enxergar nada nem no escuro nem nos brevea instantes de luz que as chamas de Lung causavam.

Sem aviso, uma coisa enorme aterrisssou em cima de Lung com um impacto que eu podia jurar que dava pra ouvir lá do final da rua. Do tamanho de uma van, a “coisa enorme” era um animal e não um veículo, parecendo uma mistura entre um lagarto e um tigre, com nós de músculo e osso onde deveria ter pele, escamas ou pêlo. Lung estava agora de joelhos, afastando uma das grandes garras do bicho de sua cara com a própria garra de sua mão.

Lung usou a mão livre para bater no focinho da criatura. Por mais que ele fosse menor que o animal, o impacto fez o bicho recuar. Em retaliação, avançou sobre Lung, derrubando-o do telhado. Ambos caíram na rua com uma batida forte.

Me levantei, ciente de que estava tremendo como uma folha no outono. Eu estava tão atordoada de alívio e medo que quase caí de novo quando mais dois impactos fizeram o telhado tremer. Mais duas criaturas, parecidas com a primeira em textura, mas sutilmente diferentes em tamanho e forma, haviam chegado no telhado. Cada uma delas trazia um par de pessoas montadas. Observei enquanto elas desciam das costas dos animais. Eram duas garotas, um cara e um quarto que só identifiquei como masculino por causa da altura. O mais alto se aproximou de mim, enquanto os outros correram para a borda do telhado ver a luta entre Lung e a criatura.

“Você realmente poupou a gente de uma boa,” ele disse. Sua voz era grave, masculina, meio abafada pelo capacete que ele usava. Ele estava todo de preto, um uniforme que eu percebi ser basicamente roupas de couro de motoqueiro e um capacete de motoqueiro. A única coisa que me fez pensar ser um uniforme foi o visor do capacete. Cobria todo o seu rosto e havia sido esculpido para parecer uma caveira estilizada, e era tão negro quanto o resto do uniforme, mas com suaves pontos iluminados pela superfície reflexiva para deixar óbvio do que se tratava. Era um daqueles uniformes que as pessoas montavam com o que conseguiam, e não era ruim se você não olhasse de perto. Ele me estendeu a mão e eu recuei, cuidadosamente.

Eu não sabia o que dizer, então segui minha política de não dizer nada que pudesse me meter numa situação pior.

Ele desestendeu a mão e apontou para trás com o dedão, “Quando ouvimos que Lung estava vindo para nos pegar, ficamos bem assustados. Passamos a maior parte do dia discutindo estratégias. Eventualmente decidimos que foda-se, vamos encontrar ele aqui. Improvisar. Não faz meu estilo, mas é.”

Atrás dele, uma das garotas assobiou forte e apontou para a rua. Os dois monstros em que o grupo estivera montado correram pelo telhado e pularam para a rua, se juntando à luta.

O cara de preto continuou falando, “Adivinha só, o Lee está lá com uma meia dúzia de caras, mas Lung e sua gangue não estão em lugar nenhum,” ele riu, um som surpreendentemente normal para alguém usando uma máscara de caveira.

“Lee não é ruim de briga, mas há uma razão em ele não ser o líder da ADM. Ele ficou com medo sem o chefe e fugiu. Acho que você é que foi responsável por isso?” Cara-de-caveira pausou, esperando uma resposta. Quando não a ofereci, ele foi até a borda do telhado e olhou pra baixo, e então falou sem se virar para mim, “Lung tá se fodendo legal. Que porra você fez com ele?”

“Spray de pimenta, picadas de vespas e abelhas, formigas de fogo e mordidas de aranha,” a segunda garota disse, respondendo a pergunta por mim. Ela vestia um uniforme apertado que combinava preto com um tom claro de azul ou roxo – não dava pra saber no escuro – e seu cabelo loiro escuro era comprido e balançava ao vento. Ela sorriu ao continuar, “Ele não está lidando bem com isso. Vai se sentir mal pra caramba amanhã.”

