Colmeia 5.5

Tínhamos pouco tempo, então Tattletale estava em meu quarto no loft enquanto eu me trocava.

“A ideia que o Coil propôs foi de misturarmos os membros dos grupos, para que ninguém pudesse aprontar nada sem ter colegas feitos reféns dos outros grupos.”

“Saquei,” respondi. Me certifiquei de que estava tudo certo no compartimento de utilidades. Tattletale pegou o celular de dentro dele. “Ei!”

“Só um pouco. Estou programando o alarme do seu celular. Quando ele tocar, daqui a uma hora, você liga para o Grue. E de novo uma hora depois, se ainda estivermos fora. Vamos todos estar checando uns aos outros a cada quinze minutos mais ou menos. Se alguém não atender, presuma que estão com problemas.”

“Ok,” concordei.

“Se não puder atender o telefone por qualquer motivo, lembre-se de ligar de volta assim que puder. Avise que está tudo bem.”

“Entendi.” Puxei a parte de tecido de minha armadura até a cintura, e comecei a vestir as mangas. A parte de tecido era bem justa, e vesti-la era como vestir uma meia-calça que cobrisse o corpo todo. Demorada pra vestir, mas não rasgava facilmente como uma meia-calça.

“Vamos usar um esquema de senhas cada vez que ligarmos, caso você tenha sido capturada e obrigada a atender. A senha tem duas partes. A primeira é simples, você fala a primeira letra de um de nossos nomes, e a outra pessoa responde com a última. Se a noite durar mais do que esperamos, use os nomes de outras pessoas que conhecemos.”

“Então se eu dissesse ‘L’?”

“‘A’. Como você responderia a ‘B’?”

“‘N’.”

“Exatamente. A segunda parte é em cores. Quando atender uma ligação, diga uma coisa que tem uma cor. Tipo num semáforo. Verde é continue, está tudo bem. Amarelo é para cuidado, você não tem certeza. Vermelho é pare, socorro. Isso nos mantêm informados sem mostrar isso para as outras capas que estão com você.”

“Ok.”

“Vou com o grupo que tem a Faultline, o Trickster, e a troca-formas dos Viajantes. Aposto que vai ter alguém da Império-oitenta-e-oito e alguns soldados do Coil, também.”

“Troca-formas?”

“Aquele gorila de quatro braços, lembra. Só que não sei direito o que ela é, não é bem uma troca-formas. Espero poder ver melhor suas habilidades ao passar um tempo com ela. O mesmo quanto ao Trickster. O Regent vem comigo para contribuírmos para o combate. Mais ou menos.”

“Você e a Faultline não têm umas tretas a resolver?”

Lisa deu um sorriso largo, “Sim. Vai ser divertido, encher o saco dela, sabendo que ela não pode encostar o dedo em mim.”

Fiz uma careta. “Só tome cuidado. O que o Grue vai fazer?”

“Outro grupo. Ao todo, vamos coordenar ataques a três locais simultaneamente, com três grupos diferentes, usando força total. Ataques rápidos, precisos, e damos no pé. Se não fizer muita coisa, não se preocupe. A não ser que algo dê muito errado, vamos repetir o processo mais algumas vezes nos próximos dias.”

Alguém bateu na porta. Brian disse através dela, “Já estão prontas?”

Fechei o zíper do meu uniforme e ajustei a armadura por cima, para então abrir a porta com a máscara na mão, “Pronta.”

Brian, como eu, estava de uniforme mas sem máscara. “Tem certeza que está mesmo? Já se recuperou da pancada que levou na cabeça?”

“Não,” admiti, “Não totalmente. Mas estou com muita raiva, e acho que vai ser melhor pra mim se eu sair pra extravasar.”

Ele parou um pouco para pensar, “Ok. Acha que consegue lidar com a Bitch sozinha?”

Franzi o cenho, “Vou ter que conseguir.”

“Não mostre fraquezas, senão ela não vai te respeitar.”

“Percebi,” concordei. Enquanto andávamos até a escada, fiquei refletindo que talvez hoje eu e a Bitch estivéssemos com um humor parecido. Eu estava puta da cara com tudo na vida, e me sentindo meio desorientada de um jeito que não era só por causa da concussão.

Coloquei a máscara no rosto ao sairmos do barracão. Tinha uma van estacionada na frente da porta, bloqueando a saída para a rua. A Bitch e o Regent já estavam dentro dela, nos esperando.

“Fala, nerd,” Regent me cumprimentou. Ele estava de uniforme, como de costume, mas com uma camisa diferente – nas outras noites ela era branca, mas hoje era cinza-escura. Mas ainda era o mesmo tipo de blusa bufante, num estilo meio barroco.

“Pode me chamar de Skitter. Eu não ligo.”

“Pode ser,” ele respondeu. Tinha algo de humor em sua voz, presumi que ele estava tirando sarro de mim. Decidi ignorá-lo.

Bitch só me encarava, com raiva. Era uma raiva tão intensa que tive que desviar o olhar. E eu que achava que estávamos com um humor parecido.

Dentro da van tinha dois bancos, um em cada lado. Já que estávamos com pressa, tive que decidir logo se eu queria me sentar do lado do Regent – e ficar de frente para a Bitch por todo o trajeto – ou sentar do lado dela e seus cachorros. Escolhi a primeira opção, torcendo pra não fazer ou falar nada que pudesse fazer nossa noite começar mal.

Tattletale estava no banco do carona, com Grue dirigindo. Quando a van começou a sair do lugar, ela nos disse, “Ei, Bitch e Skitter. Vamos entregar vocês duas primeiro, mas não exatamente no local da reunião, então vão ter que andar um pouquinho. Tentem ser rápidas, fechou?”

Bitch deu de ombros, “Tá.”

“Sem problemas,” dei minha opinião. Eu até via vantagens nisso – a Bitch teria tempo para aumentar seus cachorros, e eu poderia juntar uns insetos. Além do mais, isso nos daria algo para fazer – se tivéssemos que ficar paradas esperando por alguns minutos, eu tinha certeza de que as chances da Bitch achar um motivo pra brigar com alguém só aumentariam.

Lembrando dos meus insetos, tomei alguns segundos para estender meu poder pela região e começar a reuni-los. Me surpreendi com a distância que meu poder cobria. Eu geralmente o media em quadras – nunca fui boa em adivinhar a distância correta das coisas – e diria que meu alcance usual era umas duas quadras. Hoje eu estava conseguindo quase três quadras e meia.

“Ei, Tattletale?” perguntei.

“Que é?”

“Duas coisas.”

“Fala aí.”

“Qual a direção mais ou menos de onde vocês vão nos deixar? Preciso saber para onde mandar os insetos.”

“Noroeste.”

Olhei para fora das janelas escurecidas da van para inferir para onde nos dirigíamos, e comecei a dar ordens para que os insetos fossem para lá.

“A outra coisa. Hm. Meu poder está mais forte hoje. Não sei se é uma técnica diferente, mas estou tendo um alcance bem maior. O que pode causar isso?”

“Sei lá. Desculpa, eu poderia tentar descobrir, mas estou me concentrando em outras coisas agora nesse instante. Se você acha que é muito importante-”

“Não,” a interrompi, “Não é não. Eu te pergunto de novo depois, quando você estiver mais antenada.”

“Trocadilho?” Regent perguntou.

“Quê?”

“Acho que não. Deixa pra lá,” ele riu um pouquinho.

Bitch estava usando seu poder nos cachorros. Era minha primeira oportunidade de ver isso acontecendo desde o comecinho. Era como ver uma salsicha estourando da capa, só que a capa era feita de pele e pelos. Quando os rombos apareciam, não era só músculos saindo pra fora, mas também pedaços e lanças de osso. Parte do músculo exposto virava algo parecido com escamas. Mesmo assim, eles continuavam crescendo até a van ficar meio apertada. De onde surgia toda essa matéria? Ela vinha do nada, ou será que ela estava transformando energia em matéria, vinda de algum lugar?

Inclusive, se o meu cérebro funcionava meio que como uma torre de rádio, mandando sinais para cada inseto e de volta para mim constantemente, e enviando instruções que dominavam sobre seus próprios instintos… de onde vinha a energia para fazer tudo isso?

Era um pouco perturbador de se pensar.

Quando Grue parou a van para descermos, entendi porque teríamos que andar ainda. Nossa parada era uma ponte com pontos de ônibus dos dois lados. O problema era que aparentemente a ADM havia decidido bloquear essa rota – a ponte agora era apenas entulho. Grandes avisos em laranja e preto barravam a entrada para a ponte destruída, e medidas semelhantes isolar as pilhas de destroços.

Tattletale se inclinou de sua janela aberta e disse, “Está vendo aquela torre ali? Que parece um farol? É uma velha loja de souvenirs que fechou faz mais de uma década. É onde os Traficantes – Skidmark e seus colegas – se reuniam, antes da ADM se expandir e expulsá-los dali. É lá que vocês devem se encontrar com os outros.”

Olhei para onde ela apontava e vi a torre. Não parecia muito com um farol, mas enfim. “Saquei.”

“Vão logo,” Brian disse, “Boa sorte.”

Bitch assobiou para os cachorros, chamando para segui-la. Teríamos que descer uma ladeira, atravessar a rua e subir de novo até chegar aonde tínhamos que ir.

Era estranho ter que desviar dos destroços da ponte demolida para atravessar a rua. Não era um jeito normal de atravessar uma rua, e a região estava deserta. Mas os cachorros pareceram gostar da experiência. Vi Judas abanando o rabo ao pular de um pedaço de asfalto para outro.

Ao passar por mim, Bitch murmurou, “Você tá brava.”

“Tô,” admiti, “Aconteceu bastante coisa hoje. Não do jeito que eu queria. Nojentos.”

“É só bater neles. Aí não mexem mais com você.”

“Eu bati,” respondi, “Ataquei uma delas ontem. Só serviu pra atrapalhar meus planos de hoje.”

“Hm. Acontece bastante comigo isso.”

Chegamos perto da torre. Meus insetos começavam a se acumular. Esse trajeto a pé deu tempo para que os insetos voadores me alcançassem. Vespas, mariposas, moscas, pernilongos, algumas abelhas e um tanto de baratas.

Eu tinha aprendido a lição de nossa última missão. Não iria mais chegar despreparada em lugar nenhum. Assim que eles chegavam, eu juntava meus insetos. Selecionando os melhores, os mandei para dentro da minha armadura – os espaços embaixo dos ombros, do cinto, cotovelos e pulsos, no meu cabelo e na porção côncava que cobria minha coluna. Estariam lá caso eu precisasse deles. Duvido que alguém perceberia sua presença a não ser que eu mostrasse.

“Como você sabia que eu estava brava?” perguntei.

“Sei lá. Parecia.”

“É, mas não dá pra ver meu rosto.”

“A postura, talvez. Vai me encher o saco por causa disso?”

“Não. Desculpa,” respondi.

Resolvi ficar quieta pelo resto de nosso caminho até o ‘farol’. Notei que ela parecia quase relaxar em meio ao silêncio. Seu rosto perdeu aquela expressão meio zangada e ela se esticou para coçar o pescoço de Brutus de um jeito que pareceu bem casual, bem normal para alguém que eu via como bem anormal. Ou, pelo menos, teria sido normal e casual se os cachorros não estivessem agora do tamanho de pôneis.

Chegamos ao farol, e realmente, havia um grupo de vilões esperando.

Kaiser estava na frente do grupo. Ele estava usando sua armadura elaborada, decorada dos pés à cabeça com a coroa de lâminas, mas percebi curiosamente que ela tinha uma configuração completamente diferente da outra que eu tinha visto. Fenja e Menja estavam a seu lado.

Somente um dos Viajantes nos acompanhava: a garota com estampa solar em seu uniforme, sóis vermelhos em armadura preta justa ao corpo. Logo atrás dela tinha dois membros da galera da Faultline. Newter se apoiava na parede com os dedos, e Labyrinth se recostava à mesma parede, logo abaixo dele, com os braços cruzados. Newter usava uma calça jeans rasgada e havia pintado o cabelo de azul cobalto, contrastando com sua pele alaranjada. Ele tinha tiras de pano enroladas em volta de suas mãos e pés, como lutadores costumam usar.

Completando nosso grupo, havia dois homens usando armaduras de kevlar, com balaclavas, visores, e metralhadoras customizadas. Ambos os homens levavam uma segunda arma nas costas – achei que uma delas fosse outra metralhadora, mas não consegui ver bem a outra. Talvez fosse um lançador de granadas. Soldados do Coil, provavelmente.

Fenja ou Menja – não sei direito qual – se abaixou e cochichou algo no ouvido de Kaiser.

“Chegando com menos de um minuto de antecedência, Desajustadas,” ele ronronou. “Relógios ajustados, equipe.”

Hesitei – eu não tinha trazido relógio. Aí me lembrei do celular. O tirei de seu compartimento, e os insetos escondidos lá se afastaram de minhas mãos automaticamente. Aliás, eles até facilitavam eu encontrar o celular para pegá-lo.

“Coloquem o alarme para quatro e quarenta em três… dois… um… já. O ataque deve começar daqui a cinco minutos. Usaremos esse tempo para ir até lá, nos posicionar e decidir o método de ataque.”

Ninguém discutiu.

“Andando,” ele nos dirigiu.

Bitch se virou para Brutus, que deu um gemido ao subidamente inchar. Rombos apareceram em sua pele ao crescer sessenta ou noventa centímetros de ombro, e lanças de osso surgiram de seu exterior. Ele se alongou, e se sacudiu abruptamente, nos sujando a todos do sangue resultante de seu crescimento rápido. Ouvi reações de alarme e exclamações assustadas de todos os presentes, com a exceção de Bitch, Labyrinth e eu. Kaiser, surpreendentemente, estava entre eles, se afastando vários metros até perceber que Brutus não estava atacando.

Tinha um pouco de arrogância na postura da Bitch enquanto ela ia até onde Brutus estava, agarrava uma protuberância de osso e montava em suas costas.

Foi intencional, talvez um tanto imaturo, mas ela havia feito Kaiser se assustar. Baixando a bola dele assim, logo depois de ele assumir o controle de nosso grupo improvisado, ela havia mostrado sua posição de um jeito que nenhum dos presentes conseguiria fazer com palavras.

Como para reforçar a atitude, ela deu um leve chute nas costelas de Brutus, o fazendo trotar na direção que Kaiser havia indicado. Judas, Angelica e eu a seguimos imediatamente. Não me virei para ver quanto tempo os outros levariam para se recompor e nos seguir.

Colmeia 5.2

Coil se dirigiu a todos, “Este era o assunto principal da noite. Mais alguma coisa antes de nos separarmos? Ofertas, notícias, propostas?”

“Eu tenho uma reclamação,” um homem falou. Cabeças se viraram para o grupo de Kaiser. Hookwolf.

Ele usava uma máscara que era simplesmente um pedaço de placa de metal cortado num formato que parecia uma cabeça de lobo, preso à sua cabeça com tiras de couro preto. Ele tinha uma corrente que fazia a vez de cinto em sua calça jeans, com uma fivela pesada de metal. A fivela mostrava um lobo por cima de uma suástica – a mesma imagem que ele tinha tatuada em um de seus bíceps. Ele estava sem camisa, sem sapatos, e era muito peludo. Seus cabelos loiros eram compridos e oleosos, e ele tinha uma pelagem grossa no peito, na barriga e nos braços. Lanças que pareciam arpões e pedaços curvados de metal que pareciam anzóis irradiavam de seus ombros, joelhos e cotovelos, todos cheios de farpas ou bordas perigosamente serradas.

Ninguém, até hoje, havia conseguido fugir da Gaiola, o nome popular da prisão para supervilões que ficava no Canadá. Hookwolf, no entanto, já havia escapado em duas ocasiões no meio do caminho até lá. Ele era um assassino, e não pensava duas vezes antes de matar pessoas se elas não correspondessem ao ideal ariano.

Ele se virou para a nossa mesa, seus olhos azul-pálidos visíveis por trás da máscara de metal, “Meu problema é com ela.”

“Qual é o problema?” A voz de Grue estava calma, mas parecia que ele estava gerando um pouco mais de escuridão em volta de si, fazendo ele parecer um pouco maior. Fiquei pensando se ele estava ciente disso.

“A maluca, Hellhound, ela-”

“Bitch,” Bitch o interrompeu, “Só os heróis bunda-mole me chamam de Hellhound. É Bitch.”

“Foda-se,” Hookwolf grunhiu, “Você atacou meu comércio. Botou seu cachorro de merda nos meus clientes. Sorte sua eu não estar lá, sua puta.”

Grue olhou longamente para Bitch, então falou para Hookwolf, “Esse é o tipo de risco que se toma ao fazer negócios em Brockton Bay. Capas podem e vão se meter no seu caminho, tanto heróis quanto vilões.”

Hookwolf olhou feio para ele, “É questão de respeito. Quer bagunçar o meu comério, e não estamos em guerra? Me fala primeiro qual é o problema comigo. Me dá a chance de pensar se eu quero mudar de território.”

“Tipo um aviso de ‘estou chegando’?,” Bitch cuspiu as palavras, “Que coisa mais retardada. Só pra você saber, mudar de território não tá bom pra mim não. Se você abrir outra rinha de cachorro, o pau vai comer lá também.”

Oh, então era isso. Olhei para Tattletale, e então para Grue. Tive a impressão de que nenhum dos dois sabia disso.

Kaiser falou, “Isso é uma declaração de guerra, Desajustados? Acabamos de concordar com uma trégua, se me lembro bem.” Ele estava extremamente calmo, em grande contraste com o Hookwolf. Hookwolf estava quase espumando de raiva, ao ponto que eu quase podia vê-lo saltando do outro lado do bar para nos atacar à menor provocação.

Grue balançou a cabeça. Eu acho. Não dava pra ver muito bem quando a escuridão o cobria desse jeito, e ele estava de costas para nós. Ele respondeu, “Não queremos guerra, mas não vou impedir a minha colega de fazer o que ela faz.”

“Quer dizer que não consegue deter sua subordinada,” Kaiser afirmou.

Grue não tinha uma resposta preparada para aquilo. Eu suspeitava que ele não podia dizer que a Bitch não era sua subordinada sem parecer fraco aos olhos de todos à mesa. Kaiser, Trickster, Faultline e Coil eram todos líderes. Grue fazia a vez de líder quando precisávamos, mas ele não era nosso chefe. Não exatamente.

Grue juntou as mãos na frente do corpo, se inclinando para a frente com os cotovelos na mesa. “Não é raro uma capa ter necessidades especiais. Você deveria saber disso melhor do que ninguém. Como os seus reagiriam se você os proibisse de atacar homossexuais, Kaiser?”

“Eu não faria isso.”

“Exato. O mesmo vale pra ela. Se ela fica sabendo de alguém que machuca cachorros, vai lá quebrar o pau. Isso é meio que sabido por aqui.”

“Não é algo que chame a minha atenção. Eu gosto mais de gatos.” O comentário sarcástico fez algumas risadas soarem pelo bar.

“Acho que vale a pena prestar atenção se isso leva a situações como esta,” Grue respondeu, com a voz firme.

“Eu dou tarefas para meus subordinados e confio que eles podem se virar com os detalhes. Hookwolf voltou para a cidade faz pouco tempo. Ele não deve ter ouvido falar disso.”

A mentira era tão transparente que não pude deixar de pensar que ele estava nos provocando.

“Eu gostaria de resolver isso pacificamente,” Grue reiterou.

Kaiser balançou a cabeça com o som de metal arranhando metal, “A paz é sempre preferível, mas não posso deixar um insulto como esse escapar. O preço terá que ser pago antes disso ser esquecido. Dinheiro ou sangue. Você escolhe.”

Bitch fez um som grave com a garganta. Ela e Hookwolf não eram os únicos agitados. Olhei para a mesa onde Hookwolf estava com Fenja, Menja, Night, Fog, e Krieg, e todos pareciam visivelmente irritados.

“Então vamos esperar até estarmos mais livres para dar a isso toda a nossa atenção,” Grue falou, “A trégua está ativa, e vamos nos reunir novamente assim que a situação estiver resolvida quanto à ADM.” Ele olhou para os outros à mesa para confirmação.

“Vamos, sim,” Coil respondeu. Faultline assentiu.

“O que você acha?” Grue perguntou para Kaiser, “Vamos por isso de lado por enquanto?”

Kaiser assentiu. “Justo. Vamos discutir isso melhor na próxima reunião.”

“Então é isso. Mais alguma coisa?” Coil perguntou, “Problemas, negociações, pedidos?”

Não houve resposta.

Coil tomou aquilo como um não. “Então vamos concluir a reunião. Obrigado a todos por atenderem. Faultline, uma palavra antes de sair?”

Houve o som de cadeiras arranhando o chão quando as pessoas da mesa se levantaram, com a exceção de Faultline e Coil. O grupo de Skidmark saiu pela porta para ir embora imediatamente, e Kaiser e Purity foram até a mesa onde seus subordinados estavam bebendo. Os Viajantes permaneceram em sua mesa, não exatamente se acomodando, nem saindo.

Grue voltou para nós, mas não se sentou.

“Vamos embora.”

Ninguém discutiu. Nos levantamos e saímos do Zé do Rock. A equipe do Skidmark estava se demorando num lado da rua, então, em silêncio, fomos na outra direção, só pra garantir. Não havia dúvida que eles estavam esperando por uma briga. Eles eram o oposto completo de Kaiser, Coil, e Faultline. Descuidados, imprevisíveis, de pavio curto. Eles começariam uma briga ali mesmo, mesmo sabendo que isso deixaria todas as gangues da cidade contra eles por abusarem de território neutro.

Estávamos a uma quadra do bar quando Grue falou, “Bitch. Você entende o porquê de eu estar puto agora?”

“E não só você,” Tattletale falou.

“Acho que sim.”

Grue pausou, como se estivesse escolhendo as palavras cuidadosamente, “Quero ter certeza de que você sabe o que fez de errado.”

“Vai tomar no cu,” ela estourou, “Já entendi. Não precisa me encher o saco.”

Grue olhou para o resto de nós, e depois por cima do ombro na direção do bar.

Andamos em silêncio, passando pela frente de três lojas diferentes antes de ele explodir. Ele agarrou o ombro de Bitch, puxando ela para trás para que ela perdesse o equilíbrio e tropeçasse. Antes de ela se reequilibrar, ele a empurrou com força numa reentrância da parede na frente de uma livraria velha, a apertando contra a porta, segurando seu pescoço.

Olhei na direção do bar. Ninguém estava saindo, e ninguém estava olhando na nossa direção. Mordendo o lábio, me juntei a Tattletale e Regent ao entrar na alcova. Eu estava esperando que Grue soubesse o que estava fazendo.

Por vários segundos, ele a segurou lá, deixando ela arranhar seu braço e luva, chutando sua perna sem efeito. Duas vezes, quando ela estava prestes a bater com mais força, ele a puxou pelo pescoço para empurrá-la de novo contra a porta, com força o suficiente para fazê-la tossir.

Ela ainda estava resistindo quando ele começou a falar, com uma voz quieta e vazia por conta de seu poder, “Eu odeio isso, Rachel. Que eu tenha que agir assim. Que quando eu falo essas coisas, eu soo como tudo o que eu mais odeio nesse mundo. Mas é assim que as coisas são pra você. É só assim que você escuta. Tá me ouvindo?”

Bitch tentou um soco na barriga, mas ele usou os braços para afastar seu corpo dela e evitar o golpe, ainda segurando seu pescoço. Ele a empurrou contra a porta novamente. “Tá me ouvindo, Rachel?”

Ela assentiu amargamente, olhando em todas as direções, menos na dele. Ele relaxou a mão um pouco, e ela pôde dar algumas golfadas de ar.

“Olhe nos meus olhos,” ele disse.

Ela olhou. Seu visor estava a meros dois centímetros do rosto dela, e ela não podia ver os olhos dele, mas ela encarou firmemente os buracos escuros da máscara de caveira. Eu não sei se eu teria conseguido, e nem era comigo que ele estava bravo.

“Você me fez parecer fraco. Fez todos nós parecermos fracos. Não estou puto pelo que você fez com o Hookwolf. Isso é da sua conta. É o seu jeito de ser. Eu sei que é uma consequência de ter você na equipe. Eu lido normal com isso. Tá entendendo?”

Outro aceno relutante. Sem quebrar contato visual.

Dei uma espiada na esquina para ter certeza de que esta conversa ainda era privada. Os Viajantes estavam fora do bar agora, mas estavam demorando pra ir embora. Trickster estava fumando um cigarro pelo buraco da boca de sua máscara.

Grue continuou, “Sabe o que você fez de errado? Você não falou porra nenhuma pra nós. Você me deixou ir lá naquela merda de mesa, falar com aqueles caras, e ser pego de surpresa. Eu tive que defender as ações da minha própria equipe sem saber do que caralhos eles estavam falando. Eu fui ridicularizado. Todos nós fomos.”

“Quer o quê? Que eu peça desculpa?”

“E seria sincera? Ainda não ouvi uma desculpa sincera sua desde que te conheci, e acredite, uma desculpa esfarrapada só ia me deixar mais puto ainda. Então você que sabe. Quer tentar?”

Bitch não respondeu. Vi que ela estava endireitando os ombros, erguendo a cabeça, uma mudança de postura sutilmente desafiadora.

“Caralho, Rachel. Essa é a sua segunda merda em menos de duas semanas. Será que eu preciso falar com o chefe pra-”

“Chega,” Tattletale cortou, “Minha vez.”

Grue soltou o pescoço de Bitch e se afastou, cruzando os braços ao dar as costas a ela. O que ele estava dizendo quando a Tattletale interrompeu? ‘Será que eu preciso falar com o chefe pra ver se ele bota outra pessoa no seu lugar?’

Se era isso, eu podia entender o porquê de a Tattletale ter se metido.

“Você está frustrada, eu sei,” Tattlatale falou. Bitch estava olhando fixamente para a janela da livraria, evitando contato visual enquanto massageava o pescoço. Tattletale continuou, “Você não acha que fez nada de errado, e se pudesse voltar no tempo, faria tudo novamente… mesmo assim, estão com raiva de você.”

Bitch olhou nos olhos de Tattletale. Seu tom era uma mistura de irritação e tédio, “E estão se revezando pra me aporrinhar e ficar falando balela psicológica pra mim.”

Tattletale esperou, talvez para que ela se compusesse, ou para escolher outro método, ou para usar seu poder para conseguir informações que pudesse usar. Ou talvez ela estivesse dando tempo para a Bitch pensar sobre como ela não estava se ajudando ao falar essas coisas. Eu não sabia dizer – não podia ler a expressão dela. Mas ela não estava sorrindo como sempre fazia.

Tattletale deu uma resposta exasperada. “Tá. Vou ir direto ao assunto. As suas duas mancadas dessa semana tiveram a ver com falta de comunicação. Se você tivesse ligado pra gente, avisando que ia mais cedo ver o dinheiro, talvez pudéssemos ter antecipado a emboscada. Se você tivesse contado pra gente que tinha invadido o canil de rinha de cachorros do Hookwolf, teríamos nos saído melhor esta noite. Então abre mais a boca. Fala com a gente, deixa a gente saber o que tá rolando. Tá bom?”

Bitch não respondeu, a tensão aparecendo em seu pescoço, a postura rígida, mãos nos bolsos.

“Pense nisso,” Tattletale sugeriu.

Chequei a esquina novamente. Trickster ainda estava fumando seu cigarro, mas olhava diretamente para nós. Para mim. A coisa-gorila também, mas os outros estavam olhando para Trickster. Acho que ele estava falando. Era difícil saber.

“Acho que é hora de a gente vazar,” informei aos outros, “Tem gente olhando.”

Saímos da reentrância, com apenas a postura de Bitch dando qualquer indicação de que algo havia acontecido. Ela estava andando um pouco atrás de nós. Havia tensão, e não era só por causa dela. Grue e Tattletale estavam andando um pouco afastados um do outro. Ou ele não gostou quando ela interrompeu, ou estava com raiva de si mesmo, mas alguma coisa estava incomodando um deles.

Regent permanecera quieto. Pelo que a Lisa havia dito ao me visitar mais cedo esta semana, ele ainda estava com o braço dolorido. Minha hipótese era de que ele ainda estava sofrendo com os comprimidos, e tendo dificuldade para dormir. Ele não havia participado do diálogo mais recente, mas seu silêncio não estava ajudando a melhorar o clima.

Eu não estava gostando. Esse atrito estragando a camaradagem do grupo, a tensão pulsando por baixo de tudo. Eu gostava deles. Até da Bitch, sei lá, acho que seria exagero dizer que eu gostava dela, mas talvez eu pudesse respeitá-la pela sua contribuição ao grupo.

Eu sabia que seria difícil entregá-los para a lei, no dia da grande traição, e dar toda a informação para o Protetorado, assim que eu descobrisse o que faltava… mas sempre que eu pensava no assunto, eu tinha certeza de que quando chegasse a hora eu ia conseguir. Eu teria menos arrependimentos a longo prazo se fizesse isso. Eu podia até me orgulhar disso um dia, talvez.

Cada vez mais, eu estava vendo o dia em que eu entregasse os Desajustados e desse tchau pra eles como o dia em que eu me transformaria completamente. Começando por transformar Skitter numa heroína aos olhos do público, fazendo o possível para reparar minha imagem, e redefinindo Taylor como alguém confiante e animada e corajosa. Se eu pudesse cortar relações com os Desajustados e dar esse salto de fé, eu sabia que podia mudar a mim mesma.

Mas, por mais estranho que parecesse, eu me sentiria pior ao dar a informação para o Protetorado se esse tipo de negatividade fosse o que eu deixasse para trás quando os entregasse. Eu sabia que isso não fazia sentido, mas eu queria poder dizer a mim mesma que uma vez na vida eu tinha tido um grupo de amigos de verdade, antes de cortar esses laços para fazer a coisa certa. Mesmo na época em que eu não era uma pária, eu só tinha a Emma. Eu não tinha experiência o suficiente pra saber, de um jeito ou de outro, como grupos de amigos lidavam com esse tipo de ressentimento. O que era um saco.

Ao olhar de novo para Bitch, percebi que tinha que ser pior ainda pra ela. Senti uma pontada de simpatia.

Eu sabia como ela se sentia, sozinha no meio de um grupo de pessoas.

Andando mais devagar até estar ao lado dela, descobri que não sabia o que dizer. Puxar assunto? Eu não sabia como. Palavras de conforto? Eu não sabia se podia dizer algo sem fazer parecer que eu concordava com ela, ou começar a discussão tudo de novo. Concordar com Grue e Tattletale só a faria se sentir pior, e eu tinha minhas suspeitas de que ela não aceitaria as minhas palavras do mesmo jeito que tinha aceitado as deles.

“O Hookwolf tinha um canil de rinha de cães?” perguntei, com a voz baixa, “Ele fazia os cachorros brigarem?”

“Até a morte,” Bitch respondeu, quase baixo demais para eu ouvir.

Quando sua única companhia ou família no mundo eram seus cachorros, eu podia entender como aquilo machucaria. Eu nunca tinha tido um cachorro, mas até onde eu sabia, eles eram como crianças. Estavam à mercê de certas pessoas, e abusar disso era simplesmente errado.

“E você acabou com isso?”

Ela se virou para mim, me olhando nos olhos. “Pagaram com sangue.”

Senti arrepios na nuca e nos braços. Eu não tinha certeza se iria me sentir melhor ou pior se ela explicasse os detalhes.

“Que bom,” respondi.

Não falamos mais nada pelo resto do caminho. O que provavelmente foi muito bom.

Colmeia 5.1

Era um lugar genérico. Poderia ter sido qualquer coisa. Tudo era surrado e puído. Só se podia imaginar se as lojas e restaurantes da região ainda funcionavam ou não.

O bar tinha uma placa que dizia ‘Zé do Rock’. Havia barras de ferro nas janelas e as cortinas estavam fechadas, dando um ar de privacidade forçada que combinava com a vizinhança em que estávamos. A tinta das paredes estava descascando, e a ferrugem das barras de ferro havia manchado a tinta cinza-claro abaixo das janelas.

Ao entrarmos, ficou claro que o ‘Zé do Rock’ era um livro que deveria ser julgado pela capa. Era um lugar escuro, mal-cuidado, depressivo. O piso de madeira estava manchado do mesmo cinza-escuro que o balcão, as cortinas e toalhas de mesa eram verde-escuras e a única cor vibrante – se é que se podia dizer isso – vinha das velhas lâmpadas incandescentes, já meio queimadas.

Havia três pessoas lá quando chegamos. Uma era uma moça de vinte e poucos anos, de ar sombrio e cabelos castanhos, vestindo um uniforme de garçonete meio amassado, que olhou para nós ao entrarmos mas não fez menção de nos receber. Havia um par de gêmeos idênticos atrás de um balcão do outro lado do bar, provavelmente os irmãos mais velhos dela, deliberadamente nos ignorando, ocupados em lavar os copos. Um estava de camisa social e avental, e parecia ser o bartender, enquanto o outro usava uma camiseta preta por baixo de uma camisa de estampa havaiana. Fora a diferença de vestimenta, eles eram idênticos em altura, corte de cabelo, rosto e expressão.

Várias mesas juntas formavam uma grande mesa no meio do bar, com cadeiras em volta, mas passamos direto por ela e fomos até uma mesa com sofazinho (N.T.: olha, em inglês eles chamam de ‘restaurant booth’, mas eu sempre chamei de ‘sofazinho’). Tattletale, Bitch, Grue, Regent e eu todos nos assentamos nos bancos acolchoados gastos. Eu estava usando esses nomes por que não eram mais Lisa, Rachel, Brian e Alec. Estávamos todos de uniforme.

Assim que nos sentamos, a moça de ar sombrio se aproximou de nós, colocando sua caderneta na mesa e me encarando, com um olhar quase que desafiador. E sem dizer absolutamente nada.

“Coca?” Arrisquei pedir, me sentindo desconfortável.

“Não, Skitter,” Tattletale me explicou, “Ela é surda. Pra fazer um pedido, escreva na caderneta.” Para demonstrar, ela pegou a caderneta e escreveu ‘chá preto’. Entendi e fiz meu pedido, e então passei a caderneta para Bitch e os meninos. A garçonete olhou feio para mim ao sair da mesa com nossos pedidos.

Fazia uma semana desde o incidente com a Bakuda. Lisa e Brian haviam me visitado várias vezes enquanto eu passava os dias na cama, me atualizando sobre a situação que ainda se desenrolava. Uma vez eles até levaram o Alec e a Bitch, e fiquei muito aliviada de meu pai não estar em casa naquele dia. Alec e Bitch não eram os convidados educados que a Lisa e o Brian eram, e eu suspeitava que suas personalidades marcantes poderiam fazer meu pai questionar alguma coisa.

Aparentemente, alguém no QGP tinha me dado o nome de ‘Skitter’. Lung havia ouvido falar disso, e depois de sua fuga todos na cidade pareciam saber desse nome, o que dava a entender que ele estava procurando por mim. Uma publicação num jornal local especulava sobre nosso possível envolvimento nos bombardeios que estavam tomando a cidade, como adversários da Bakuda, e esse nome aparecia lá também; então acho que ia ser isso mesmo. Eu não gostei muito, mas eu também não tinha gostado muito de nenhum dos nomes que eu tinha pensado, então que seja.

Parecia que tínhamos chegado com alguns minutos de antecedência, porque o resto dos convidados chegaram um atrás do outro, enquanto a garçonete nos trazia as bebidas.

Kaiser entrou pela porta com uma moça em cada braço, umas loiras que pareciam modelos da Playboy. O Kaiser usava uma armadura detalhadamente elaborada dos pés à cabeça, incluindo uma coroa de lâminas. O líder da Império-Oitenta-e-Oito. As gêmeas usavam os nomes Fenja e Menja (N.T.: pronunciados ‘Fênia’ e ‘Mênia’, baseados no folclore escandinavo), e vestiam armaduras como as das Valquírias, com incontáveis asinhas de aço e elmos que cobriam seus rostos. Kaiser realmente gostava de capas poderosas. Essas duas podiam crescer até dez metros de altura, e ficavam mais invulneráveis o quanto mais se aumentavam.

Purity entrou alguns passos atrás dele, com várias pessoas a seguindo. Seu uniforme era branco e sem nenhum símbolo ou emblema, mas o tecido brilhava suavemente. Seu cabelo e olhos brancos brilhavam também, mas era como se fossem feitos de magnésio aceso (N.T.: pesquisem imagens, é bem legal). Eu não conseguia olhar em sua direção sem minha visão ficar toda manchada, e as lentes da minha máscara eram tingidas para evitar a claridade.

As pessoas seguindo Purity eram outros membros da Império-Oitenta-e-Oito. Krieg (N.T.: ‘guerra’ em alemão), Night (N.T.: noite), Fog (N.T.: nevoeiro) e Hookwolf (N.T.: ‘lobo [com] gancho’). Era interessante de ver, porque até onde eu sabia, embora todos eles já houvessem sido membros da Império um dia, a Purity estava em carreira solo, enquanto Night e Fog haviam se separado para formar uma dupla atuando em Boston não muito tempo depois. Parece que estavam juntos novamente.

Isso não era nem metade do grupo do Kaiser. Fora as raras exceções como o Lung recrutando a Bakuda quando ela estava em Cornell, a maioria dos grupos de capas recrutavam membros em suas próprias cidades. Kaiser era diferente. Ele era um dos supervilões mais conhecidos dos Estados Unidos que levantava a bandeira da supremacia branca, e pessoas que compartilhavam seus ideias eram recrutadas de outros estados ou iam até ele por conta própria. A maioria não ficava com ele por muito tempo, seja lá o motivo, mas isso ainda fazia dele o morador de Brockton Bay com o maior número de capas a sua disposição.

Kaiser se sentou numa ponta da mesa grande no meio do bar, sua equipe se acomodando nas mesas que ficavam atrás dele. Já a Purity não pareceu relaxar, nem pediu nenhuma bebida. Ela sentou numa cadeira mais próxima de Kaiser, cruzou os braços e tornozelos, e ficou observando. Pelas minhas pesquisas online e em jornais antigos, eu sabia que a Purity podia criar luz e embutir solidez nela, a enchendo de energia cinética. Ela era como uma lanterna humana, se a luz de uma lanterna pudesse atravessar paredes e rasgar ônibus inteiros ao meio. Em se tratando de poder puro e simples, ela estava no topo da lista, uma artilharia humana voadora.

Coil entrou depois da Império-Oitenta-e-Oito, chamando atenção por estar sozinho. Sem backup, sem reforços. Ele era mais alto do que o Grue, mas era magro ao ponto de parecer esquelético. Seu uniforme era bem justo e o cobria dos pés à cabeça, sem ter nem mesmo buracos para os olhos, nariz ou boca, e do jeito que ele se grudava à sua pele dava pra ver até suas costelas e articulações. O uniforme era preto, e o único emblema nele era uma cobra branca, com a cabeça começando na testa de Coil e se enrolando em sua nuca e por seu corpo inteiro até finalmente terminar em um de seus tornozelos. Ele sentou-se na outra ponta da mesa grande, oposto a Kaiser.

“Qual é a dele?” Cochichei para Tattletale.

“O Coil? Não sei o que falar sobre os poderes, mas ele é um dos líderes mais poderosos da cidade. Ele se considera um mestre do xadrez. Sabe, tipo um mestre de tática e estratégia. Ele controla mais da metade do centro da cidade, com esquadrões dos melhores soldados e os melhores equipamentos. Ex-militares do mundo todo. Se é que ele tem poderes, deve ser o único de sua organização que tem.”

Assenti. Quase que o oposto de Kaiser, nesse departamento. Eu teria perguntado mais sobre, mas mais pessoas estavam entrando.

Faultline. Eu a conhecia por minhas pesquisas. Ela tinha um vinte e poucos anos, e seu cabelo longo e preto estava preso num rabo de cavalo bem comprido. Seu uniforme era esquisito, parecia uma mistura de um vestido com uniforme policial tático com uniforme de artes marciais. Quatro pessoas entraram no bar com ela, e os dois homens eram tranquilamente as pessoas mais estranhas do recinto. Eu sabia seus nomes também. Newter (N.T.: de ‘newt’, significa ‘salamandra’) estava sem camisa, sapatos ou luvas, o que mostrava ainda mais sua pele laranja neon. Ele tinha olhos azul-claros, cabelos vermelho-escuros que pareciam molhados, e uma longa cauda prêensil. Gregor Lesma era morbidamente obeso, de altura mediana, sem nem um pelo ou cabelo em todo o seu corpo. Sua pele era de um branco leitoso meio translúcido, e dava pra ver as sombras onde seus órgãos internos estavam. Como alguém que tivesse acne cística, ele tinha pedacinhos de cascas ou escamas encrustadas em sua pele, que quase pareciam cracas, mas com um formato espiral.

Vendo sua linguagem corporal, seu silêncio e as aparências tão distintas, não se pensaria que eles eram próximos, mas eles tinham tatuagens combinando. A do Newter era logo acima do coração, e a de Gregor era na parte superior do braço. A tatuagem parecia um símbolo do ômega, mas de ponta cabeça. Talvez fosse uma letra ‘u’ estilizada.

As duas mulheres no grupo da Faultline pareciam, em contraste, perfeitamente normais. Labyrinth (N.T.: labirinto) usava uma longa túnica verde-escura e uma máscara, cheias de linhas. Spitfire usava um uniforme preto e vermelho, com uma máscara de gás.

Fiquei surpresa de Faultline passar por nossa mesa no caminho de escolher um assento, fazendo um caminho mais longo. Ao passar por nós, ela olhou para Tattletale e eu com uma expressão de deboche antes de se sentar na cadeira à direita de Kaiser.

“Vou lá antes de todos os assentos se ocuparem, tudo bem?” Grue disse, e o resto de nós concordou. Grue se sentou entre Faultline e Coil.

“O que foi aquilo entre você e a Faultline?” Murmurei para a Tattletale, “Treta?”

“Nada importante,” ela respondeu.

Regent se inclinou para nós. “Ela e a Tattletale têm uma briguinha entre si. A Faultline a provocou quando roubou a Spitfire da gente quando estávamos tentando recrutá-la. Não sei por que a Faultline não gosta da Tattle, mas eu sei que a Tattletale odeia quando alguém se acha mais inteligente do que ela, e a Faultline é mais inteligente do que ela. Ai. Porra, essa doeu.”

Tattletale o havia chutado por baixo da mesa.

“Eles são mercenários, né?” Perguntei.

Tattletale assentiu, “A galera da Faultline faz de tudo, menos assassinato. Você pode falar mal da personalidade dela, dos poderes dela, mas tenho que admitir que ela é muito boa em encontrar tesouros escondidos nas pessoas que trabalham para ela. Tá vendo os dois esquisitões? Em se tratando de poderes, eles tiveram azar. Viraram aberrações que jamais poderiam viver em sociedade, tendo que morar nas ruas ou no esgoto. Tem uma história por trás, mas eles viraram uma equipe, ela os treinou bem, e eles só estragaram um ou dois de seus trabalhos até agora.”

“Saquei,” falei, “Impressionante.”

“Não se esqueça, porém, de que nós não estragamos nenhum. Somos dez em eficiência.”

“Eles já fizeram três vezes mais trabalhos do que a gente,” Regent lembrou.

“Mas nós não estragamos nenhum deles, e é isso que importa,” Tattletale insistiu.