O homem de preto de repente se virou para mim, “Introduções. Essa é a Tattletale (N.T.: boato, fofoca). Eu sou Grue (N.T.: breu, escuridão). A garota dos cachorros-” ele apontou para a outra menina, a que havia assobiado para os monstros. Ela não estava de uniforme, a não ser que eu contasse uma saia xadrez, botas de exército, uma regata rasgada e uma máscara de plástico de 1,99 de rottweiler como um uniforme. “-Nós a chamamos de Bitch (N.T.: cadela), por preferência dela, mas para não escandalizar o público os caras do bem e a mídia resolveram chamá-la de Hellhound (N.T.: algo como cão infernal). Por último e certamente menos importante, temos o Regent (N.T.: regente, maestro).”

Finalmente entendi o que ele estava falando. Aqueles monstros eram cães?

“Vai se foder, Grue,” disse Regent, com uma risada e um tom de voz que deixava claro que ele não estava nada ofendido. Ele usava uma máscara branca, não tão decorativa ou inventada como as que eu associava com o carnaval de Veneza, mas parecida. Ele havia colocado uma coroinha prateada em seus cachos negros curtos, e usava uma camisa branca com babados e leggings pretas enfiadas em botas de cano alto. Era uma roupa bem estilo renascentista. Ele tinha um corpo que me lembrava mais de um dançarino do que de um lutador.

Introduções feitas, Grue ficou olhando para mim por vários segundos. Então me perguntou, “Ei, você está bem? Tá machucada?”

“O motivo de ela não estar respondendo não é porque está machucada,” Tattletale disse, enquanto se inclinava sobre a borda do telhado para ver o que quer que estivesse rolando na rua, “É porque ela é tímida.”

Tattletale se virou e parecia que ia dizer mais alguma coisa, mas parou, virando a cabeça. O sorriso que ela tinha na cara desapareceu. “Droga. Vamos nessa.”

Bitch assentiu em resposta e assobiou, um assobio curto seguido por dois longos. Após uma breve pausa, o prédio tremeu com os impactos. Em instantes, suas três criaturas pularam das vielas ao lado do prédio para o telhado.

Grue se virou para mim. Eu ainda estava do outro lado do telhado, perto da saída de incêndio. “Aí, quer uma carona?”

Olhei para as criaturas – cachorros? Estavam ensanguentados, rosnando como que saídos de um pesadelo. Balancei a cabeça. Ele deu de ombros.

“Ei,” Tattletale chamou, sentando-se logo atrás de Bitch, “Qual é seu nome?”

Olhei para ela. Minha voz entalou na garganta antes de eu conseguir falar, “Eu não… Ainda não escolhi um.”

“Bom, Bichinho, uma capa vai aparecer em menos de um minuto. Você nos ajudou muito ao lidar com o Lung, então tome este aviso. Alguém do Protetorado aparece, encontra dois caras do mal brigando, eles não vão deixar um ir embora. Você deveria sair daí,” ela disse. Ela sorriu para mim. Ela tinha um daques sorrisos vulpinos que se viravam nos cantos. Atrás de sua simples máscara estilo dominó (N.T.: tipo a máscara do Robin), seus olhos brilhavam com a travessura. Se ela fosse ruiva, me faria lembrar de uma raposa. Meio que já lembrava uma, de qualquer forma.

Com isso, saltaram sobre minha cabeça, um dos três bichos batendo ou pisando na saída de incêndio ao descer, fazendo um ruído de metal em metal.

Quando me dei conta do que tinha acontecido, senti vontade de chorar. Era fácil classificar Regent, Tattletale e Bitch como adolescentes. Não era muito difícil pular para a conclusão de que Grue também o era. As “crianças” que Lung havia mencionado, as que eu fiz tanto esforço para salvar essa noite, eram vilões. Não só isso, mas eles me confundiram com um deles, também.

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