Outro grupo chegou, e dava pra ver a onda de desgosto passando pelos rostos no local. Eu já tinha lido sobre esses caras na internet e nos jornais, mas não eram o tipo de capa que alguém fica fotografando. Skidmark (N.T.: freada. Tipo, na cueca), Moist (N.T.: úmido), Squealer. Dois homens e uma mulher, eles provavam que capas não eram necessariamente bonitas, bem-sucedidas ou imunes aos efeitos da drogadição. Traficantes viciados em drogas que calharam de ganhar superpoderes.

Skidmark usava uma máscara que cobria a parte superior de seu rosto. A parte de baixo mostrava sua pele escura, com lábios muito ressecados e dentes que mais pareciam cascas de pistache. Ele andou até a mesa em direção a um assento. Mas antes de poder puxar a cadeira, Kaiser a chutou para longe e ela caiu de lado em outro canto do bar.

“É o quê?” Skidmark rosnou.

“Vá sentar num sofazinho,” Kaiser disse. Mesmo com a voz totalmente calma, como se estivesse comentando sobre o clima com um estranho, havia um subtom de ameaça.

“É porque eu sou preto, né? Você só pensa nisso, né?”

Ainda calmo, Kaiser respondeu, “Você vai sentar num sofazinho porque você e seu grupinho são um bando de imbecis com quem não vale a pena conversar. Os outros aqui? Não gosto deles, mas vou ouvi-los. Não é o seu caso.”

“Vai tomar nesse seu cu. E ele ali?” Skidmark apontou para Grue, “Eu nem sei o nome dele, mas ele está na mesa.”

Faultline explicou, “A equipe dele assaltou o Banco Central de Brockton Bay semana passada. Eles já lutaram contra o Lung inúmeras vezes e ainda estão aqui, o que significa bastante, sem contar os eventos das bombas. Ele tem informações sobre a ADM e pode compartilhá-las conosco.” Ela dirigiu a Grue um olhar que deixava claro que não era escolha dele se queria se sentar àquela mesa ou não. Ele assentiu levemente em resposta. Havíamos discutido sobre isso anteriormente e decidido quais detalhes iríamos contar.

“O que é que você fez pra merecer um assento aqui?” Ela perguntou para Skidmark.

“Temos território-”

“Vocês não têm nada,” Grue respondeu, levantando a voz, distorcendo-a com seus poderes, “Vocês são covardes que se apossam dos lugares que ninguém quer, vendendo drogas para crianças.”

“A gente vende pra quem quiser, não só pra-”

“Vai pra um sofá,” A voz ecoante de Grue o interrompeu. Skidmark olhou feio para ele, depois para os outros sentados à mesa. Todos em silêncio, o encarando por trás de suas máscaras.

“Cuzudos. Cus cheios de merda, todos vocês,” Skidmark rosnou, pisoteando até o sofazinho onde seus colegas já estavam sentados.

A garçonete pegou a cadeira caída do chão e a recolocou em sua posição à mesa, sem olhar nos olhos de ninguém ao se dirigir a ela e colocar sua caderneta em cima para que todos escrevessem seus pedidos. Por fim, entendi o motivo de o bar ter uma garçonete surda.

“Vou tomar um assento, acho eu,” alguém disse da porta. Muitas cabeças se viraram para ver um homem num uniforme preto com uma máscara vermelha e cartola. Ele tinha um ar de Baron Samedi (N.T.: pra quem já viu ‘A Princesa e o Sapo’ da Disney, é tipo o vilão desse filme). Seus colegas o seguiram para dentro do bar, todos em uniformes combinando em vermelho e preto. Uma moça com estampa solar, um rapaz cheio de armadura com uma máscara quadrada, e uma criatura tão grande que teve que engatinhar de quatro para poder passar pela porta. Era difícil descrevê-la, parecia um gorila sem pêlos com quatro braços, usando um colete, máscara e leggings de vermelho e preto como o resto da equipe, e garras compridas na ponta de cada dedo.

“Os Viajantes, não?” Coil falou, sua voz polida, “Vocês não são daqui.”

“Pode-se dizer que somos nômades. O que estava rolando por aqui era interessante demais, então resolvemos fazer uma visita.” O cara de cartola se curvou na primeira reverência formal que eu já tinha visto na vida. “Me chamo Trickster (N.T.: trapaceiro).”

“Conhece as regras daqui?” Grue perguntou a ele.

“Já estivemos em lugares parecidos. Posso imaginar. Nada de brigas, nem poderes, nem de provocar os outros, ou todo mundo se junta pra se livrar de você.”

“Tipo isso. É importante termos um local neutro para nos encontrar e ter conversas civilizadas.”

“Não posso discordar. Por favor, continuem como se eu não estivesse aqui.”

Quando Trickster se sentou e colocou os pés em cima da mesa, ninguém reclamou, embora Skidmark apresentasse uma expressão quase homicida no rosto. O resto dos Viajantes se sentou num sofazinho perto do nosso. A criatura gorila se sentou no chão e ainda assim conseguia estar na mesma altura que seus colegas.

Coil assentiu com a cabeça e juntou as mãos. Ao falar, sua voz era macia, “Estão todos presentes. Parece que o Lung não vem, se bem que duvido que alguém esteja surpreso, dado o tema da discussão de hoje.”

“A ADM,” Kaiser disse.

“Trinta e cinco indivíduos mortos e mais de cem hospitalizados nesta última semana. Pessoas armadas nas ruas. Tiroteios constantes entre membros da ADM e a polícia ou os militares. Eles invadiram nossos negócios e bombearam locais em que achavam que estávamos operando. Roubaram nossos territórios, e não parece que têm a intenção de parar em breve,” Coil esclareceu a situação para todos os presentes.

“Tem sido inconveniente,” Kaiser falou.

“Eles estão sem freio,” Faultline disse. Ela fez parecer que seus crimes estavam no mesmo patamar de maltratar gatinhos. (N.T.: o autor não é muito fã de gatos…)

Coil assentiu, “Essa é nossa preocupação. A ADM não pode manter esse ritmo. Algo vai ceder, eles vão se auto-destruir mais cedo ou mais tarde, e deixar de ser um problema. Caso as coisas fossem diferentes, poderíamos considerar isso bom. A questão é que as ações da ADM estão chamando atenção para nossa querida cidade. A polícia federal e forças militares estão se estabelecendo temporariamente aqui para ajudar a manter a ordem. Heróis estão enchendo a cidade para apoiar o Protetorado local. Isso dificulta nossos negócios.”

“A Bakuda é o centro disso,” Grue entrou na conversa, “O Lung pode ser o líder, mas isso tudo depende dela. Ela está ‘recrutando’ através de invasões a domicílios durante a noite, ameaçando seus residentes e implantando bombas dentro de suas cabeças. Ela então usa essas bombas para coagir suas vítimas a sequestrar mais pessoas. Já passam de trezentos, agora. Cada um de seus soldados sabe que se não obedecer, Bakuda pode detonar as bombas. Todos eles estão dispostos a por suas vidas em risco, porque a outra alternativa é morrer ou ver seus entes queridos morrerem. Acabar com ela é nossa prioridade, mas ela projetou as bombas para detonarem assim que seu coração parar de bater, então não é tão simples assim, não podemos só assassiná-la.”

Ele tirou um pacote de dentro da escuridão que envolvia seu uniforme. “Ela filmou a emboscada que armou para o meu grupo semana passada e esqueceu a câmera lá quando fugiu. Fiz várias cópias. Talvez vocês queiram assistir para entender melhor como ela se comporta.”

Grue entregou um CD gravado para todos à mesa.

Essa era nossa demonstração de força. O vídeo mostrava tudo, desde Bakuda liquefazendo Park Jihoo até a explosão da segunda bomba que ela tinha colocado em seus soldados. Após a explosão, a câmera havia caído, gravando os sons de tiroteio e tudo sendo escurecido pelos poderes do Grue, mas não mostrava a gente saindo correndo. Não mostrava nossas fraquezas, a sorte que tivemos em conseguir fugir, nem o quão horríveis nossas circunstâncias tinham sido de verdade. Mas permitia que todos soubessem com o que tínhamos lutado, e que estávamos ilesos o suficiente para comparecer a esta reunião. Isso fortaleceria nossa reputação.

Eu ainda não estava totalmente recuperada de minha concussão, e Alec ainda reclamava de dor no braço, mas mesmo assim, Brian havia insistido que era muito importante que todos nós estivéssemos lá, dando a ilusão de que nossa equipe estava intacta, incólume. Ao perceber a sutil mudança de postura dos outros grupos, vi que ele estava certo.

“E aí,” Coil disse devagar, ao estalar cada um dos dedos de sua mão direita, “Estamos de acordo? Não podemos permitir que a ADM continue operando.”

Houve vários murmúrios de aprovação ao redor da mesa, e também de quem estava assistindo.

“Então sugiro que façamos uma trégua. Não só entre nós aqui, mas entre nós e a lei. Irei contatar as autoridades e anunciar que até este problema estar resolvido, nossos grupos vão restringir as atividades ilegais apenas ao que for estritamente necessário a nossos negócios, e vamos impor essa atitude a todos dentro de nossos territórios. Isso permitirá que a polícia e os militares foquem totalmente na ADM. Não haverá violência, brigas entre nossos grupos, lutas por território, roubos ou insultos. Formaremos uma união, nos tolerando para garantir a vitória, e iremos ignorar aqueles com quem não conseguimos cooperar.”

“Vou avisando que minha equipe não vai se envolver sem motivo,” Faultline falou, “Não vamos atacar a ADM a não ser que eles se metam comigo ou que alguém pague o meu cachê. Só dá pra trabalhar assim no mundo mercenário. E pra deixar bem claro, se a ADM me contratar, minha equipe vai estar do outro lado do front.”

“Lamentável, mas você e eu podemos conversar após o término desta reunião. Prefiro manter as coisas simples,” Coil disse, “Você concorda com os outros termos?”

“Ficar na minha, sem incomodar os outros grupos? Esse já é o dia-a-dia da minha equipe normalmente.”

“Que bom. Kaiser?”

“São termos aceitáveis,” Kaiser concordou.

“Eu estava conversando com meu grupo sobre fazermos algo parecido com o que o Coil propôs,” Grue disse, “Então, estamos dentro.”

“Sim,” Trickster disse, “Sem problemas. Nós também.”

Houve vários apertos de mãos entre os presentes à mesa.

“Curioso,” Tattletale murmurou.

Dei as costas à cena para olhar para ela, “O quê?”

“Fora o Grue e talvez a Faultline, todo mundo já está planejando como usar essa situação para tirar vantagem ou pisar nos outros.”

Voltei a olhar para a cena, para os vilões sentados em volta da mesa. De repente, me dei conta de quanto potencial destrutivo estava naquele bar.

Isso seria complicado.

Interlúdio 4

Um assobio. As orelhas de Brutus se levantam. Já está pulando da cama quando o segundo assobio vem, logo após o primeiro. Dois assobios quer dizer venha. Mestre só chama os cachorros para as escadas da frente quando é hora de passear!

Passear é o que o Brutus mais gosta!

Outros cães estão se empurrando com Brutus querendo correr até Mestre. Virando rápido demais, as unhas arranham o chão para ter atrito. Caem um pouco. Judas hesita, funga, mas Angelica está à frente de Brutus agora. Má garota. Brutus rosna um pouco para Angelica, ela recua, fica para trás. Brutus é o cachorro Um. Angelica deveria saber disso. Brutus chega primeiro na Mestre, como deve ser.

Brutus é o cachorro Um, mas a Mestre é o alfa. Líder do grupo. Não é a líder do seu grupo humano mas tudo bem. Ela se abaixa e coça todo o pescoço e ombros de Brutus, profundo, firme. Coça muito bem porque vai fundo nos pêlos grossos de Brutus. O rabo está abanando tão forte que as patas de trás escorregam no chão. Se derruba e fica de costas para a Mestre coçar a barriga. Ela coça e isso é um êxtase.

Mestre está machucada e com dor. Brutus sabe disso. Quando ela se abaixa, demora mais tempo, ela faz sons quando faz coisas tipo se abaixar e se levantar. Ela cheira a sangue seco e estresse e suor de um jeito diferente do normal.

“Angelica, Judas, fiquem,” Mestre diz, “Não vou levar vocês.” Brutus não entende mas a Mestre soa triste. Como quando ela estava subindo escadas e acidentalmente chutou o queixo de Brutus porque ele estava seguindo muito de perto. Ela coça os dois em seguida. Não é muito animado. Eles estão felizes em ser coçados mas não vão passear. O rabo de Brutus para de balançar. Brutus não vai passear?

Mestre pega a guia. “Brutus, bom garoto. Vamos passear?” O rabo está abanando que nem louco de novo. Mestre manda Brutus sentar, Brutus senta. É um bom garoto. Mestre coloca sacolas plásticas no bolso de trás, coloca mochila. A mochila não é normal para passear. Missão?

“Vamos fazer uma missão, ok?” A Mestre fala. O rabo de Brutus balança. Brutus estava certo! Missões sempre são interessantes. Brutus dá alguns passos para a frente antes de lembrar de ser um bom garoto. Mestre não gosta quando Brutus puxa a guia. Ela coloca sapatos, pega as chaves barulhentas, pega as coisas embrulhadas que ela come às vezes mas o Brutus não pode porque Brutus é um cachorro. Coisas embrulhadas vão no bolso esquerdo. Ela pega biscoitos para cães para colocar no bolso direito, e para. Dá biscoitos para Judas e Angelica. Biscoito para Brutus?

“Biscoitos depois,” Mestre diz. ‘Depois’ é uma palavra familiar mas não é claro o que quer dizer. Brutus sente profunda decepção quando os biscoitos vão para o bolso direito da Mestre. Pula um pouco para lembrar Mestre que ela esqueceu de dar biscoito. Mestre faz o clicar de raiva (N.T.: som de estalar a língua) e Brutus sente muito agora. Rabo abaixado, orelhas abaixadas.

“Bitch, espera,” fala o homem sem cheiro. Homem sem cheiro deixa Brutus nervoso porque ele é grande mas não tem cheiro. Mas ele é o alfa da Mestre então Mestre para e escuta.

“Você vai sair?” o homem sem cheiro pergunta.

“Trabalhar,” Mestre diz.

O homem sem cheiro espera alguma coisa, e então fala de novo, “Você tá bem?”

“Bem pra caralho.” Brutus sabe que Mestre só fala ‘caralho’ nesse tom quando está brava.

“Acho difícil de acreditar, na verdade. Você estava bem mal quando te achei com os capangas do Über e do Leet, e aqueles caras da ADM.”

“Já tô melhor,” Mestre fala para ele. Ela parece brava. Brutus dá um passo adiante, pronto para rosnar e juntar sua voz à dela, mas Mestre aperta a guia só um pouquinho e Brutus fica quieto.

“Quando eu te achei, um deles tinha te amarrado no teto pelos pulsos e estava te usando como saco de pancadas.

Mestre desvia o olhar. Brutus sabe que isso é um sinal que a Mestre vê o homem sem cheiro como seu alfa. Quando ela fala, ainda soa brava, “Eu fiz merda. Eu tava agitada, com tédio, pensei em passear com a Angelica e ver se eu encontrava vocês onde o dinheiro estava. Alguém me reconheceu e me seguiu. Eu fui burra, eu apanhei por isso. Tô melhor agora, temos o dinheiro, tá tudo bem.”

O homem sem cheiro suspira. Parece um pouco bravo quando diz, “Não é… ah, esquece. Não vai adiantar mesmo. Mas e se alguém te reconhecer enquanto você passeia com ele?”

“Vou me defender melhor, com mais força. Ou você vai me dizer que não posso mais passear com meus cachorros?” De repente, Mestre está tensa. Brutus vê isso nas pernas dela, ouve na sua voz, sente na guia esticada.

“Eu nunca diria isso,” o homem sem cheiro responde, sua voz quieta, um pouco forçada. “E você não me escutaria se eu dissesse. Só… toma cuidado.”

“Posso ir?”

“Vai. Se divirtam, vocês dois.”

E a tensão vai embora. Um pequeno assobio e o Brutus sabe que deve seguir. Descendo as escadas e saindo pela porta para o mundo lá fora. Tantos cheiros! Tantos sons! Tão animado!

Mas não pode ficar muito animado. Brutus é um bom garoto. Não puxa a guia como a Angelica ainda faz. Mestre sempre faz cliques de raiva pra Angelica em passeios.

Mestre está andando mais devagar. Poupando uma perna. Brutus quer muito passear mas não puxa a guia mesmo que a Mestre esteja andando devagar.

Tantos cheiros! Estar em seu território é bom mas estar passeando é cheirar o mundo todo. Sempre coisas novas, sempre coisas novas para cheirar em coisas velhas. Cheirar esse xixi e saber quase tudo sobre o cachorro que fez xixi. Cadela. Talvez logo no cio. Mora com crianças. Xixi cheira a estresse e comer grama demais e dormir demais e ser um cachorro gordo.

Cheirar aquele cocô para saber sobre o cachorro que fez o cocô. Cachorro com fome. Mestre do cachorro provavelmente também tem fome. Muitos assim por aqui. Não como na casa antiga de Brutus. Nenhuma pessoa ou cachorro com fome. Mas Brutus lembra de estar triste. Mestre sempre estava ignorando Brutus. Deixava Brutus sozinho no porão o dia todo até Brutus parar o homem mau que veio pela janela do porão. Tudo bem agora. Brutus é feliz com sua nova mestre.

Cheirar aquele xixi. Xixi humano. Não muito interessante. Mestre assobia para lembrar Brutus de acompanhar. Nada de cheiros por enquanto.

“Brutus, senta, fica,” Mestre ordena. Brutus senta e fica enquanto Mestre espera ao seu lado. É um bom garoto. É coçado pela Mestre. Pequena humana está andando até Brutus. Menor do que Brutus. Toca Brutus, cutuca. Cutuca um olho. Brutus abaixa orelhas, abaixa cabeça, rabo entre as pernas. Não está coçando bem. Pequena humana ri. Cutuca Brutus de novo na barriga.

Brutus olha para Mestre. Implorando. Mestre não diz nada então Brutus fica quieto e sendo cutucado. Pequena humana agarra o pêlo de Brutus e puxa com muita força. Como a Angelica quando Angelica era nova no grupo da Mestre, mordendo e puxando e fazendo Brutus sangrar. Memória ruim. Rosnado começa a subir pela garganta de Brutus.

“Não, Brutus, para,” Mestre ordena. Brutus abaixa cabeça. Nada de rosnar. Ainda sendo cutucado. Ainda sendo puxado.

Grande humana que cheira como a pequena humana chega. Andando rápido. Grande humana para e ri de Brutus e pequena humana.

“Não são uma gracinha?” Outra risada.

Mestre não dá risada.

“Bom, crianças são crianças.”

Mestre fala, sua voz calma mas a linguagem corporal raivosa, “Vê se cuida da porra da sua filha.” Brutus sabe que ‘cuida’ é ordem para Brutus sentar e ficar e latir se alguém aparecer… mas Mestre está falando com a grande humana e não dando ordens para Brutus. Outra palavra que Brutus conhece é ‘porra’, o que quer dizer que a Mestre está com raiva mas ela não está dizendo ‘porra’ para Brutus então tudo bem.

Brutus acha que talvez tudo bem rosnar agora porque Mestre disse ‘porra’ então ele rosna. Sente o cheiro de medo da humana pequena e da grande. Mestre não diz ‘não’ então tudo bem o Brutus rosnar.

Humana grande ri mas a risada é diferente agora, tremida. Balança a mão. Se abaixa para pegar a pequena humana.

“Brutus, guarda,” Mestre ordena. Brutus dá uma olhada para Mestre e Mestre está apontando para a pequena humana então Brutus fica no meio da pequena humana e a grande humana e rosna para a grande humana. Grande humana recua. Brutus sente cheiro de um monte de medo agora. Sente o suor e estresse e ouve pequenos sons de preocupação e medo da grande e da pequena humanas.

Grande humana dá um passo para o lado e Brutus também para continuar entre ela e a pequena humana. Ela se abaixa de novo e Brutus rosna, mordendo o ar perto de seus dedos. É um bom garoto.

Grande humana fala para Mestre, “Por favor. Ela só estava agindo que nem criança. Ela acha que todo cachorro quer carinho.” Sua voz é submissa, soando como preocupação e medo.

“Brutus, boca.” Brutus olha para onde Mestre está apontando e Mestre está apontando para a pequena humana. Brutus obedece, pegando o braço da pequena humana e o segurando na boca. É um bom garoto. Pequena humana chora e tenta se soltar mas Brutus fecha a boca um pouco de cada vez e a pequena humana logo entende que o braço vai ficar na boca de Brutus.

Então Mestre fala para a grande humana, “Ele é um cachorro traumatizado, sabe. Antes de eu ter ele, ele era maltratado. Até que ele machucou alguém tanto que a pessoa foi amputada. Eu salvei ele antes que fosse sacrificado. E você deixou a sua filha vir e ficar cutucando ele. Você entende o que podia ter acontecido? Que ele podia matar ou machucar a porra da sua criança birrenta?”

Brutus só reconhece seu nome e a palavra ‘matar’. Outras palavras não significam nada para Brutus. ‘Matar’ é ordem para atacar e não parar até a coisa não se mexer mais. Mestre só manda Brutus e Judas e Angelica matar esquilos e guaxinins e uma vez um cavalo. Humana grande está ajoelhada agora e cheiro de medo é tudo o que Brutus consegue cheirar agora. É bom estar menor que a Mestre e mostrar submissão. Mulher grande está falando coisas mas Brutus não entende nada porque ela está falando sem parar.

“Brutus, solta. Vem,” Mestre diz e Brutus solta o braço e vai para o lado da Mestre. Pequena humana ainda chora.

Então a Mestre fala para a grande humana a mesma coisa que antes: “Vê se cuida da porra da sua filha.” Passeio começa de novo. É coçado. Mestre diz que Brutus é um bom garoto e Brutus está feliz. Rabo abanando.

Passeio longo antes de Brutus e Mestre pararem num lugar que cheira a sangue e medo canino e raiva canina e xixi e cocô. Mestre bate na porta. Homem que abre a porta tem cheiro de sangue.

Mestre e homem falam por um tempo, e Brutus espera porque Brutus é um bom garoto. Não presta atenção no que estão falando por causa dos cheiros. Cheiros ruins. Sons de cachorros ganindo e latindo de dentro da porta. Então Mestre diz “Fica” e o homem começa a tocar Brutus. Toques como o do veterinário, não como a Mestre coçando. Sentindo cada parte de Brutus, dedos profundos no pêlo para massagear, checar. Mãos nas partes baixas do Brutus. Fala coisas que soam negativas, balança a cabeça. Mestre fala mais um pouco. Homem se levanta e aperta a mão dela.

Mestre leva Brutus para o lugar que cheira a sangue e medo canino e raiva canina. Barulhento. Muitas pessoas sentadas no escuro. Cheiro de animação e suor. A maior parte das luzes estão bem no meio onde o cheiro de sangue é mais forte.

Homem da porta fala para a Mestre, “Bota ele no portão.” Mestre coloca Brutus numa coisa que é tipo um canil que cheira a raiva e medo.

Homem fala em voz alta e todas as pessoas gritam e fazem mais barulho. Homem fala o nome de Brutus. Ele diz ‘matar’ o que é uma palavra que Brutus conhece. Mas o cheiro de sangue é tão forte aqui que Brutus não consegue prestar atenção em outras coisas. Tanto sangue de tantos cachorros. Tantos cheiros.

Então o canil se abre e Brutus não tem para onde ir senão para o meio. Não pode ir para a Mestre porque tem caixas no caminho e tem outro cachorro aqui maior do que Brutus que cheira a raiva e seu próprio sangue e sangue de outro cão e morte.

Então Brutus sente. Mestre está deixando o Brutus mais forte e dói mas é uma dor boa. Dor boa como quando Brutus está duro e se alonga e as juntas estalam e Brutus se sente melhor por causa disso. Só que esse alongamento não para e Brutus continua estalando e Brutus continua se sentindo melhor e Brutus fica maior. Mestre geralmente demora mais para deixar o Brutus forte assim mas Brutus está sozinho com o cachorro que cheira a sangue e morte e a Mestre tem que saber que Brutus precisa ser mais forte.

Logo Brutus está maior que Mestre e maior que um carro e Brutus é forte. Cachorro mau que cheira a sangue e morte está se encolhendo.

Então Mestre assobia duas vezes, o que é a ordem de vir e Brutus está confuso porque não tem como ir. Mestre assobia de novo e chama o nome de Brutus e Brutus atravessa as caixas que estão no caminho. Caixas quebram e Brutus pode ir até a Mestre como um bom garoto.

“Brutus, guarda!” Mestre diz e Brutus vai até onde a Mestre está apontando, e é a porta para onde todas as pessoas que cheiram a medo estão indo. Para chegar na porta e guardar, Brutus usa as patas para empurrar as pessoas para fora do caminho e agarra o braço de uma pessoa e joga ela para longe como Brutus gosta de fazer com seus brinquedos favoritos e a pessoa dá um grito agudo.

Então Brutus está guardando a porta e pessoas estão correndo para outro lugar. Lembra Brutus dos esquilos e como esquilos correm. Mas pessoas não são rápidas ou espertas como esquilos e elas não trapaceiam subindo em árvores.

“Brutus! Atacar!” Mestre grita e Brutus obedece como um bom garoto. Brutus usa as patas e dentes e tamanho para pular na multidão de pessoas que estão correndo como esquilos para fazer elas pararem de correr. Nada de chacoalhar. Nada de mastigar. Morder só perna e braço. Não morder cabeças. Usar as patas tudo bem mas não as garras o que é difícil então Brutus só morde e empurra as pessoas com a cabeça e o corpo para derrubar elas e fazer elas pararem. Às vezes usa a cauda o que é uma novidade divertida. Brutus não tem cauda quando pequeno.

Muitas pessoas. Cada vez que Brutus pensa que todas as pessoas pararam de se mexer alguém começa a correr de novo. Leva um longo tempo. A língua de Brutus está para fora, ofegando. Rabo abanando e caixas quebrando e Mestre faz clicar de raiva como quando Brutus faz coisa errada. Nada de balançar o rabo.

Pessoas deitadas no chão chorando. Cheiram a sangue e medo. Ninguém correndo que nem esquilo agora.

Mestre grita, “Nunca mais!” e são palavras para as pessoas e não para Brutus. Brutus conhece as duas palavras. ‘Nunca’ é ruim e é para coisas que Brutus não deve fazer. ‘Mais’ é o que a Mestre fala quando dá biscoitos ou joga bolas ou enche as tigelas de comida. Brutus não entende, porque uma palavra é ruim e a outra é boa. Mas Mestre é alfa e Mestre sabe então tudo bem.

Mestre pega chaves barulhentas da pessoa chorando e pega gaiola com cachorro bravo dentro que cheira a sangue. Mestre leva a gaiola para fora e põe ela no carro e fala para Brutus guardar os carros. Algumas pessoas vão embora mas Brutus não deixa ninguém chegar perto dos carros. É um bom garoto. Mestre vai para dentro e pega mais gaiolas com cães raivosos e coloca todas elas no carro. Então a Mestre faz isso de novo. Mestre pega a mochila e usa cordas da mochila para amarrar as gaiolas juntas e amarrar as gaiolas ao carro.

Então Mestre vai para dentro por um longo tempo e não volta. Pessoas foram embora então Brutus não precisa mais guardar. Brutus vai até a Mestre lá dentro.

Mestre está ajoelhada perto de gaiolas e cachorros lá dentro cheiram a sangue e cocô. Mas os cachorros não estão bravos, não estão se mexendo. Brutus toca Mestre com o nariz e deita do lado da Mestre e Mestre abraça o pescoço de Brutus. Mestre abraça Brutus apertado por um longo tempo. Brutus sabe que é um longo tempo porque Brutus deixa de ser grande e fica menor que a Mestre.

Carros que fazem barulho estridente começam a vir de muito longe e Brutus dá pequenos latidos como a Mestre ensinou. Mestre se levanta e leva o Brutus para o carro e entra pela outra porta e o carro começa a se mexer.

Mestre abre e come a coisa embrulhada do bolso. Mestre dá biscoito para Brutus e abre a janela para Brutus poder colocar a cabeça para fora e sentir o vento e o rabo de Brutus balança porque Brutus sabe que foi um bom garoto.

Casca 4.11

“Ei, Taylor, acorda.” Uma voz feminina.

“Taylor?” uma voz mais grossa, mais adulta, “Vamos lá, mocinha. Você foi muito bem.”

Eu estava aconchegante, aquecida. Como acordar num dfia frio numa cama quentinha, com todas as cobertas no lugar certo, se sentindo totalmente descansada, sabendo que não precisava se levantar correndo. Ou como ter seis anos de idade, ter se enfiado na cama dos pais em algum ponto da noite e acordar entre eles.

“Acho que ela está gradualmente despertando,” Alguém mais velho. Um homem idoso, talvez. Um desconhecido.

“Fiquei preocupado se ela iria acordar,” a voz mais grave disse.

“Eu poderia ter te contado que ela não estava em coma,” a garota respondeu.

“Do mesmo jeito que você tem cem por cento de certeza, absoluta e definitiva, que ela não tem nenhuma lesão séria no cérebro?” O homem idoso disse. “Porque analgésicos podem camuflar os sintomas, e se esperarmos demais para cuidar disso… bem.”

“Nada além do que descrevi para você,” a garota insistiu, um pouco ofendida, “A não ser que o seu equipamento seja falho. Eu preciso de informações corretas para trabalhar direito, ou faço deduções errôneas.”

“Eu lhe asseguro, meu equipamento é limitado, mas está em perfeita ordem de funcionamento.”

Tentei abrir os olhos, claridade demais. Embaçado, como se eu estivesse olhando através de água, mas meus olhos estavam secos como lixa. Alguma coisa escura se moveu no meu campo de visão, fazendo minha pálpebra tremer. Outra coisa fez cócegas na minha bochecha. Tentei levar a mão ao rosto para tirar o que quer que fosse, mas meus braços estavam estendidos, cobertos por lençóis, e eu não tinha forças para movê-los.

“E aí, dorminhoca,” a voz grave de novo. Senti uma mão grande tocar minha testa, se movendo para tirar meu cabelo da minha cara, o que me lembrou de novo da minha mãe e do meu pai. Ser criança, ter alguém cuidando de você.

O idoso e a garota ainda estavam discutindo. O tom dela era impaciente, “-uma concussão, grave perda de sangue, batidas internas e externas, mais o que quer que tenha fodido o sistema nervoso dela, entendeu? Não tenho motivos pra mentir pra você.”

“Tudo o que estou dizendo é que se tiver mais alguma coisa, e isso resultar em complicações no futuro, é com você, porque estou aceitando sua palavra nisso. Eu preferiria que a garota não morresse ou ficasse com trauma cerebral, é claro, mas se ela ficar, não vou me sentir culpado, e eu-”

“Se algo acontecer por eu estar errada, e não for por você me ter dado as informações ou ferramentas erradas para trabalhar, eu assumo a culpa. Vou dizer isso a ele, e a sua reputação não será afetada. Juro.”

O homem resmungou e reclamou baixinho, mas não disse mais nada.

Tentei abrir os olhos de novo. Reconheci o rosto. Brian. Lisa se juntou a ele ao lado da cama.

“E aí,” ela disse, num tom empático, “Você levou um tombaço, hein?”

“Acho que sim,” respondi, embora eu não estivesse certa de ter dito o ‘sim’ em voz alta. Eu provavelmente estava quase dormindo de novo, quando algo roçou meu rosto novamente, me fazendo franzir o nariz. “O que é-?”

“Isso, flor, é o único motivo de estarmos tentando acordar você. Você tem usado o seu poder enquanto dorme, e todos os insetos da vizinhança estão vindo aqui rastejar em você. Não ao mesmo tempo, nem todos juntos, mas eles estão engrossando e alguém vai perceber.”

Brian olhou pelo quarto, “Tapamos as portas e janelas com plástico filme e fita isolante, mas eles ainda estão entrando. Não podemos te levar pra lugar nenhum desse jeito, e o bom médico aqui precisa que a gente vá embora caso um paciente de verdade apareça.”

“O que eu preciso é de um ambiente profissional estéril,” o idoso resmungou, “Um que não esteja infestado de baratas e-”

“A gente tá lidando com isso aqui,” Lisa devolveu, rudemente. Então, numa voz mais suave, ela disse, “Taylor, não durma de novo.”

Fiquei surpresa ao perceber que estava adormecendo. Que estranho.

“Eu sei que os anestésicos são bem bacanas. A gente te encheu disso, porque você estava com muita dor mesmo. Mas você precisa mandá-los embora. Os insetos.”

Oh. Eu me lembrava vagamente de ter chamado meus insetos para mim não muito antes de apagar. Acho que eu não mandei eles pararem. Acho que desmaiar me impediu. Mandei uma instrução, e disse a ela, “Está feito.” Alguma coisa chamou minha atenção. “Hmm. Música interessante.”

“Música?” Lisa pareceu muito preocupada por um momento. Ela olhou para Brian.

“Lá fora. Na frente da porta. Talvez seja um iPod. Tem um cara ouvindo música. Talvez ele não esteja usando fones de ouvido. Ou eles não foram colocados corretamente. Parece uma orquestra, ou música pop. Isso é latim? Ou inglês? Os dois? Esse pedaço agora parece japonês. Ou chinês. Eu não sei diferenciar, isso é racista?”

“Você não está fazendo sentido, Taylor,” Brian disse, bondosamente.

Lisa sumiu brevemente do meu campo de visão, “Mas ela está certa. Tem um cara nos degraus da frente, ouvindo música. Como você sabia?”

“Mariposa na porta. Eu estava tão ocupada ouvindo, esqueci de mandar ela embora. Desculpa. Eu vou… vou-”

“Shh. Relaxa. Tá tudo bem. Só mande os insetos embora, e você pode voltar a dormir. A gente tá lidando com tudo, tá bom?”

Tava bom. Eu dormi.

¦

Fui acordada de um sonho.

“Cuidado!”

“Estou tomando cuidado. Para de se mexer tanto. Fecha logo a porta do carro.”

“Não estou me mexendo tanto. Você quase deixou ela cair agora há pouco. Eu juro, se você bater a cabeça dela…”

“Não vou,” as palavras soavam como um baixo vibrando contra um lado do meu corpo, assim como o som em meus ouvidos. Eu estava aquecida neste lado do corpo, também. E tinha um cheiro bom. Tipo couro e creme de barbear.

Comecei a falar alguma coisa, mas desisti. Muito empenho.

Uma voz de garota perto de mim. “E aí, Taylor. Eu ouvi alguma coisa. Você tá acordada?”

Fiz que não com a cabeça e apertei a bochecha mais forte no corpo quentinho.

Ela riu.

Um som de batida em porta. O ritmo clássico de três batidas, uma pausa e mais uma. A porta abriu logo depois.

“Meu deus, Taylor. Ela…?”

A garota – Lisa, eu percebi que a conhecia – respondeu, “Ela está bem, só está dormindo. Como eu disse no telefone-”

“Desculpe interromper, mas… Desculpe, esqueci completamente o seu nome, mas posso ajudar a trazê-la pra dentro?”

“Na verdade, tá tudo certo, e acho que seria mais fácil ela cair se a gente tentasse levar ela juntos. Meu nome é Brian.”

“Brian, ok. Obrigado. Pode trazer ela por aqui. Depois que vocês ligaram, eu não sabia o que fazer. Fiz uma cama no sofá, caso ela não pudesse subir as escadas, ou se estivesse numa cadeira de rodas. Eu estava pensando no pior…”

“O sofá está ótimo,” Lisa disse, “Ela definitivamente não está tão ruim quanto poderia, nem de longe. Ela vai dormir bastante, e você vai precisar checar a cada meia hora pra ter certeza de que ela está bem, pelas próximas doze horas. Além disso, ela pode querer assistir TV entre as sonecas, então esse parece um lugar perfeito para ela ficar.”

“Está bem. Ok.”

Fui deitada no sofá, e instantaneamente senti falta do calor e da proximidade de momentos atrás. Então alguém pôs cobertores aquecidos e um edredom fofinho em volta de mim e decidi que não era tão ruim assim.

“Vocês podem vir até a cozinha? Nossa casa é pequena e temo que não haja lugares para todos na sala com o sofá virado em cama. Na cozinha, vamos fazer menos barulho.”

“Mas ainda podemos ver se ela acordar,” Lisa respondeu, “Faz sentido.”

“Posso servir alguma coisa? Chá, café?”

“Café, por favor,” Brian respondeu, “Foi uma noite longa.”

“Daria trabalho para o senhor se eu pedisse chá, quando o senhor já está preparando o café, sr. Hebert?”

“Depois de tudo o que vocês fizeram, chá é o mínimo que eu posso fazer. Mas por favor, me chame de Danny.”

Se eu estivera confortável num mar tranquilo de morfina há pouco, eu estava muito bem acordada agora, depois de ouvir o nome e perceber que as vozes e nomes que eu havia reconhecido não tinham nada que falar umas com as outras.

Meu pai, Lisa e Brian. Na mesa da cozinha. Fiquei com os olhos semi-cerrados, ouvindo atentamente cada palavra.

“Ela está bem?”

“Como eu disse no telefone, ela está bem,” Lisa disse, “Concussão, hematomas, um pouco de perda de sangue. Nove pontos.”

“Preciso levá-la ao médico?”

“Se quiser. Mas meu pai é médico, e ele deu uma olhada nela na clínica dele. Deu um jeitinho de conseguir uma tomografia, um exame neurológico. Ele queria ter certeza absoluta de que não havia traumatismo cerebral algum antes de dar a ela analgésicos mais potentes. Aqui. Estou com o potinho num bolso. Achei. É codeína. Ela provavelmente vai ter umas dores de cabeça bem fortes, e ela reclamou enquanto dormia de dor nas extremidades do corpo. Dê a ela uma pílula quatro vezes ao dia, mas só se ela achar que precisa. Se ela estiver bem, vá retirando aos pouquinhos. Duas por dia, ou meia pílula quatro vezes ao dia.”

“Quanto é?”

“A codeína? Quatro pílul-”

“Os exames, a tomografia, a receita. Se você me der um segundo para pegar a carteira, eu posso-”

Eu podia imaginar Lisa segurando a mão dele, o impedindo. “Ela é uma amiga, Danny. Meu papai nunca ia nem sonhar em deixar você pagar.”

Tão surreal. Ouvir coisas como o nome do meu pai ou a palavra ‘papai’ da boca de Lisa.

“Eu… não tenho palavras. Obrigado.”

“Tudo bem. Sério. Eu me sinto culpada-”

“Nós nos sentimos culpados,” Brian interrompeu.

“-por deixar isso acontecer. Pela Taylor ter levado a pior do impacto. E sinto muito por não ter ligado mais cedo. Tivemos que esperar até a Taylor acordar e estar coerente o suficiente para nos dar o seu telefone.”

Eu tinha quase certeza de não ter feito isso. O que provavelmente fazia deste um daqueles momentos de Tattletale assustadora em que ela descobria algo que eu não achei que ela pudesse descobrir.

“Eu- tudo bem. Seus outros amigos estão bem?”

“Rachel levou mais arranhões e hematomas do que a Taylor, mas ela não teve uma concussão, e ela é bem robusta. Ela deve estar dormindo profundamente em casa, e vai estar de pé já esta tarde. Alec, nosso outro amigo, apagou quando aconteceu, acordou com uma dor de cabeça horrível, mas ele está bem. A gente tá zoando dele porque ele desmaiou, e isso tá enchendo o saco dele pra car-, hã, pra caramba. Como se meninos nunca desmaiassem.”

“E vocês dois?”

“Um pouco abatidos, mas dá pra saber só de olhar pra gente, é claro. Arranhões, uns galos, uns roxos. Eu me queimei um pouquinho. Nada que seja mais perigoso do que uma insolação.”

“Não em volta dos olhos, estou vendo.”

Lisa riu, tão naturalmente que ninguém pensaria duas vezes sobre aquilo, “É, eu estava de óculos de sol quando aconteceu. Dá pra notar tanto assim?”

“Não muito, e se é como uma insolação, você vai ficar bem logo. Você pode me contar mais sobre o ocorrido? No telefone, você falou sobre uma-”

“Uma bomba. Você tem visto os jornais?”

“Explosões por toda a cidade a noite toda e a manhã toda, sim. O incidente no QGP. Tudo por causa de uma dessas parahumanas. Não me lembro do nome. Parecia japonês?”

“Bakuda, certo? É, deve ser isso. A gente estava cortando caminho pelas Docas na nossa volta do Mercadão, e acho que nos metemos no lugar errado na hora errada. Num instante, tudo estava normal, de repente, o caos. O Brian tava segurando as sacolas da Taylor enquanto ela amarrava o sapato, então ela estava um pouco atrás de nós quando aconteceu. Eu e o Brian nos levantamos logo após a explosão, e o Alec, a Rachel e a Taylor não. A Taylor foi a que me deixou mais assustada, deitada lá, porque dava pra ver o sangue logo de cara.”

“Meu deus.”

Abri os olhos para espiar e vi meu pai à mesa da cozinha, com o rosto enterrado nas mãos. Engoli em seco toda a minha culpa e fechei os olhos de novo.

Brian disse, “Eu me sinto tão mal por causa disso. Eu não deveria ter deixado a Taylor sozinha enquanto ela amarrava o sapato, ou-”

“Brian. Se você estivesse lá junto com ela, vocês dois estariam na mesma situação e você não poderia tê-la carregado,” Lisa argumentou. “Foi culpa minha por sugerir que a gente cortasse pelas Docas.”

“Tenho que perguntar-” Meu pai começou, “Por quê…?” Ele não terminou, incapaz de achar um jeito educado de concluir a frase.

“Normalmente a gente não pegaria um atalho por aquela parte da cidade,” Lisa disse, “Mas nós éramos em cinco, e você sabe… olha pro Brian. Você mexeria com um cara do tamanho dele?”

“Credo, valeu, hein, Lisa,” Brian disse. Então ele e meu pai riram juntos.

Tão surreal.

“Eu… eu sei que parece estranho,” meu pai falou, hesitantemente, “Mas mesmo depois de vocês me falarem que tinha sido a bomba, no telefone, eu não consegui acreditar. Achei que talvez fosse uma brincadeira de mau gosto, ou que a Taylor tivesse encontrado, hã.”

“As garotas da escola,” Lisa completou a frase do meu pai.

“Você sabe?”

“Ela explicou um bom bocado, incluindo o que aconteceu em janeiro. Todos nós deixamos bem claro que ajudaríamos se ela quisesse, não importando o tamanho da ajuda.”

“Entendo. Estou contente que ela tenha achado alguém com quem falar sobre o assunto.”

Empaticamente, Lisa respondeu, “Mas está desapontado que esse alguém não seja você.”

Se culpa causasse dor física, acho que teria sido como uma espada impalando meu coração.

Meu pai, inexplicavelmente, riu, “Bom, e não é que você está certa mesmo? A Taylor disse que você era inteligente.”

“Ela disse, foi? Que bom ouvir isso. O que mais ela disse?”

Meu pai riu novamente. “Vou parar agora, antes que eu fale alguma coisa que ela preferiria manter privada. Acho que ambos sabemos que ela não é uma pessoa muito aberta.”

“Verdade.”

“Tem biscoitos caseiros no pote, ali. Ainda estão quentes. Depois de arrumar o sofá, eu não sabia o que fazer. Tive que me desestressar de alguma forma, então fiz biscoitos. Sintam-se em casa enquanto eu vejo o café e o chá.”

“Obrigada, Danny,” Lisa disse, “Eu vou até a sala dar uma olhada na Taylor, se for tudo bem?”

“Por favor.”

“Só vou pegar um biscoito antes… Mm. Que cheiro bom.”

Fechei os olhos e fingi estar dormindo. Eu podia ouvir o Brian conversando com meu pai no outro cômodo, alguma coisa sobre o emprego do meu pai.

“E então?” Lisa me perguntou numa voz quieta, ao sentar-se no sofá ao meu lado, “A história casa bem?”

Pensei sobre o assunto, “Não gosto de mentir pro meu pai.”

“Então mentimos pra ele por você. A não ser que você queira contar a verdade?”

“Não, mas eu não quero vocês aqui.” Os freios mentais que deveriam ter me impedido de falar isso falharam. Fechei os olhos, sentindo o calor do fluxo de sangue nas bochechas.

“Eu- Me desculpa… Aquilo saiu errado. Eu me sinto grata pelo que vocês fizeram, pelo que estão fazendo. Vocês são super legais e sair com vocês tem sido a maior diversão que eu tive em anos. Estou muito feliz de vocês estarem aqui, e eu gostaria mesmo de relaxar e descansar depois de tudo aquilo, mas-”

Lisa pôs um dedo em meus lábios, me silenciando. “Eu sei. Você gosta de manter as diferentes partes da sua vida separadas. Sinto muito, não teve outro jeito. Você estava machucada, e a gente não podia ficar com você sem o seu pai dar um piti.”

Abaixei os olhos, “É.”

“Você provavelmente vai ficar um pouco instável por alguns dias. Sua, hm, honestidade brutal aqui deve ter sido a sua concussão dando o ar de sua graça. Isso vai influenciar o seu humor, talvez te desinibir um pouco, como se você estivesse bêbada. Sua memória pode ficar um pouco bagunçada, pode ser que você fique mais desorganizada, ou você pode ter instabilidade de humor, tipo crises de choro ou de riso. Você pode ter dificuldade em reconhecer sutilezas sociais. Se esforce para se recuperar, a gente não se importa se você disser alguma coisa que normalmente não diria. Só… tente não deixar nada privado escapar na frente do seu pai, fechou? Tudo isso vai passar logo, logo.”

“Ok.” A última parte me aliviou um pouco.

Brian se juntou a nós, se sentando no canto da cama onde Lisa não estava, perto dos meus pés. “Seu pai é um cara legal,” ele me disse. “Se parece muito com você.”

Eu não sabia o que responder sobre isso, então eu só disse, “Obrigada.”

“Mesmo depois que você se recuperar da maior parte, acho que vamos fazer um esforço pra evitar situações cabeludas, pelo menos por um tempo,” Lisa disse. Brian concordou.

“Eu gosto dessa ideia,” respondi. “Então, o que realmente aconteceu ontem à noite?”

Ela mudou a cabeça de lugar para compartilhar o meu travesseiro, “Até onde você se lembra?”

“Até o Alec fazer ela bater o carro. Num instante tudo está bem, depois, mal posso me mexer, mal posso pensar.”

“Ela estava brincando de fingir de morto. Eu estava ocupada cuidando do Alec, achei que vocês dois fossem ficar de olho nela. Ao mesmo tempo, eu acho, você e o Brian pensaram que eu fosse ficar de olho nela. Enquanto ninguém prestava atenção, ela carregou o lançador de granadas e atirou uma em vocês. A explosão deveria ter te queimado, mas acho que o seu uniforme te salvou disso. Ele não ajudou muito com a concussão, sabe. A bomba tinha um efeito secundário, mexeu em alguma coisa no seu sistema nervoso. Como se alguém te encostasse um taser, mas ao invés de te deixar desacordada, te enche de mais dor do que deveria ser possível.”

Estremeci. Só de lembrar como a dor tinha sido meu corpo se arrepiava, como se alguém estivesse arranhando um quadro negro.

“Eu estava mais afastada, e acho que o seu corpo protegeu o Brian, ou talvez o poder dele tenha ajudado, porque o efeito não nos atingiu nem de longe com tanta força. Ainda foi o suficiente pra nos derrubar por tempo o bastante para a Bakuda carregar e atirar duas vezes aquela porcaria de fita. Quando aquilo aconteceu, a gente tava tão fodido. Já era. Até você virar o jogo.”

“Eu cortei o pé dela,” me lembrei.

“Você cortou fora dois dedinhos e meio do pé esquerdo dela. Um deles tinha um anel. O Brian falou que você empurrou a faca na direção dele antes de apagar. Ele sombreou a área, conseguiu pegar a faca, se livrou daquela fita horrorosa e tirou a gente de lá.”

“E a Bakuda?” sussurrei.

“Uma das notícias ruins. Ela fugiu enquanto o Brian estava ajudando a gente com a fita.”

“Porra!” Eu disse, um pouco alto demais.

Brian se desculpou, “Você estava muito mal, eu não sabia o que tinha acontecido com o Alec, e a Lisa estava meio fraca por causa daquela mesma explosão que mexeu com você daquele jeito. Talvez eu pudesse ter alcançado e detido a Bakuda, mas decidi que me assegurar da segurança de vocês era mais importante.”

Assenti. Eu não podia exatamente discordar daquilo.

Lisa continuou, “Eu liguei para o chefe, ele nos mandou para um médico que tem a reputação de ser discreto e trabalhar com parahumanos. Vinte anos de carreira. Estávamos preocupados com você.”

“Desculpa.”

“Você não tem culpa nenhuma. Enfim, as coisas meio que se resolveram. O médico tirou a cápsula do nariz do Brian, suturou os seus ferimentos, deu um soro pro Alec. Fiquei sentada lá esperando enquanto o Brian foi pegar a Rachel, o cachorro e o dinheiro. Só tinha um ou dois mil faltando, que alguém achou que podia pegar da bolsa sem ninguém notar. O chefe mandou uma van e pegou a grana um pouco depois da meia noite. O dinheiro que ele deu pra nós já está lá no apartamento, com mais em breve, assim que ele decidir quanto valem os papéis.”

“Você disse que as coisas meio que se resolveram, mas você ainda não me contou o resto das notícias ruins. O que aconteceu?”

Ela suspirou, “Estava esperando que você não fosse se lembrar. Você quer mesmo saber?”

“Na verdade, não. Mas se eu vou ficar aqui por um tempo, de molho, não quero ficar imaginando que o pior aconteceu.”

“Ok.” Ela enfiou a mão no bolso da jaqueta, e me entregou um pedaço de jornal. Mas ele estava rasgado. Logo no topo, em letras garrafais, estava a palavra ‘fugiu’.

Ao tentar ler o artigo, percebi que não conseguia manter meus olhos fixos em linha reta. “Lê pra mim?”

“Vou te contar o que aconteceu. Logo antes de começar a nos perseguir naquele jipe, Bakuda deu a ordem de colocar outro plano em ação. Bombas começaram a explodir em toda a cidade. Destruindo transformadores pra causar um apagão em bairros inteiros, uma escola, uma ponte, trilhos de trem… a lista continua. As pessoas estão surtando. Notícia de primeira página, está em todos os canais. Estão dizendo que já tem pelo menos vinte mortes confirmadas, e isso sem contar as quatro pessoas que ela explodiu enquanto estava nos mantendo reféns.”

Uma imagem vívida do que havia acontecido com Park Jihoo passou pela minha cabeça. Ele morreu. Ele está morto. Eu nem conhecia ele, mas ele se foi para sempre, e eu não pude fazer nada para salvá-lo.

“Essa é a segunda notícia ruim. Tudo aquilo, era só uma distração. Algo para manter todas as capas da cidade ocupadas, enquanto o Oni Lee tirava o Lung do QGP.”

Soltei um longo suspiro. “Ah, puta que pariu.”

“A cidade virou uma zona de guerra. A ADM está doze vezes maior do que estava duas semanas atrás, e a Bakuda está fazendo a festa. Mais bombas estão detonando a cada dia, mas dessa vez em focos menos essenciais. Comércios, depósitos, barcos. O que eu acho é que ela está apontando para lugares onde as outras gangues e facções da cidade se encontram, ou lugares onde possam se encontrar. Eu não sei o que vai acontecer.”

“Pensei que ter um terço dos dedos do pé cortados fora faria ela botar a mão na consciência, sabe,” Brian disse.

Lisa balançou a cabeça. “Ela está numa fase de mania. Mas vai parar, se é que já não parou, e as explosões vão acabar em algumas horas. Mas com o Lung voltando a ser o líder, não acho que a ADM vá perder o fôlego. Ele vai querer aproveitar a situação que a Bakuda criou para ele. É só uma questao de onde, quando, e o quanto. Depende se ele está em forma.”

Não pudemos mais conversar sobre o assunto. Tattletale levou um dedo aos lábios, e calamos a boca. Alguns segundos depois, meu pai entrou na sala, segurando uma bandeja. Ele a pôs no meu colo. Três canecas, um prato com biscoitos e dois pãezinhos tostados, um com geléia e um com manteiga.

“Tenho outro pão na torradeira, então sirvam-se e peçam mais se quiserem. A caneca verde é o café do Brian. Chá para as moças. Aqui, Lisa. A caneca de Woodstock é a preferida da Taylor desde que ela era criança. Aqui.”

Brian riu um pouco quando eu peguei a caneca com as duas mãos.

“Ei! Nada de rir de mim enquanto estou debilitada.”

“O que me lembra, quanto tempo até ela poder andar por aí em segurança?” Meu pai pergunto para Lisa.

“Uma semana, no mínimo,” Lisa respondeu, “Talvez você devesse escoltá-la até o banheiro até ter certeza de que ela consegue andar sozinha, mas além disso, é melhor ela ficar na cama, sem sair de casa e pegar leve até sábado que vem.”

Aquilo me lembrou algo. “E a escola?”

Lisa me cutucou levemente no braço com o cotovelo e sorriu, “Você tem uma ótima desculpa pra faltar. Vai reclamar?”

Bom, eu tinha me forçado a ir pra escola depois de perder quase uma semana de aulas, com a intenção de continuar indo, e agora eu ia perder mais uma semana inteira. Eu não podia dizer isso, especialmente na frente do meu pai.

“Tudo bem ficarmos um pouco?” Lisa murmurou no meu ouvido, assim que o meu pai saiu para pegar o terceiro pão.

“Pode ser,” aceitei. O estrago já estava feito, por assim dizer, eles já estavam aqui. Eu podia muito bem aproveitar. Abri espaço para o Brian poder sentar no sofá, à minha esquerda, e Lisa se levantou por um segundo para pegar o controle remoto. Ela achou um canal com um filme que tinha acabado de começar e voltou a se sentar à minha direita.

Caí no sono por um instante e ao acordar percebi que estava descansando a cabeça no braço do Brian. Mesmo depois de abrir os olhos, ao voltar a prestar atenção no filme, deixei a cabeça onde estava. Ele não pareceu ligar. Nós três rimos das piadas do filme, e a Lisa ficou com soluço, o que só fez eu e o Brian rirmos mais.

Vi meu pai protelando na cozinha, provavelmente pra ficar de olho em mim, e trocamos olhares. Dei um leve aceno, sem mexer o braço, só a mão, e sorri. O sorriso que ele me devolveu foi o primeiro sorriso de verdade que eu via em seu rosto num longo tempo.

Sobre a escola? Eu pensaria em alguma coisa depois, se pudesse aproveitar o presente agora.

Casca 4.10

Gradualmente, descobri que eu podia abrir os olhos, como se fosse algo que eu tivesse esquecido como fazer. Experimentei e me arrependi instantaneamente. Um dos meus olhos não estava vendo nada, mesmo aberto, e o outro estava fora de foco; até quando eu conseguia ver alguma coisa, as imagens não faziam sentido. Fechando os olhos com força, até o brilho vermelho difuso da luz passando através de minhas pálpebras era como fogos de artifício explodindo em minhas retinas.

Quando tentei pensar para ver se entendia o que tinha acontecido, descobri que meus pensamentos estavam extremamente lentos.

“Se vocês bostinhas tivessem alguma noção, saberiam que ficar na vantagem em relação a mim, mesmo que seja só por um instante… é algo que deveria aterrorizar vocês,” uma voz sibilou. Levei alguns segundos para identificar a voz, muito mais do que eu deveria. Bakuda.

Estava começando a doer. Como cortes de papel, mas duzentas vezes maiores, e cada um desses cortes era um músculo meu. Minha pele estava pinicando com ardências que gradualmente pareciam-se mais e mais com queimaduras. Minhas juntas latejavam como se cada uma tivesse sido arrancada de seu lugar e alguém estivesse batendo as pontas em carne viva no asfalto num ritmo sombrio.

Abri meu olho bom novamente e tentei, sem sucesso, focá-lo. Três faixas vermelhas… não. Eu estava vendo triplo. Uma faixa vermelha se estendia pela minha máscara, descendo pela ponta onde ela cobria o nariz, pingando no chão. Quando olhei para o asfalto, vi uma poça ainda crescendo. Percebi que eu estava sangrando. Um monte.

“Me deixar lá deitada com um lançador de granadas na mão e munição espalhada na porra da rua inteira, vocês pediram por isso. Caralho, só aquela merda toda de ficar se abraçando super aliviados, como se tivessem me derrotado mesmo? Pedindo pra levar uma na fuça.”

Eu não iria me render assim. Não sem uma luta. Mas eu nem conseguia me mexer direito, que dirá fazer alguma coisa. Meu desejo de fazer algo era quase tão excruciante quanto a dor que latejava e pulsava por todo o meu corpo. O que eu poderia fazer? Minha mente não estava funcionando tão devagar quanto estivera agora há pouco, mas meus pensamentos ainda estavam lentos e falhos. Coisas que eu deveria saber sem pensar estavam vagas, incertas, desconexas. Ideias demais estavam isoladas, desligadas de outros conceitos. Eu estava com vontade de jogar alguma coisa no chão, ao menos se eu pudesse me mexer sem fazer tudo doer muito. Resolvi cerrar os punhos.

Escola. Problemas na escola? Eu? O Trio? Não. Por que eu estava pensando sobre isso? No que eu estava pensando antes de ficar tão frustrada? Eu queria revidar de alguma forma. Bakuda, escola, revidar. Quase gemi de frustração ao tentar conectar as ideias isoladas, e simplesmente não consegui completar o pensamento. Só consegui bufar um pouco, tremendo com a dor que isso causou.

“Oh? A garotinha inútil com a roupa de inseto acordou,” a voz chiada de Bakuda anunciou para o ar noturno.

Grue disse alguma coisa, a uma pequena distância dali, não ouvi o que era.

Bakuda respondeu sem pensar muito, “Shh, fica de boa aí. Já já chega a sua vez.”

Ouvi alguma coisa, e vi um par de botas cor de rosa aparecer na frente do meu rosto, a imagem nadando e balançando levemente.

“Dia ruim?” ela se inclinou sobre mim, “Que bom. Sabe, uma dos meus capangas trabalha lá no Quartel General do Protetorado. Ela é um guarda onde o Lung está preso, saca? Não teve a oportunidade de libertá-lo, mas ela conseguiu a versão dele dos fatos. Eu sei que era você a esquisitinha que pôs ele no xilindró. Então hoje você vai ser minha convidada de honra. Vai ficar olhando eu mexer com seus amiguinhos. Vou começar com o menino de preto, e depois os seus coleguinhas adormecidos ali do lado. Colei eles no chão só por precaução. Quando seus amigos estiverem de paletó de madeira, vou dar você para o Oni Lee. Ele foi um rapaz muito educado quando ocorreu de mudarem as coisas, e agora fica me enchendo o saco, quer um brinquedo novo. O que você acha disso?”

Eu não estava ouvindo direito. Como se fosse um mantra, eu estava repetindo mentalmente a mesma coisa, de novo e de novo. Bakuda, escola, revidar.

“Bakuda, escola,” balbulciei. Ouvir minha voz soar tão fraca e fina foi mais assustador do que qualquer das outras coisas que haviam passado pela minha consciência nos últimos minutos.

“O que é? A baratinha quer dizer alguma coisa?” Ela se abaixou e agarrou o pedaço de armadura que cobria meu peito. Com um puxão, ela me colocou numa posição meio-sentada. Ser puxada daquele jeito foi uma tortura, mas a dor ajudou a atiçar meus pensamentos e me deu um pouco de clareza.

“Escola. Bakuda falhou,” eu respondi, minha voz minimamente mais forte do que havia sido anteriormente. As lentes vermelho-escuras de seus óculos de proteção encararam as minhas enquanto eu compunha meus pensamentos para falar novamente, tentando soar mais coerente. “Você se acha muito esperta, mas falhando desse jeito? Como que é? Segundo lugar? Nem o segundo?” Consegui fazer um som que se aproximasse de uma risada.

Ela me soltou e se afastou como se eu estivesse pegando fogo. Quando minha cabeça bateu no asfalto, quase desmaiei. Tive que lutar para ficar consciente. Aceite a dor. Te mantém desperta.

A uma pequena distância de mim, a voz de Grue ecoou. Só consegui entender a primeira palavra. “Ela” ou “Cela”. Ele riu. Eu não consegui entendê-lo e eu não sabia por que, e isso me assustou. Eu não estava ouvindo tão bem como de costume, eu sabia disso. Mas não era só isso. O que mais?

A distorção. A explosão ou explosões haviam danificado minha audição, talvez, e eu não conseguia entender as palavras dele com o efeito que ele colocava na voz. Só de descobrir isso já me senti mil vezes melhor.

“Você acha?” Bakuda sibilou para Grue. As palavras dela eram mais fáceis de entender, já que a máscara dela as reconstruía, de forma que elas eram enunciadas perfeitamente num monotom, mesmo com todo o chiado.

Ela me chutou na cara com uma daquelas botas rosa. Ter que mover a cabeça quase doeu mais do que ter os dentes quebrados. Ela me agarrou pelo uniforme e me arrastou por vários metros. Isso fez toda a dor em geral aumentar mais um ponto. Numa escala de um a dez, daria pra marcar um nove e meio. Nada que eu fizesse poderia doer mais do que aquilo, de modo que juntei força física e mental para erguer os braços e segurá-la pelos pulsos, como se fosse grande coisa. Ela me soltou e me deu um empurrão para que eu ficasse de lado. O movimento me deu ânsia de vômito.

Ver Grue ajudou a me manter acordada enquanto eu lutava contra a náusea e dava minúsculas golfadas de ar com a dor. Ele estava amarrado numa posição meio-sentada contra um galpão com o que parecia ser um monte de fita amarela grudenta. Onde estava Tattletale?

“Vamos ver se vocês continuam tão espertinhos depois de eu dar meu presentinho para o sr. moreno alto, bonito e sensual (N.T.: ‘tall, dark and handsome’ é uma expressão em inglês que quer dizer basicamente isso),” Bakuda ameaçou, “Deixa eu ver… ah. Essa é uma pérola. Dois vinte e sete. Agora fique quietinho. Se você sequer pensar em usar seu poder, vou enfiar essa coisa goela abaixo da pirralha pernilonga ali, e detonar. Não é como se você pudesse fazer alguma coisa para me impedir, mesmo que me deixe surda e cega.”

Ela tirou suas luvas cor de rosa e as jogou para longe. Então pegou o que parecia ser uma tesoura bem comprida e fina de dentro de sua manga. Só que as pontas não eram afiadas, era quase um alicate (N.T.: o nome disso é pinça hemostática). As pontas tilintaram ao se fechar segurando o que parecia uma pílula de metal.

“Não vai precisar de cirurgia, já que não vai ficar aí muito tempo. O que eu vou fazer é enfiar isso pela sua narina e deixar na sua cavidade nasal.” Ela pôs a mão na escuridão que estava vazando em toda a volta dele e procurou seu rosto. “Só preciso tirar essa sua máscara… capacete… Pronto.”

Se ela havia conseguido, era difícil dizer. A cabeça de Grue era só uma silhueta redonda de sombras.

Ela pôs uma mão lá dentro de novo e empurrou a cápsula no meio daquilo com a outra. “E aí está… vá devagar, coisinha, vá devagar… não quero ativá-la antes da hora, os efeitos só vão ser legais mesmo se ela estiver lá no fundo. Sabe, a minha dois vinte e sete foi meio que um acidente. Eu estava lendo sobre os poderes da pequena Vista, pensei que talvez eu pudesse fazer uma bomba de distorção espacial. Por pura sorte, quebrei o efeito Manton. Ou pelo menos o que quer que eu tenha usado ao fazer essa bomba ultrapassou o efeito Manton. Vocês sabem o que é isso, idiotas?”

Ela parou e estralou os nós dos dedos, deixando a tesoura estranha enfiada na cara do Grue. “É aquela regrinha que impede os pirocinéticos de ferver o seu sangue, que não deixa a maioria dos poderes afetar os corpos das pessoas. Ou, dependendo de qual teoria você segue, é a regra que diz que ou seu poder só funciona em coisas orgânicas, seres vivos; ou no resto das coisas.

“Então pense nisso. Um efeito de distorção espacial que só funciona em matéria viva. Eu detono essa coisa, e toda a matéria viva dentre um metro da cápsula é distorcida, inflada, encolhida, entortada. Na verdade nem mata. Essa é a segunda coisa mais incrível sobre ela, depois do efeito Manton. Tudo ainda se conecta com o resto. Totalmente não-letal, mas você vai desejar ter morrido pelo resto da sua vidinha miserável.”

Não fique aí deitada só olhando, pensei. Faz alguma coisa!

“Só um clique, e bum, você fica tão feio que dá vergonha até no homem-árvore. Pode ser uma cabeça quatro vezes maior do que o normal, com caroços espalhados feito tumores, cada parte do corpo do tamanho errado, forma errada. O cérebro muda também, mas geralmente só causa um probleminha de leve a moderado, porque eu calibrei para o foco na aparência exterior.” Ela riu. Era aquele som seco, repetitivo, não humano. Quando falou novamente, ela pronunciou cada palavra separadamente: “Irreversível. E. Fodásticamente. Hilário.”

Procurei meus insetos, mas não consegui formar pensamentos complexos o suficientes para dar a eles qualquer comando que preste. Então só os chamei para mim. Eu ainda tinha que ajudar o Grue.

Meu compartimento de utilidades. Devagar, tanto para ser discreta quanto pela minha incapacidade de me mover rapidamente sem sentir uma dor horrível, levei minha mão às costas, me lembrando do que eu tinha lá.

Spray de pimenta – não. Queimaria a pele dela, mas os óculos e a máscara deixariam o rosto dela bem protegido. Ela estava arranhada e sangrando, então talvez eu pudesse passar em seu corpo… os ferimentos dela sofreriam, mas isso salvaria a gente?

Caneta e papel. Celular. Dinheiro trocado. Não, não e não.

Cacetete. Eu não tinha forças para usá-lo, ou o espaço necessário para abri-lo.

Injeções. Não iam servir, e eu não estava confiante na minha coordenação motora o suficiente para tentar isso.

Isso era o que tinha no meu compartimento de utilidades. Deixei minha mão cair e balançar por trás das costas ao me preparar para trazê-la de volta à frente, quando meus dedos encostaram em algo.

A faca embainhada na parte inferior das minhas costas. Eu a havia prendido no ponto mais baixo possível das minhas costas, para que ficasse fácil de alcançar e fosse também protegida pela minha armadura.

A faca servia.

Houve um leve clique quando Bakuda ajustou a tesoura-alicate e a removeu do nariz de Grue. A cápsula não estava mais lá.

“Isso vai ser show,” ela celebrou, se levantando antes de eu pensar em onde cortar ou atingir. Eu não queria matar, mas tinha que detê-la. Pelo Grue.

Minha mão ainda estava atrás das costas, segurando o cabo da faca com a lâmina apontando para a parte de baixo da minha mão. Mudei minha posição um pouco para que meu ângulo fosse melhor.

“Ô, barata tonta. Qual é a sua? Se torcendo feito um peixe fora d’água? Presta atenção, vai ser bem legal quando pedaços do rosto dele começarem a saltar pra fora daquele pedacinho de breu.”

Tentei pensar numa resposta, alguma coisa que fosse alfinetar combinando com o que eu ia fazer, mas uma onda de fraqueza passou sobre mim. Minha visão começou a escurecer, de novo. Estiquei minhas pernas numa tentativa de me causar mais dor, me forçando a ficar alerta, e não consegui fazer a escuridão passar. Será que era o Grue fazendo isso? Olhei para ele. Nada. Eu só estava desmaiando mesmo.

Eu não podia apagar agora.

Anéis nos dedos dos pés.

Sem uma resposta engraçadinha, nem uma piada, nem mesmo um grito de raiva, baixei a faca para as pontas do pé dela. Dois pensamentos me vieram à mente ao mesmo tempo.

Eu havia atingido algo duro. Será que o pé ou a bota dela tinham armadura?

E o pé era sequer o certo? Tattletale nunca tinha dito qual deles tinha os anéis. Ou se eram os dois.

Uma onda de escuridão passou pela minha visão e saiu rapidamente, me deixando meio desacordada, vagamente ouvindo os gritos. A náusea estava voltando, a minha consciência se esvaindo enquanto a vontade de vomitar aumentava. Eu ia vomitar, mas eu poderia me engasgar se eu fizesse isso usando a máscara. Se eu estivesse deitada de costas, eu poderia sufocar.

Grue estava falando alguma coisa. Não consegui entender as palavras. Soava urgente.

A mulher estava berrando no meu ouvido. Uma procissão de ameaças, palavrões, coisas horríveis que ela ia fazer comigo. A inconsciência me chamava, sedutora, segura, indolor, livre de perigos.

Se é que fosse mesmo só inconsciência. A ideia aterrorizante de que eu poderia estar morrendo me atingiu, me dando um breve momento de clareza. Foquei com força na salada de imagens e sons distorcidos, onde eu estava, quem estava falando e gritando comigo.

A mulher estava rolando no chão ao meu lado. Quando ela chutou uma perna, um pouco de sangue manchou a lente da minha máscara do meu olho que enxergava. Qual era mesmo o nome dela? Bakuda. A pontinha da minha faca ainda estava enterrada no asfalto onde o pé dela havia estado. Era aquilo a coisa dura: asfalto, não armadura. Tinha um monte de sangue. O dela. Um pedaço da bota, rosa e vermelho. Dois dedinhos com unhas pintadas, rosa e vermelho, no meio do caos sangrento.

Tentei puxar a faca e falhei, embora ela só estivesse meio centímetro para dentro do chão. O esforço me deixou ofegante, tentando respirar fundo para engolir ar. Cada respiração me fazia sentir como se eu tivesse inalado arame farpado e ferros quentes estivessem pressionados contra minhas costelas. Eu estava rezando para que a ânsia de vômito fosse embora, mesmo sabendo que não iria.

Grue. O que ele estava dizendo? Eu mal podia entender Bakuda com sua pronunciação robótica. Entender Grue era dez vezes mais difícil. Como se fosse outra língua.

‘Megá a chua vaca’? Faca? A faca. Ele precisava dela.

Me deixei cair de frente, com o rosto no chão, para que eu não me engasgasse. A mão que segurava a faca permaneceu onde estava, mas meu braço se dobrou num ângulo ruim, me dando uma pontada de dor. Meu pulso e cotovelo se remexiam bizarramente, tentando voltar a uma posição natural. Resisti à vontade de soltar, continuei segurando o cabo da faca.

O chão cedeu antes de mim, e a faca se soltou. Meu braço se estendeu, se esticando à minha frente, a faca segura em minha mão enluvada de preto. Olhei acima da faca para ver uma imagem embaçada de Grue tentando se soltar da fita dourada, a última coisa que vi antes de a escuridão e a inconsciência me tomarem.

Casca 4.9

“Você foi baleado?” Perguntei ao Regent, enquanto nós quatro corríamos pela viela. Não fui respondida. Então tentei de novo, mais precisa, “Regent! Presta atenção, atiraram em você?”

Ele balançou a cabeça com o menor movimento possível e apertou uma mão contra o ombro machucado, “Não foi isso. Usei demais o meu poder em muito pouco tempo, e ele deu tilt. Cãimbras no braço esquerdo, espasmos. Não posso usá-lo. Não esquenta com isso.”

“Deu tilt?” perguntei.

“Não esquenta com isso!” Sua resposta violenta foi ainda mais surpreendente por ter vindo de alguém que normalmente era tão plácido e despreocupado. Como se para compensar, ele murmurou uma desculpa, “Porra. Desculpa. Isso dói, mas eu me viro. Vocês se preocupem em resolver essa situação.”

“Tattletale,” eu ainda estava segurando a sua mão, então a apertei para chamar a atenção dela, “Agora seria uma hora fantástica pra você mostrar seu talento.”

“Ainda mais depois de ter pisado na bola deixando a gente se meter nessa merda toda,” Grue grunhiu.

“Ok,” Tattletale ofegou tanto pelo fato de estar correndo quanto por estar irritada, soltando minha mão para por os cabelos pra trás das orelhas, “Pra começar: ela está mentindo.”

“Sobre?” perguntei.

“Ela não é a nova líder da ADM.”

“O quê? Quem é?” Grue perguntou.

“Sei tanto quanto você. Ela não se vê como a chefe, por mais que goste de representar este papel. Ela está fingindo.”

O chão estremeceu, e olhamos para trás para ver destroços voando para fora da escuridão que Grue tinha usado para cobrir nosso recuo estratégico.

Foi graças a isso que vimos o foguete saindo de lá. Nos abaixamos, sem necessidade, porque o míssil voou um metro acima de nossas cabeças e continuou em direção ao fim da rua, diretamente para onde estava uma bomba holográfica.

Cobrimos a cabeça quando ambos explodiram, um logo após o outro. A primeira explosão nem mexeu um fio de cabelo, embora estivéssemos a menos de trinta metros de distância. A segunda, no entanto, passou por nós com o frio mais intenso que eu já tinha sentido na vida. Eu pude senti-lo mesmo através do uniforme.

Quando abrimos os olhos, havia um espetáculo à nossa frente. A segunda explosão havia congelado a primeira bomba no meio da detonação, e provavelmente tinha sido o que absorveu o bruto da explosão. Fumaça, destroços e poeira haviam congelado numa torre de gelo, tão alta quanto um prédio de dois andares, feita de pingentes de gelo e geada que irradiavam para cima e para todos os lados. Os postes, espaçados por toda a área de depósito, iluminavam a maior parte da escultura. Ela já estava se destruindo – pedaços mais pesados de concreto estavam quebrando o gelo que os sustentava, caindo e estraçalhando camadas de geada finas como papel.

Aquela mesma geada cobria o chão e todas as paredes que estivessem de frente para a área de explosão, até onde eu podia ver. Estava nos cobrindo também. Pingentes de gelo tão finos e minúsculos que mais pareciam pequenos cílios cobriam as partes do meu uniforme que tinham estado expostas. Havia até uma escultura cheia de curvas, onde a fumaça de Grue tinha se congelado.

“Tá todo mundo bem?” Grue perguntou. Ele estava protegendo Tattletale com seu corpo, fazendo o gelo deslizar para fora deles ao se levantarem. Ele me pegou olhando e explicou, “O uniforme da Tattletale deixa mais pele exposta do que o de qualquer um de nós. Se ela tivesse sido totalmente exposta-”

“Não,” eu respondi, “De boas. Ótima ideia. Mas a gente tem que dar o fora.”

Saímos correndo. Em toda a nossa volta, minúsculos cristais de gelo estavam espiralando para o chão, brilhando na luz.

Tattletale continuou o fluxo de informação sobre Bakuda, “Mentira número dois: ela está blefando sobre o modo como as bombas explodem na cabeça das pessoas. Ela disse que detona as bombas com um pensamento, mas ela não tem nenhum hardware externo na cabeça, e não deixaria alguém fazer cirurgia nela. Controladora demais, orgulhosa demais do próprio cérebro.”

“Então você não sabe como ela está detonando as bombas?” perguntei.

“Eu sei exatamente como. Anéis nos dedos dos pés.”

“Nos dedos dos pés,” Grue disse, a incredulidade óbvia em seu tom, mesmo com a voz distorcida.

“Ela tem um anel no dedão e outro no dedo ao lado. Quando ela cruza um dedo por cima do outro, o contato entre as superfícies dos anéis manda um sinal. Ela escolhe o alvo por meio de um sistema embutido nos óculos de proteção. Não parece que ela está fazendo nada, o que é provavelmente o efeito que ela quer. Aparências.”

“Bom saber,” Grue disse, “Mas isso não nos ajuda agora. Quais são as fraquezas dela?”

Houve o ruído de uma explosão atrás de nós. A área se iluminou brevemente, longe o suficiente de nós para não ser preocupante.

“Distúrbio de personalidade narcisista. Megalomania. Ela passou a vida toda sendo mais inteligente do que o resto das pessoas, mesmo antes de ter poderes. O tempo todo sendo elogiada, mimada. Mas ela quase nunca ouvia críticas, provavelmente nunca deram um chega pra lá nela, e isso foi um grande fator em fazer o ego dela inflar perigosamente. Ela deve ter se formado no ensino médio com anos de antecedência. Aposto que o evento de gatilho dela teve algo a ver com isso. Outra pessoa era melhor que ela, ou alguém falou umas verdades, e ela não soube lidar com isso.”

Eu tinha algo a mencionar, “A primeira coisa que ela fez com seus poderes, a única, antes de vir pra Brockton Bay, foi fazer uma universidade refém. Talvez ela tenha tirado uma nota baixa, reprovado numa matéria ou sido rejeitada para algum cargo que ela queria. Prejudicando tanto a sua imagem de si mesma, que ela… teve um troço.”

“Alguma coisa útil, gente!” Grue exigiu.

“O distúrbio de personalidade,” Tattletale disse, “Até mesmo uma pequena vitória por nossa parte vai gerar uma reação enorme dela. Em se tratando de ego, ela tem um telhado de vidro. É difícil dizer se uma vitória nossa faria ela dar a louca e explodir tudo, ou se ela simplesmente desmoronaria, mas eu garanto que ela não ia lidar bem com isso.”

Grue assentiu, começou a falar, mas tropeçou. Tentei meu melhor para ampará-lo, mas ele provavelmente pesava uma eu e meia. Ele conseguiu se equilibrar, grunhiu e perguntou, “O que temos que fazer para ganhar? Ou para não perder? Quais são as cartas que ela tem na manga?”

“Os óculos. Ela está usando visão térmica. É assim que ela fica achando a gente. Esse gelo na verdade é uma sorte, acho que está nos escondendo. Ela deve ter um motivo. Hã. As armas dela só funcionam com suas impressões digitais, então não podemos pegar o lançador de granadas pra usar contra ela.”

“E o que mais?”

“Isso é tudo o que eu pude deduzir até agora. Se você quer um plano, é melhor pensar rápido. Acho que ela está nos procurando com o jipe.”

“Então vamos nos dividir,” Grue limpou a garganta, “Eu machuquei o tornozelo chutando aquela porta quando o buraco negro apareceu. Depois de correr tanto ele tá pior ainda. Vou ver o que posso fazer, ficando aqui.”

“Mas o quê?” exalei, “Não.”

“Assim vocês ganham tempo. Vão logo. Agora!”

“Nem pensar,” falei, mas ele estava parando, se virando para trás. Tentei parar também, mas Tattletale pegou minha mão e me arrastou atrás dela. “Grue!” Gritei.

Ele não respondeu, se virando para jogar escuridão nas luzes mais perto dele, escurecendo a rua toda. Lentamente, ele andou na direção oposta à que estávamos seguindo, mancando com uma perna.

Com um assobio e um estrondo ressoante, outro foguete colidiu com a torre de gelo. A coisa toda caiu como um enorme castelo de cartas, com o som de cem mil janelas quebrando. Mesmo com toda essa cacofonia, pude ouvir pneus cantando. Vi a forma embaçada do jipe se aproximando, atravessando a nuvem de neve e geada que estava rolando para fora da torre destruída.

Grue não recuou quando o jipe acelerou em sua direção, e nem se virou. Ele gritou o mais alto que pôde, em sua voz alterada, “Vem pra cima!”

“Grue!” gritei, mas ele não reagiu. “Porra!”

Nada de insetos. Ainda muito escassos. Estivéramos constantemente correndo, então meus bichinhos não tinham tido oportunidade de se agrupar, e esse lugar era muito barulhento pra eles de qualquer forma, tanto em qualidade quanto em quantidade. Como eu pude ter sido tão ridiculamente estúpida? Eu deveria estar sempre preparada, e agora eu não podia ajudar um amigo e um colega quando ele mais precisava, porque achei que nunca fosse ficar sem insetos.

Só tinha três pessoas no jipe, com a pessoa em pé na traseira sendo a muito reconhecível Bakuda, segurando seu lançador de granadas. O bandido no banco do carona tinha uma pistola em cada mão, e o motorista estava dirigindo com uma mão só, segurando uma arma na outra.

Grue nem se mexeu quando o motorista pisou no acelerador. Ele estava brincando de pega-pega com um carro?

“Vem pra cima!” Grue gritou novamente.

“Não fica aí só olhando!” Tattletale puxou meu braço, me levando para a esquina, “Temos que ir agora, faça isso valer a pena!”

Era burrice, mas eu resisti, agarrando a borda de um armário para me certificar que eu poderia pelo menos ficar o suficiente para ver o que aconteceria com o Grue. Talvez ele ficasse bem.

Minhas esperanças foram rapidamente despedaçadas. O carro atingiu a silhueta enrolada em escuridão com tamanha velocidade que tive certeza que ele não sairia andando daquilo.

Os pneus cantaram e o jipe fez uma meia volta, parando. Bakuda ajeitou sua posição, em pé no jipe segurando a barra enquanto olhava à sua volta, procurando por nós.

“Anda logo!” Tattletale me apressou num sussurro nervoso, “Vamos embora!”

Percebi antes dela. “O carro está intacto.”

Os puxões repetidos de Tattletale no meu braço pararam, pois ela pausou para verificar o que eu havia dito. Nenhuma janela quebrada, depressões no capô, ou arranhões na lateral.

Uma nuvem de escuridão surgiu das sombras de um lado da ruela e engoliu o jipe com seus três ocupantes.

Dois segundos depois, o jipe saiu rugindo da escuridão, as rodas escorregando no asfalto coberto de gelo. O motorista o dirigiu em nossa direção, enquanto Bakuda carregava seu lançador de granada, com seu foco na nuvem de escuridão da qual ela tinha acabado de sair. O cara no banco do carona… não estava lá.

Bakuda mirou o lançador de granadas na escuridão.

“Bosta, o Grue me deve uma por essa,” Regent murmurou. Ele soltou seu ombro, levantou a mão na direção do jipe e a jogou para um lado. Quando fez isso, soltou um grito selvagem, instintivo de dor.

A mão que o motorista mantinha no volante se moveu assim como a de Regent, balançando loucamente para o lado. O jipe virou, cambaleou, e girou, jogando Bakuda e o conteúdo de uma meia dúzia de caixas com explosivos no meio da rua. O veículo colidiu com um galpão, destroçando uma porta no caminho, e espiralou até parar com um único airbag acionado e um motorista imóvel.

Quase ao mesmo tempo, Regent começou a cair no chão, inconsciente. Eu o segurei para tentar pará-lo e o coloquei devagar no chão, para que ele não batesse a cabeça. Olhei para Tattletale, “Deu tilt?”

“Não, mas quase isso,” Tattletale disse, “Depois de um tilt, ele tem que descansar seus poderes. É como dar um soco com uma mão quebrada. Ele vai ficar dolorido e provavelmente sem poder usar seus poderes por um tempo, mas vai se recuperar.”

“Que bom,” eu disse, olhando para a cena. O carro batido, a rua coberta de gelo cheia de granadas, Bakuda deitada imóvel no meio de tudo. Grue saiu mancando da nuvem de escuridão, a pistola do carona em sua mão.

“Grue!” gritei. Corri até ele e o abracei. Meu alívio foi tão intenso que eu nem fiquei com vergonha.

“Oie,” sua voz ecoou, “Eu tô bem. Foi uma encenação. É difícil saber se sou eu ou um boneco de sombras que parece uma pessoa quando as luzes estão apagadas, né? Enganei ela.”

“Me enganou também. Me assustou pra caralho,” eu respondi, “Seu bosta.”

“Que bom que você se importa,” ele riu um pouco, me dando um tapinha na cabeça como se faz com um cachorro, “Vamos nessa. A gente precisa prender essa maluca, tirar ela daqui pra podermos interrogá-la e saber o que aconteceu com a Bitch e o dinheiro. Talvez aprender alguma coisa sobre o que anda rolando com a ADM.”

Sorri por trás da máscara, “Parece um bom pl-”

Não pude terminar. Tudo ficou branco, e então cada fibra do meu ser vibrou numa agonia cortante que fazia a pior das dores parecer um carinho.

Desde termos encontrado Über e Leet, tinha sido uma correria atrás da outra. Fomos cercados e perseguidos por uma multidão, tivemos armas apontadas na nossa cara, escapamos de um mini buraco negro, quase ficamos congelados no tempo como um inseto em âmbar, inúmeras explosões. Tínhamos escapado cada uma das ameaças por um triz, sabendo o tempo todo que bastaria um tiro bem acertado, e já era, a gente já era.

Tudo o que levou foi um tiro bem acertado.

Casca 4.8

Eu estava descobrindo que enfrentar mais de uma dúzia de armas de fogo, trinta pessoas com armas improvisadas e uma cientista maluca com um fetiche por bombas me fazia apreciar muito, muito mais o que a Bitch oferecia à minha equipe.

“Tudo isso,” Tattletale falou com muito cuidado, “Você estava brincando com a gente. É por isso que você não mandou atirarem na gente logo de cara.”

“Você está corretíssima.” A máscara de Bakuda havia alterado a voz dela para algo que parecia Robbie o Robô com dor de garganta, mas eu tive a impressão de que ela tentava corrigir isso com linguagem corporal. Ela balançou um dedo para Tattletale como se estivesse dando bronca num cachorro. “Mas eu acho que você, especificamente, devia ficar quietinha. Rapazes?”

Ela pôs a mão na cabeça de um membro da ADM que estava na frente do jipe com uma pistola na mão. Ele se encolheu com o toque. “Se a loirinha abrir a boca de novo, atire no grupo todo. Não importa o que os outros falem, mas ela fica calada.”

Seus soldados ajustaram suas miras, e mais de um mirou na direção da Tattletale, especificamente. Olhando para ela, vi seus olhos se estreitarem, seus lábios pressionados firmemente numa linha.

“É,” Bakuda endireitou a coluna, pisou com um pé no topo da porta do jipe e descansou os braços no joelho, inclinada para nós. “Você é a única que eu não entendo. Não sei seus poderes. Mas já que foi você e o magrelo que distraíram meus mercenários inúteis, para minha segurança vou manter você quietinha. Talvez seja alguma coisa subsônica, alterando emoções enquanto fala, talvez seja outra coisa. Eu sei lá. Mas você cala a boca. Tá?”

De soslaio, vi Tattletale acenar minimamente com a cabeça.

“Agora, estou meio que enrascada,” Bakuda sibilou, examinando o dorso da mão. Parecia que ela não estava só compensando a voz mecânica com linguagem corporal; ela gostava de falar. Não que eu estivesse reclamando disso. “Sabe, o Lung me ensinou muita coisa, mas a lição que eu realmente levei a sério é a de que ser um líder tem tudo a ver com medo. Nessa nossa carreira, as pessoas só vão ser leais a alguém se esse alguém meter um medo do caralho nelas. Com medo o bastante, elas param de se preocupar com seus próprios interesses, param de pensar em usurpar seu lugar, e se dedicam totalmente a te fazer feliz. Ou pelo menos, a não te fazer infeliz.”

Ela desceu do jipe e agarrou o cabelo de um rapaz japonês mais alto que ela, de cabelos compridos, do grupo de estudantes. Brincando com o cabelo em suas mãos, ela fez ele se curvar até sua orelha estar bem na frente dela, “Não é mesmo?”

Ele murmurou uma resposta e ela o soltou, “Mas vai além disso, não é? Sabe, eu posso ter herdado a ADM-”

Foi quase imperceptível, mas eu vi um breve movimento no rosto de Tattletale. Uma mudança de expressão ou movimento da cabeça. Quando olhei na direção dela, no entanto, não pude adivinhar o que era.

Bakuda continuou sem pausa alguma, “Mas eu também herdei os inimigos do Lung. Então eu tenho um dilema, sabe. O que posso fazer com vocês que vá convencê-los de que vale a pena ficar longe de mim? Que gesto seria efetivo o suficiente para fazer as pessoas correrem para as colinas quando me vissem chegando?”

Ela se virou e pegou uma pistola das mãos de um dos seus bandidos, “Dá aqui.”

Então ela andou até o meio da multidão.

“Não tem muitos insetos aqui.” Aproveitei a chance da pausa em seu monólogo para sussurrar o mais baixo que pude, rezando para que os outros escutassem e que eu não estivesse falando muito alto. Pelo menos minha máscara cobria meu rosto, escondendo o fato de que meus lábios estavam se movendo, “Regent?”

“Não posso desarmar todos eles,” ele sussurrou sua resposta. “Digo, eu-”

“Você.” Bakuda chamou, nos assustando. Mas ela não estava prestando atenção em nós. Um menino coreano-americano num uniforme da Immaculata estava se encolhendo na frente dela. A multidão se afastou lentamente, deixando uns dois metros de espaço em volta dos dois.

“S-sim?” O garoto respondeu.

“Park Jihoo, não é? Já segurou uma arma antes?”

“Não.”

“Já deu uma surra em alguém?”

“Por favor, eu nunca… não.”

“Nunca se meteu numa briga? Tipo uma briga de verdade, mordendo, arranhando, procurando qualquer coisa que pudesse ser usada como arma?”

“N-não, Bakuda.”

“Então você é perfeito para minha pequena demonstração.” Bakuda pressionou a pistola nas mãos dele, “Atire num deles.”

O rapaz segurou a arma como se fosse um escorpião vivo, com dois dedos, o mais longe que conseguiu, “Por favor, eu não posso.”

“Vou deixar fácil pra você,” Bakuda pode ter tentado soar reconfortante ou animadora, mas a máscara não permitia esse tipo de inflexão, “Você nem tem que matar eles. Pode atirar no joelho, no cotovelo, ou no ombro. Tá? Espera um pouco.”

Ela deixou a arma nas mão do garoto e se afastou, apontando para um de seus homens, “Pega a câmera e começa a filmar.”

Como ordenado, ele foi até o jipe pegar uma pequena câmera de mão. Ele mexeu nela por alguns segundos antes de segurá-la acima da cabeça para ver através da multidão, olhando pelo painel na lateral para se assegurar de que a mira estava certa.
“Obrigada por esperar, Park Jihoo,” Bakuda voltou sua atenção para o rapaz com a arma, “Você pode atirar agora.”

O menino disse algo em coreano. Talvez uma oração, “Por favor. Não.”

“Sério? Eles são bandidos, se você está preocupado com morais.” Bakuda virou a cabeça para um lado.

Ele piscou, tentando limpar as lágrimas, olhando para o céu. A arma caiu de suas mãos no asfalto.

“Isso parece um não. Uma pena. Não serve pra mim como soldado.” Bakuda o chutou na barriga, derrubando-o com força no chão.

“Não! Não não não!” O menino olhou para ela, “Por favor!”

Bakuda deu uns passos meio saltitados para longe. As pessoas em volta tomaram isso como uma deixa para se afastarem também.

Ela não fez nada, não disse nada, não deu nenhum sinal. Houve um som, como o vibrar de um celular numa mesa, e Park Jihoo se liquefez numa bagunça fluida em menos de um segundo.

Morto. Ele estava morto, simples assim.

Era difícil ouvir através dos gritos, do choro, das vozes exaltadas. Quando a multidão tentou fugir de cena, todos se escondendo atrás uns dos outros, um dos bandidos atirou para cima. Todos pararam. Depois de alguns gritos de surpresa, houve a menor das pausas, longa o suficiente para um som levar todos ao silêncio.

Parecia o barulho que era feito por um ancinho colhendo folhas secas, mas mais alto, artificial como o som de uma secretária eletrônica. Todos os olhares se voltaram para Bakuda. Ela estava se segurando, dobrada ao meio.

Risadas. O som eram suas risadas.

Ela deu um tapa na perna ao levantar, fez um barulho que pode ter sido uma respiração funda ou algo assim, que sua máscara tornou irreconhecível – um mero sibilar quase sem variação. Ela virou num semi-círculo ao exclamar, “A seis-dezoito! Eu tinha até esquecido que tinha feito ela. Perfeita! Melhor do que eu pensava!”

Se a intenção dela era causar terror, tinha dado certo. Comigo, pelo menos. Eu queria vomitar, mas eu teria que tirar minha máscara para isso, e estava com medo de que se eu me mexesse, seria baleada. O medo das armas foi o suficiente para a náusea não virar algo mais, mas o resultado era de que eu estava chacoalhando. Não apenas tremendo, meu corpo estava se mexendo tanto que eu tinha que me esforçar para ficar de pé.

“Isso foi tão foda.”

Com essas palavras, Regent conseguiu tantos olhares espantados quanto Bakuda havia conseguido com sua risada. Incluindo de mim. Não era só o que ele tinha dito. Era como ele estava calmo.

“Eu sei, né?” Bakuda se virou para ele, virando a cabeça para um lado, “Eu a modelei baseada no trabalho de vibrações do Tesla. Ele tinha essa teoria de que, com a frequência certa, dava até pra estilhaçar a Terra intei-”

“Sem ofensa,” Regent disse, “Bem, vou me corrigir: não me importo se eu te ofender. Mas não atire em mim. Eu só quero fazer uma pausa pra dizer que eu não ligo pra esse papinho de ciência e tecnologia explicando como você fez acontecer. Isso é um porre. Eu só quero dizer que é meio que foda ver como uma pessoa fica quando se dissolve desse jeito. Nojento, estranho, bizarro, mas é legal.”

“Sim,” Bakuda exultou com a atenção, “Como a resposta para uma pergunta que você nem sabia que estava perguntando!”

“Como você fez isso? Colocou bombas em todas essas pessoas pra elas trabalharem pra você?”

“Todas elas,” Bakuda respondeu, quase delirando com o sucesso de sua ‘experiência’ e a atenção de Regent. Ela meio saltitou, meio girou pela multidão e se inclinou para um de seus capangas, tocando a bochecha dele, “Até os meus servos leais. Foi chato pra caralho. Não o procedimento em si, colocar as coisas nas cabeças deles. Depois das primeiras vinte vezes, eu podia fazer a cirurgia de olhos fechados. Literalmente. Eu realmente fiz algumas assim.”

Ela fez biquinho, “Mas ter que tranquilizar os primeiros dez ou doze e fazer a cirurgia sem que eles acordassem, para ter a mão-de-obra necessária pra fazer os outros? Um após o outro? Bem entediante depois que a novidade passa.”

“Eu sou preguiçoso demais pra fazer isso, mesmo se eu tivesse seus poderes,” Regent falou, “Posso chegar mais perto do corpo? Dar uma olhada melhor?”

O humor dela mudou num instante, e ela apontou com raiva um dedo na direção dele. “Não. Não pense que eu não sei que você está tentando algo. Eu sou um super gênio foda, sacou? Eu penso doze passos à frente antes de você sequer decidir no primeiro. É por isso que vocês estão aí e eu…” ela se puxou para cima para se sentar na lateral do jipe, “Estou aqui.”

“Tá, foda-se,” Regent respondeu, “Foi só uma pergunta.”

Eu podia ver pela expressão dela que a Tattletale estava pensando o mesmo que eu. Mostre mais respeito à louca das bombas. Eu falei baixinho o que Tattletale não podia.

“Abaixa a bola aí, Regent,” sussurrei.

“Graaaaande booooosta,” Bakuda esticou as palavras, “O magricela acabou de perder qualquer boa-vontade que tinha por apreciar minha arte. Ou pelo menos ter sido convincente.” Ela cutucou o cara com a câmera no ombro, “Ainda tá filmando?”

O homem acenou com a cabeça. Ao olhar para ele, vi gotas de suor correndo por seu rosto, embora fosse uma noite fresca. Parece que os capangas dela também estavam bem assustados.

“Ótimo,” Bakuda esfregou suas mãos enluvadas de rosa, “Vamos cortar as partes conversativas depois, e botar na internet e mandar cópias pras emissoras de jornais. O que você acha?”

O camera-man respondeu com sotaque, “Bom plano, Bakuda.”

Ela juntou as mãos numa palma. Então apontou para a multidão, “Certo! Então, você… é, você, a garota de blusa amarela e calça jeans. Se eu mandasse, você pegaria a arma e atiraria em alguém?”

Levei um segundo pra achar a garota, do outro lado da multidão. Ela olhou para Bakuda com uma expressão aterrorizada e conseguiu responder, “A arma d-derreteu também, senhora.”

“Me chame de Bakuda. Você sabe. Nada chique. Se a arma ainda estivesse ali, você atiraria? Ou se eu mandasse alguém te dar uma arma?”

“A-acho que talvez sim,” os olhos dela se voltaram para a poça que havia sido Park Jihoo.

“O que conclui minha demonstração,” Bakuda se dirigiu ao nosso grupo, “Terror! É porque o Lung foi atrás de mim para me recrutar. Eu sempre soube, bem lá no fundo, que o medo era uma ferramenta poderosa. Ele tinha uma frase tão boa. ‘O medo verdadeiro é uma mistura do inegável com o imprevisível.’ Meu povo sabe que se eles me enfurecerem, eu só preciso pensar pra fazer as bombas em suas cabeças dar um estouro. Boom. Eles sabem que se eu morrer, cada bomba que eu fiz explode. Não só as que eu enfiei em suas cabeças. Toda porra de bomba. E eu fiz um monte delas. Esse é o inegável.”

Lisa pegou minha mão, apertando com força.

“Já o imprevisível?” Bakuda balançou as pernas no ar, como uma criancinha sentada numa cadeira grande, “Eu gosto de misturar meu arsenal, então você nunca sabe o que tem na sua cabeça. Mas eu tenho que deixar eles imaginando, né? Pisando em ovos, na pontinha do pé? Falando nisso: Shazam!”

A palavra coincidiu com o começo de uma explosão muito real que foi seguida imediatamente por algo parecendo um trovão, mas Lisa já estava puxando meu braço, me puxando para longe.

Vi o caos de relance, pessoas gritando e correndo do local da explosão que havia ocorrido bem no meio do grupo da própria Bakuda. O grupo de pessoas fugindo estava obstruindo a visão das pessoas com armas.

Regent esticou o braço, o mexendo para o lado e fazendo umas dez pessoas tropeçarem umas nas outras, transformando a multidão numa bagunça desordenada. Ouvi o barulho alto demais de balas sendo atiradas, vi Regent agarrando o ombro de seu braço esquerdo amolecido, e não tive certeza se as duas coisas estavam conectadas.

Finalmente, lá estava Bakuda, ainda sentada na lateral do jipe. Ela estava ou gritando ou rindo. Ela estava nos deixando sair de seu controle, seus subordinados estavam quase se matando num pânico insensato, e ela tinha acabado de matar pelo menos mais um deles só porque sim. De acordo com o que eu havia acabado de descobrir sobre ela, achei que ela provavelmente estava rindo disso tudo.

Quase sem eu perceber, a noite havia chegado, como se nos convidasse a entrar ainda mais no labirinto, os postes piscando e se ligando acima de nós. Com Grue cobrindo nossa fuga com uma cortina de escuridão, nós corremos.

Casca 4.7

Grue levantou as mãos e acobertou toda a área com escuridão. Não ajudaria muito. Mesmo se eles hesitassem ou se confundissem no escuro, a massa de corpos eventualmente nos encontraria, e seríamos derrubados e espancados pela simples força numérica. A única vantagem era que se eles tivessem armas de fogo, provavelmente não atirariam, por medo de atingir seus próprios aliados.

Senti mãos agarrarem minha cintura, e brandi meu cacetete. As mãos sumiram, e o cacetete atingiu só ar. Um momento depois, senti as mãos me segurarem de novo, mais gentilmente. Não era um inimigo. Grue, percebi.

“Desculpe,” murmurei. Ele podia ouvir dentro da escuridão, não podia?

Ele me ergueu no ar, e imediatamente entendi seu plano. Levantei os braços e senti tijolos, e então encontrei o metal ondulado do telhado. Me puxei para cima e me virei para puxar a próxima pessoa, com uma mão agarrando a borda do telhado para me manter no lugar.

Encontrei as mãos de Regent e Tattletale no escuro e os ajudei a subir. Eu sabia que nenhum deles era o Grue, porque eram leves demais. Cinco ou seis segundos tensos e compridos se passaram até que Grue pegou minha mão e se puxou para cima.

Descemos pelo outro lado, e Grue desvaneceu a escuridão em volta de nós.

Haviam três membros da ADM na boca da viela na qual havíamos acabado de entrar, e um quarto, sozinho, na outra ponta. Ambos os grupos estavam olhando para o lado errado, e nós bem quietinhos, o que indicava que eles não tinham nos notado.

O número de soldados que tínhamos visto antes não podia estar certo, e eu disse em voz alta, “Que porra é essa? Quantas pessoas tinha ali?”

Grue aparentemente estava pensando a mesma coisa. “A ADM não deveria ter tantos membros.”

“Agora eles têm,” Tattletale deu uma olhada por cima do ombro para os membros da ADM atrás de nós, e depois para o solitário à nossa frente que ainda não havia reagido à nossa presença, “É uma cilada! Chão!”

Ela praticamente me jogou no chão, e se abaixou também.

A pessoa em nossa frente brilhou, e então desapareceu. Em seu lugar, por uma fração de segundo, estava um objeto cilíndrico do tamanho de uma caixa de correio. Sabendo o tipo de especialização de Bakuda, juntei minhas pernas bem próximas ao corpo, fechei os olhos com força e cobri minhas orelhas.

A força da explosão me atingiu com tanta intensidade que eu senti meus ossos reverberando. Fui levantada do chão. Por um momento, me senti como se estivesse flutuando, sendo carregada por um vento quente e poderoso. Caí no chão com os joelhos e cotovelos, que vibraram com a agonia do impacto.

Caos. Os quatro ou cinco galpões que haviam estado mais perto do cilindro estavam reduzidos a pedaços de tijolo em chamas, nenhum deles maior do que uma bola de praia. Outros armários próximos tiveram suas portas, paredes e telhados jogados para longe. Parece que não era só o nosso galpão que tinha coisas dentro de si, porque a explosão havia esvaziado muitos. Pedaços de mobília, caixas de livros, roupas, pacotes de jornais e caixas de papéis estavam espalhados pelo beco.

“Todo mundo ok?” Grue perguntou, enquanto tentava se levantar.

“Ai. Estou queimada. Merda! Ela estava nos esperando,” Tattletale gemeu. O quão graves que fossem suas queimaduras, não eram ruins o suficiente para serem visíveis pela fumaça e poeira. “Fez armadilhas, deixou as pessoas esperando. Bosta, a gente só estava meia hora atrasado. Como?”

“Temos que sair daqui,” Grue nos apressou, “Isso vai ficar muito pior se ela nos encontrar. Tattletale, procure-”

“Já achei vocês,” Bakuda avisou no que poderia ser uma voz cantarolante, se sua máscara não a transformasse num ruído monótono e sem ritmo. Ela emergiu da fumaça que saía do local de detonação; seu capuz estava para trás e seus cabelos pretos e lisos flutuavam ao vento. As lentes de seus óculos de proteção vermelho-escuros eram quase da mesma cor que o céu acima dela. Havia uns cinco ou seis delinquentes bem atrás dela, um homem de meia-idade que não parecia um membro de gangue, e um menino magricela que provavelmente era mais novo que eu. Eu estava feliz em ver que nenhum deles tinha armas de fogo, mas todos estavam armados com alguma coisa.

“Não que vocês sejam difíceis de achar,” Bakuda continuou, abrindo os braços para apontar a devastação à sua volta. “E se você acha que isso só fica pior s-”

Grue tacou uma nuvem nela, efetivamente calando a sua boca, e a escuridão inchou ao tocá-la, envolvendo todo o grupo. Tomamos vantagem de sua cegueira momentânea para correr até a outra ponta da viela.

Estávamos só na metade do caminho quando um som veio por trás, como o estalo de um chicote. Isso me pareceu profundamente impossível, já que não devíamos ser capazes de ouvir nada através da escuridão de Grue. De repente, era como se estivéssemos correndo contra um vento muito forte.

Só que não era vento. Ao procurar a fonte do ruído, vi a nuvem de escuridão de Grue encolhendo. Destroços começaram a escorregar para o epicentro da escuridão, e o vento – o repuxo – começou a aumentar de intensidade.

“Segurem algo!” Grue berrou.

Mudar de posição e me jogar para um lado era como me forçar a saltar sobre um abismo de cinquenta metros. Eu não sei se eu calculei errado, ou se o efeito que estava me puxando ficou mais forte quando eu pulei, mas minha mão deixou de alcançar a maçaneta por um triz. Não consegui agarrar o galpão seguinte também.

Eu soube num instante que mesmo se eu conseguisse botar a mão em alguma coisa, a força do puxão me arrancaria dela antes de eu conseguir me segurar bem. Peguei minha faca de onde estava embainhada às minhas costas e a enterrei com toda a força que consegui na primeira porta que vi. Ela se encravou na madeira, me impedindo de ser arrastada para trás, ou de cair para o lado. Entretanto os 55 kg do corpo que se agarrava nela foram demais, e quase imediatamente a faca começou a sair do buraco.

Pelo menos serviu para me desacelerar. Enquanto a força do puxão aumentava ao ponto de meu corpo ficar paralelo ao chão, eu esperava com o coração na boca, observando a área onde a faca estava na porta, vendo ela escorregar milímetro por milímetro. Assim que ela saiu da porta, agarrei a maçaneta que estava próxima aos meus pés. Meu braço se estirou dolorosamente, mas consegui me segurar e enfiar a faca na divisa entre a porta e a moldura. Mesmo com dois pontos de apoio, eu não me sentia segura.

De uma vez só, o efeito parou. Meu corpo foi jogado no chão à base do galpão, e forcei meus dedos dormentes a soltar o cabo da faca e a maçaneta. Por toda a rua, nuvens enormes de poeira rolavam até o ponto onde o dispositivo havia sido detonado. As partes dos galpões que estiveram pegando fogo haviam sido apagadas, mas ainda estavam quentes o suficiente para mandar colunas de fumaça escura para o céu.

Regent havia encontrado um ponto de apoio na borda do telhado de um galpão, que ou já estava torto antes de ele segurá-lo, ou a força do puxão havia entortado o metal enquanto ele se agarrava nele. Tattletale e Grue aparentemente haviam conseguido abrir a porta de um galpão, porque saíram de dentro dele juntos, Grue mancando um pouco.

“Mas que porra foi essa?” ofeguei, “Um buraco negro em miniatura?”

Tattletale deu uma risada sem graça, “Acho que sim. Aquilo foi-”

Do outro lado dos galpões, um cilindro voou pelo ar, bateu no telhado de metal de um galpão e aterrissou bem no meio do nosso grupo.

Grue focou nele imediatamente, usando seu pé chutá-lo para dentro do armário do qual ele e Tattletale haviam acabado de sair. Sem parar, ele abriu bem os braços e nos enxotou para longe enquanto corria.

Mesmo com tijolo e concreto no caminho, a explosão tirou nossos pés do chão. Aquilo não foi a pior parte. Depois que o impacto inicial acabou, o restante da explosão pareceu acontecer em câmera lenta. Pedaços espalhados do armário de tijolos flutuavam pelo ar tão devagar que quase não dava pra perceber que estavam se movendo. Enquanto eu olhava, pude vê-los parando.

Então olhei para a frente e vi filetes de fumaça em alta velocidade e destroços sendo jogados no chão duas vezes mais rápido do que o normal, meros três metros à nossa frente. Demorou um precioso segundo até eu descobrir por quê.

Ainda estávamos na área de impacto.

“Rápido!” gritei, ao mesmo tempo em que Tattletale berrou, “Corram!”

Nos jogamos para a frente, mas eu podia ver as coisas ainda aumentando de velocidade bem na nossa frente. O que significava, é claro, que nós é que estávamos parando no tempo. Logo ficaríamos estáticos.

De alguma forma, eu não achei que esse efeito passaria em alguns minutos como o de Clockblocker.

Quebramos a barreira do efeito com o que pareceu uma mudança abrupta na pressão atmosférica. Eu não tive chance de checar o quão próximos havíamos estado de ficarmos presos para sempre no tempo, porque Bakuda estava atrás da fileira de galpões, lançando mais uma leva – três projéteis que voavam alto no ar, soltando linhas de fumaça roxa.

Grue jogou escuridão neles, provavelmente com a intenção de abafar os efeitos, e exclamou, “Pra lá do galpão!”

Regent e eu subimos nos galpões primeiro, do mesmo jeito que tínhamos feito quando a multidão estava atrás de nós. Assim que Regent desceu pelo outro lado para nos dar espaço, Tattletale e eu ajudamos Grue a subir, e descemos juntos.

Novamente, de cada lado da ruela, havia membros da ADM. Eles não estavam se movendo, o que significava que ou eles não nos tinham notado, ou que eram só imagens holográficas para esconder armadilhas. Eu apostaria na segunda opção.

“De novo,” ofeguei, “Vamos lá.” Não podíamos arriscar outra cilada, outra bomba explodindo tão perto de nós. Então atravessamos a ruela de novo e escalamos a próxima fileira de galpões.

De repente estávamos de frente com uma dúzia de membros armados da ADM. Só que não eram os típicos membros de gangue. Um deles era um chinês idoso, segurando um rifle de caça. Havia uma garota que não podia ter mais de doze anos, segurando uma faca, deve ter sido a neta dele. Dos onze ou doze deles, apenas três tinham o ar de bandido que marcava eles como membros da gangue. O resto parecia estar aterrorizado.

O homem idoso apontou sua arma para nós, hesitante.

Um bandido com uma tatuagem no pescoço cuspiu instruções numa língua oriental que eu não consegui reconhecer, com a frase terminando em inglês, “Atire!”

Descemos pelo outro lado dos armários antes que ele pudesse se decidir. Grue criou uma nuvem de escuridão sobre o topo dos armários, para desencorajar uma perseguição.

“Mas o quê?” Regent exclamou. Não tínhamos parado de correr desde que Bakuda havia se revelado a nós.

“Eles estão com medo, não são leais,” Tattletale falou, não tão sem fôlego quanto Regent, mas definitivamente sentindo o efeito dos minutos de corrida e escalada, “Ela está forçando eles a serem soldados. Ameaçando a eles ou suas famílias, provavelmente.”

“Então ela tem planejado isso por um bom tempo,” Grue disse.

“Desde que o Lung foi preso,” Tattletale confirmou, “Para onde a gente vai?”

“De volta para a mesma parede,” Grue decidiu. “Vou cegá-los, a gente atravessa num lugar diferente caso eles queiram atirar onde nos viram antes.”

Antes de podermos colocar o plano em ação, houve outra explosão. Tropeçamos para a parede frontal do galpão de onde tínhamos acabado de descer, caindo num montinho. Todo o meu corpo estava quente, minhas orelhas estavam tinindo, e nem estávamos perto da bomba.

Ao levantar a cabeça, vi que um dos galpões do outro lado havia sido totalmente obliterado. Pelo rombo, vi Bakuda em pé na parte traseira de um jipe, com uma mão segurando uma das barras de segurança que saíam do topo do veículo. Ela estava dizendo algo para os bandidos nos assentos da frente, mas eu não consegui ouvir por causa do ruído intenso em meus ouvidos. Eles seguiram à direita, e por uma fração de segundo, ela olhou para mim.

Chamei meus insetos e os mandei em sua direção, mas ela estava se movendo rápido demais. Isso me deixava a opção de espalhá-los para que ficassem na frente dela, na esperança de que ela desse de cara com eles, e talvez alguns deles sobrevivessem ao impacto contra o vidro para me dar um senso de onde ela estava.

“Ela vai virar,” eu disse, agarrando o pulso de Tattletale, “Não podemos subir pela parede.”

“Temos que continuar correndo,” Regent ofegou. Eu estava com dificuldade em ouvi-lo.

“Não,” Grue o segurou, “Isso é o que ela quer. Ela está encurralando a gente para a próxima armadilha.”

“Para onde vamos, então?” Regent perguntou, impaciente, “Vamos lutar contra ela? Pegar ela de surpresa? Se eu conseguir vê-la, posso estragar a mira dela.”

“Não. As bombas são poderosas o bastante para nos matar mesmo que ela erre a mira,” Grue balançou a cabeça, “Não temos muitas opções. Se atravessarmos novamente a parede, não vamos ter que lidar só com os bandidos e o velhinho. Vamos ter que descer pela viela, e vai ter uma bomba lá. Então temos que voltar. Não temos escolha.”

Eu queria que houvesse outra opção. Voltar significava entrar de novo no meio do barracão, significava prolongar nossa fuga, e possivelmente dar de cara com as tropas da ADM.

Fomos em direção ao buraco que a última explosão de Bakuda havia criado nos galpões, e Grue encheu a viela que estávamos abandonando com escuridão, para ajudar a cobrir nossa fuga. A pequena rua estava vazia, exceto pelas silhuetas imóveis em cada ponta.

Ao começarmos a escalar a próxima fileira de galpões, sentimos uma série de explosões detonando na área atrás de nós. Bakuda estava bombardeando a nuvem de escuridão com uma série de explosivos. Acho que não se precisa de visão quando se tem poder o suficiente.

Descemos dos galpões e nos encontramos no mesmo lugar que havíamos achado quando fugimos da multidão. Ainda haviam três silhuetas paradas numa ponta da viela, sem dúvida uma bomba disfarçada, e a destruição causada pelas explosões e pelo ‘buraco negro em lata’ da outra ponta. Se escalássemos o galpão, correríamos o risco de nos jogar de cabeça na multidão da qual havíamos escapado. Teríamos a vantagem da surpresa, mas eles ainda estavam em maior número e tinham mais armas.

Por um acordo não-falado, fomos até a ponta da ruela onde a bomba-holograma havia detonado, onde nuvens de poeira ainda estavam se assentando.

Fomos recebidos pelo som de armas sendo carregadas.

Meu coração parou. Uns vinte membros da ADM apontavam armas de vários tipos em nós. Ajoelhados, sentados ou agachados na frente dos dois grupos, para que não ficassem no caminho das armas e fora de vista, havia umas trinta pessoas que Bakuda havia “recrutado”. Tinha um executivo e uma mulher que poderia ser sua esposa, uma garota usando o uniforme escolar da Immaculata, uma escola particular cristã da parte sul da cidade, mais ou menos da minha idade. Haviam dois homens mais velhos, três mulheres de meia-idade com cabelos grisalhos, e um grupo de rapazes e moças que pareciam ser estudantes universitários se agrupando perto um do outro. Pessoas normais.

Eles não eram membros da gangue, mas eu podia vê-los como soldados dela. Cada um segurava um tipo de arma. Haviam facas de cozinha, tacos de baseball, canos, pás, alicates, correntes, pés-de-cabra e um cara até tinha uma espada que, por incrível que pareça, era estilo ocidental. Eles tinham um olhar de resignação amarga em suas faces, e olheiras que mostravam exaustão ao olhar para nós.

Atrás desse grupo, de pé no jipe, com um pé em seu lançador de bomba modificado e um lança-granadas pendurado de uma tira em seus ombros, estava Bakuda. Em toda a sua volta haviam caixas de suas granadas especializadas e lançadores, atados na parte traseira do jipe, piscando com LEDs de várias cores.

Ela pôs as mãos em seu lançador de granadas e virou a cabeça para o lado. Sua voz robótica atravessou o ar parado.

“Cheque-mate.”

Casca 4.6

Não éramos os únicos a estar discutindo estratégia. Ao virar minha atenção para eles, vi
que Über e Leet estavam cochichando um para o outro.

Quando perceberam que eu estava olhando para eles, pararam de conversar. Über limpou
o sangue embaixo do nariz com a mão de novo e deu um passo à frente. “Chega de
falação.”

Eu gostaria que mais insetos estivessem na área. O depósito tinha uma seleção bem
decepcionante. Insetos tinham que se alimentar com alguma coisa, e não tinha muita
coisa aqui fora asfalto, concreto e tijolos. Isso me dava apenas algumas baratas e
mariposas que haviam sobrevivido do que tinha nos galpões que conseguiam acessar, e
aranhas que se escondiam nos cantos escuros. Eu não estava feliz por ter que enfrentar
dois supervilões com tão pouco material, por mais toscos que eles fossem.

Não tive chance de ficar pensando muito no assunto, porque Über nos atacou. Me
apressei em sair do caminho. Os poderes do Über davam talentos a ele. Não importava se
fosse tocar sanfona, fazer parkour ou lutar Muay Thai, ele se virava como se tivesse
treinado aquilo algumas horas por dia por décadas. Se ele realmente quisesse, pelo que eu
entendia, ele poderia ser realmente incrível.

Resumindo, nunca que eu ia deixar ele se aproximar de mim.

Grue tinha uma perspectiva bem diferente. Ele deu um passo adiante e sumiu de vista com
a escuridão que emanava dele. Um segundo depois, Über tropeçou para fora do outro lado
da nuvem, caiu de bunda no chão, e deu um chute giratório com uma manobra cheia de
floreios para ficar em pé de novo. A combinação de técnica e falta de jeito era
simplesmente bizarra.

Meus bichinhos estavam se juntando ali perto, agora, mas apenas uma parcela muito
pequena deles era útil. Em algum lugar na periferia da minha consciência, fiz uma conexão
com um ninho de vespas pendurado num galpão perto da ferrovia. Elas eram mais úteis,
mas tirar todas elas do ninho e trazer até onde eu estava demoraria um tempinho. Juntei o
resto dos meus insetos num pequeno enxame ali perto, deixando o grupo crescer até eu
poder usá-lo. Tanto o Kid Win quanto o Lung haviam destruído meu enxame quando eu os
ataquei, e eu não podia arriscar ficar impotente se o Leet conseguisse fazer o mesmo.

Leet entrou na cena enquanto Über dava voltas em torno de nós, pegando atrás de suas
costas o que parecia uma bomba retrô: preta, redonda e com um pavio aceso em cima.
Mas o jeito que a luz batia nela mostrava algo de errado. Como se fosse um desenho de
uma bomba ao invés de uma bomba de verdade.

Regent fez um gesto com a mão, e a bomba caiu da mão do Leet, rolando alguns metros.
A boca de Leet se abriu num ‘o’, e ele saiu correndo. Über não estava muito atrás.

Ao sair correndo como o resto de nós, Regent deu uma meia volta e fez um movimento
brusco com o braço. Über tropeçou e caiu a uns três metros da bomba prestes a detonar.

A área da explosão foi pequena, para nosso alívio. A onda de choque que sucedeu a
detonação nem me fez perder o equilíbrio. Über, no entanto, foi jogado para o ar.

Leet observou seu amigo rolar com o impacto, tentar se levantar e cair de novo. Ele se
virou para nós com o rosto contorcido de raiva.

“Eu vivo imaginando quando vocês vão desistir,” Tattletale sorriu, “Tipo, vocês perdem
muito mais do que ganham, vocês ganham mais dinheiro com o vlog do que com os crimes
de verdade, e já foram presos não menos do que três vezes. Vocês tão ligados que da
próxima vez é a Gaiola, né?”

“Nossa missão vale a pena,” Leet ergueu o queixo – ou o que ele chamava de queixo – em
superioridade.

“Claro,” Tattletale disse, “Pregando a palavra sobre a nobre e subestimada arte do
videogame. Estou recitando do seu site, palavra por palavra. As pessoas não assistem seu
programa porque acham que vocês estão certos. Elas assistem porque vocês são tão
ridículos que chega a ser hilário.”

Leet deu um passo à frente, punhos cerrados, mas Über disse, “Ela está te provocando.”

“Óbvio que estou. E eu posso fazer isso porque não tenho medo de vocês. Não tenho
nenhum poder que seja útil numa luta, e vocês não me intimidam nem um pouquinho. Um
cara que é bom em tudo e ainda consegue se foder o tempo todo, e um Engenheiro que só
sabe fazer coisas que quebram comicamente.”

“Eu posso fazer qualquer coisa,” Leet se gabou.

“Só uma vez. Você pode fazer qualquer coisa uma vez. Mas quanto mais próxima a sua
invenção é de algo que você já fez antes, mais provável é que essa coisa exploda na sua
cara ou saia muito errado. Bem impressionante.”

“Eu poderia fazer uma demonstração,” Leet ameaçou, apontando para trás.

“Me poupe disso. Ouvi falar que cinzas de geek carbonizado são muito difíceis de lavar do
uniforme.”

“Você fala geek como se fosse um insulto,” Über disse, em seu tom caracteristicamente
dramático, “É uma honra.”

“Entre geeks, talvez,” Regent respondeu, “Mas tem palhaços por aí que consideram ser um
palhaço uma coisa muito nobre, enquanto o resto de nós dá risada deles. Tá me
entendendo?”

“Já chega,” Leet grunhiu, “Está claro que vocês estão tentando encher o saco-”

“Eu acabei de falar isso. Não é só claro. É um fato,” Lisa apontou.

“Não vamos cair nessa!” Leet ergueu a voz, “Acho que é hora da nossa grande revelação,
nossa convidada-”

Ele foi cortado quando Grue atirou uma nuvem de escuridão na cara dele. Leet se afastou
da nuvem, balbulciando.

“Eles estão rindo da sua cara, Leet,” Tattletale alfinetou, “Você está tentando ser todo
dramático, todo intenso pros seus espectadores, e eles estão sentados na frente do
computador, rindo do seu papel de trouxa. Até o Über dá risada de você pelas suas
costas.”

“Cala a boca!” Leet cuspiu as palavras, dando uma olhadela para seu colega por cima do
ombro, “Eu confio no Über.”

“Por que você perde tempo com esse cara, Über?” Regent perguntou, “Tipo, você é meio
tosco, mas podia conseguir alguma coisa se ele não estragasse metade dos seus planos.”

“Ele é meu amigo,” Über respondeu, como se fosse a coisa mais simples do mundo.

“Então você não nega que ele te atrapalha.” Lisa notou.

“Calem-se!” Leet rugiu. Só que ele não tinha uma voz muito grave, então provavelmente
soou mais parecido com um ganido. Ele pegou outra bomba e a jogou em nossa direção
antes que o Regent pudesse fazê-lo tropeçar. Caímos fora, com Regent, Tattletale e eu
saindo correndo enquanto Grue envolvia a si mesmo e ao Über em escuridão.

Enquanto eu procurava abrigo, direcionei meus insetos para atacar Leet. Ele havia feito
algo diferente dessa vez, porque a bomba não demorou nem metade do tempo que a
primeira bomba tinha levado para detonar. Isso me pegou de surpresa, e não tive tempo
de me jogar no chão. A explosão me acertou em cheio nas costas.

O ar e o fogo que me cobriram não estavam quentes. Aquilo foi o que mais me
surpreendeu. Não que não tivesse doído, mas foi mais como se eu tivesse levado um soco
de uma mão gigante do que o que eu havia imaginado que uma explosão seria. Me lembrei
dos jatos de fogo de Lung, Kid Win estraçalhando a parede com seu canhão. Isso
parecia… falso.

“São bombas de mentira?” perguntei em voz alta, ao me levantar do chão. Eu estava
dolorida, mas não queimada.

“São hologramas sólidos,” Tattletale disse, “Na verdade isso é bem legal, se você ignorar
que elas são meio que inúteis. Acho que ele não consegue fazer bombas de verdade sem
estragar tudo.”

Leet sibilou, embora fosse difícil dizer se era por causa das palavras de Tattletale or das
mariposas, vespas e baratas que estavam em cima dele. Como eu suspeitara, elas não
estavam sendo muito efetivas. Mesmo entrando em seu nariz e boca, não fizeram ele
parar. Talvez isso fosse uma desvantagem de deixar ele furioso, como Tattletale e Regent
estavam planejando.

Ele agarrou mais duas bombas e Regent foi mais rápido dessa vez, estalando os dedos.
Leet se recuperou antes de derrubar as bombas, e empurrou os braços para trás para
jogá-las. Mas Regent estava preparado, e uma das pernas de Leet escorregou embaixo
dele. Ele caiu no chão, as bombas rolando para mais ou menos um metro dele antes de
explodir.

Ele deu de cara numa porta com tanta força que pensei que ele pudesse ter morrido.
Antes de eu me aproximar para checar seu pulso, no entanto, ele começou a tentar se
levantar.

“Sorte sua ter feito bombas não-letais,” murmurei, “Você é apenas um, contra quatro de
nós.”

Olhando feio para nós, ele pegou do compartimento em suas costas uma espada.

“A espada do Link?” Regent provocou, “Isso não é nem do jogo certo. Você está saindo do
tema.”

“Acho que falo por todos ao dizer que acabamos de perder o pouco respeito que a gente
tinha por vocês,” Tattletale ajudou.

Leet avançou para eles dois. Ele não conseguiu dar nem três passos antes de o Regent
fazer ele tropeçar e cair de quatro. A espada escorregou de sua mão e caiu no chão antes
de piscar e deixar de existir.

Ele estava apenas a alguns metros de mim, focado demais na Tattletale e no Regent para
prestar atenção em mim. Peguei meu cacetete atrás de mim e o estendi por completo.
Quando ele começou a se levantar, tateando nas suas costas pelo que percebi ser uma
mochila fina e dura, bati na mão dele com a parte de metal do cacetete. Ele gritou,
levando a mão ao peito para protegê-las. Bati de novo em sua canela, bem abaixo do
joelho, com mais força do que eu pretendia. Ele se encolheu no chão.

Dando a volta nele, segurando o cacetete pelas duas pontas, empurrei o comprimento de
metal com força contra sua garganta.

Leet começou a sufocar. Ele me pegou de surpresa ao se jogar para trás, jogando nós dois
no chão, ele por cima de mim. Estremeci quando o impacto empurrou o peso dele bem na
área machucada do meu peito onde a Glory Girl havia atirado a Tattletale em mim. Mas
não soltei o cacetete. Fora os 60 kg de bandido em cima de mim, eu estava contente com
a vantagem que estar no chão me dava.

“Tudo bem aí?” Grue me perguntou em sua voz ecoante. Ele deu um passo adiante, ficando
diretamente acima de mim.

“Excelente,” respondi, bufando um pouco com o esforço.

“Não aperte a traquéia dele. Você vai ficar cansada ao ponto de soltar a mão antes de ele
desmaiar. Aqui,” ele se abaixou e forçou a cabeça do Leet para o lado, movendo o
cacetete para que este apertasse o lado do pescoço de Leet, “Agora você está apertando
a artéria, obstruindo o fluxo de sangue para o cérebro. Bem mais eficiente. Se você
pudesse aplicar pressão nas duas artérias, só levaria trinta segundos.”

“Obrigada,” bufei, “Pela lição.”

“Boa garota. O Über já era, mas eu vou ajudar os outros a deixar ele bem preso. Estamos
perto de você, grite se precisar de ajuda.”

Não foi rápido, mesmo com a técnica que Grue havia mostrado. Não foi bonito também.
Leet fez um monte de sons desagradáveis, tentando debilmente alcançar sua mochila.
Pressionei fortemente o meu corpo sobre ela, e ele desistiu. Então, ele tentou empurrar a
barra do cacetete para longe, para aliviar a pressão. Quando isso não funcionou, ele
passou a arranhar minha máscara, sem efeito.

O soltei quando ele finalmente amoleceu, desacordado. Saindo de baixo dele, ajustei minha
máscara, peguei minha faca e cortei as alças da mochila. Terminado isto, o revistei. Se
fôssemos interrogá-lo, sem chance de ele simplesmente pegar algum aparelho pra se
libertar ou nos incapacitar. Seu uniforme era bem colado ao corpo, então foi fácil ver que
não havia bolsos ou dispositivos escondidos nele. Só pra ter certeza, cortei a antena de
sua cabeça e retirei seu cinto.

Os outros voltaram com um Über ferido e inconsciente em seus braços, com os braços
amarrados com algemas de plástico atrás dele. Eles o jogaram ao lado de Leet.

“Agora temos que descobrir onde eles puseram a Bitch e o dinheiro,” Tattletale falou. Ela
olhou para mim, “Você não teria sais de cheiro (N.T.: uns sais que fazem a pessoa
recobrar a consciência, vejo bastante na literatura em inglês, nunca ouvi falar de nada
parecido em português)?”

Balancei a cabeça, “Não. Esses caras têm capangas, não é? Devem ter deixado eles
cuidando do dinheiro. Provavelmente vamos encontrar a Bitch no mesmo lugar.”

“Quase, mas sem chance,” um ruído mecânico me respondeu.

Nos viramos para ver uma mulher no mesmo uniforme que Über e Leet estavam usando. A
diferença era que ela usava uma coisa no estilo de uma máscara de gás na parte inferior
do rosto, e as lentes de seus óculos de proteção eram vermelhas, não pretas.

A máscara da mulher parecia transformar tudo o que ela dizia num chiado robótico e
monótono, “Eu realmente esperava que eles tirassem um ou dois de vocês do jogo, ou pelo
menos machucassem alguém. Que decepcionante. Eles nem conseguiram introduzir sua
convidada especial.”

“Bakuda?” Tattletale foi a primeira a nomear a moça, “Puta merda, o jogo em que estavam
se inspirando era… Bomberman?”

Bakuda se levantou e se curvou em um único movimento fluido. Regent levantou as mãos,
mas ela se deixou cair de joelhos, agarrando a borda do telhado com uma mão para não
escorregar.

“Na na ni na não,” ela abanou um dedo para ele, “Eu sou esperta o suficiente pra aprender
com os erros dos outros.”

“Sério que você largou a ADM pra se juntar ao Über e o Leet?” Regent perguntou,
incrédulo.

“Não exatamente,” Bakuda disse. Ela estalou os dedos da mão que não estava segurando
o telhado.

Abaixo dela, a porta para o galpão se abriu. Três homens nas cores da ADM saíram de
dentro de lá, cada um segurando uma arma. Uma pistola, um taco de baseball, um
machado.

Então outras portas se abriram, por todo o corredor de galpões. Trinta ou quarenta
portas, cada uma com pelo menos uma pessoa dentro. Algumas com três ou quatro. Todas
armadas.

“Aqueles dois foram mão-de-obra barata. Eles só queriam uns dois, três mil dólares e eu
tinha que usar esse uniforme. Parece que coisas baratas realmente não têm qualidade.

“Nem preciso dizer que ainda estou com a ADM,” Bakuda falou o óbvio para nós. “Sou a
chefe deles, na verdade. Acho apropriado eu comemorar minha nova posição lidando com
as pessoas que derrubaram meu antecessor, não concordam comigo?”

Ela não esperou por uma resposta. Apontou para nós e gritou, “Acabem com eles!”