Casca 4.10

Gradualmente, descobri que eu podia abrir os olhos, como se fosse algo que eu tivesse esquecido como fazer. Experimentei e me arrependi instantaneamente. Um dos meus olhos não estava vendo nada, mesmo aberto, e o outro estava fora de foco; até quando eu conseguia ver alguma coisa, as imagens não faziam sentido. Fechando os olhos com força, até o brilho vermelho difuso da luz passando através de minhas pálpebras era como fogos de artifício explodindo em minhas retinas.

Quando tentei pensar para ver se entendia o que tinha acontecido, descobri que meus pensamentos estavam extremamente lentos.

“Se vocês bostinhas tivessem alguma noção, saberiam que ficar na vantagem em relação a mim, mesmo que seja só por um instante… é algo que deveria aterrorizar vocês,” uma voz sibilou. Levei alguns segundos para identificar a voz, muito mais do que eu deveria. Bakuda.

Estava começando a doer. Como cortes de papel, mas duzentas vezes maiores, e cada um desses cortes era um músculo meu. Minha pele estava pinicando com ardências que gradualmente pareciam-se mais e mais com queimaduras. Minhas juntas latejavam como se cada uma tivesse sido arrancada de seu lugar e alguém estivesse batendo as pontas em carne viva no asfalto num ritmo sombrio.

Abri meu olho bom novamente e tentei, sem sucesso, focá-lo. Três faixas vermelhas… não. Eu estava vendo triplo. Uma faixa vermelha se estendia pela minha máscara, descendo pela ponta onde ela cobria o nariz, pingando no chão. Quando olhei para o asfalto, vi uma poça ainda crescendo. Percebi que eu estava sangrando. Um monte.

“Me deixar lá deitada com um lançador de granadas na mão e munição espalhada na porra da rua inteira, vocês pediram por isso. Caralho, só aquela merda toda de ficar se abraçando super aliviados, como se tivessem me derrotado mesmo? Pedindo pra levar uma na fuça.”

Eu não iria me render assim. Não sem uma luta. Mas eu nem conseguia me mexer direito, que dirá fazer alguma coisa. Meu desejo de fazer algo era quase tão excruciante quanto a dor que latejava e pulsava por todo o meu corpo. O que eu poderia fazer? Minha mente não estava funcionando tão devagar quanto estivera agora há pouco, mas meus pensamentos ainda estavam lentos e falhos. Coisas que eu deveria saber sem pensar estavam vagas, incertas, desconexas. Ideias demais estavam isoladas, desligadas de outros conceitos. Eu estava com vontade de jogar alguma coisa no chão, ao menos se eu pudesse me mexer sem fazer tudo doer muito. Resolvi cerrar os punhos.

Escola. Problemas na escola? Eu? O Trio? Não. Por que eu estava pensando sobre isso? No que eu estava pensando antes de ficar tão frustrada? Eu queria revidar de alguma forma. Bakuda, escola, revidar. Quase gemi de frustração ao tentar conectar as ideias isoladas, e simplesmente não consegui completar o pensamento. Só consegui bufar um pouco, tremendo com a dor que isso causou.

“Oh? A garotinha inútil com a roupa de inseto acordou,” a voz chiada de Bakuda anunciou para o ar noturno.

Grue disse alguma coisa, a uma pequena distância dali, não ouvi o que era.

Bakuda respondeu sem pensar muito, “Shh, fica de boa aí. Já já chega a sua vez.”

Ouvi alguma coisa, e vi um par de botas cor de rosa aparecer na frente do meu rosto, a imagem nadando e balançando levemente.

“Dia ruim?” ela se inclinou sobre mim, “Que bom. Sabe, uma dos meus capangas trabalha lá no Quartel General do Protetorado. Ela é um guarda onde o Lung está preso, saca? Não teve a oportunidade de libertá-lo, mas ela conseguiu a versão dele dos fatos. Eu sei que era você a esquisitinha que pôs ele no xilindró. Então hoje você vai ser minha convidada de honra. Vai ficar olhando eu mexer com seus amiguinhos. Vou começar com o menino de preto, e depois os seus coleguinhas adormecidos ali do lado. Colei eles no chão só por precaução. Quando seus amigos estiverem de paletó de madeira, vou dar você para o Oni Lee. Ele foi um rapaz muito educado quando ocorreu de mudarem as coisas, e agora fica me enchendo o saco, quer um brinquedo novo. O que você acha disso?”

Eu não estava ouvindo direito. Como se fosse um mantra, eu estava repetindo mentalmente a mesma coisa, de novo e de novo. Bakuda, escola, revidar.

“Bakuda, escola,” balbulciei. Ouvir minha voz soar tão fraca e fina foi mais assustador do que qualquer das outras coisas que haviam passado pela minha consciência nos últimos minutos.

“O que é? A baratinha quer dizer alguma coisa?” Ela se abaixou e agarrou o pedaço de armadura que cobria meu peito. Com um puxão, ela me colocou numa posição meio-sentada. Ser puxada daquele jeito foi uma tortura, mas a dor ajudou a atiçar meus pensamentos e me deu um pouco de clareza.

“Escola. Bakuda falhou,” eu respondi, minha voz minimamente mais forte do que havia sido anteriormente. As lentes vermelho-escuras de seus óculos de proteção encararam as minhas enquanto eu compunha meus pensamentos para falar novamente, tentando soar mais coerente. “Você se acha muito esperta, mas falhando desse jeito? Como que é? Segundo lugar? Nem o segundo?” Consegui fazer um som que se aproximasse de uma risada.

Ela me soltou e se afastou como se eu estivesse pegando fogo. Quando minha cabeça bateu no asfalto, quase desmaiei. Tive que lutar para ficar consciente. Aceite a dor. Te mantém desperta.

A uma pequena distância de mim, a voz de Grue ecoou. Só consegui entender a primeira palavra. “Ela” ou “Cela”. Ele riu. Eu não consegui entendê-lo e eu não sabia por que, e isso me assustou. Eu não estava ouvindo tão bem como de costume, eu sabia disso. Mas não era só isso. O que mais?

A distorção. A explosão ou explosões haviam danificado minha audição, talvez, e eu não conseguia entender as palavras dele com o efeito que ele colocava na voz. Só de descobrir isso já me senti mil vezes melhor.

“Você acha?” Bakuda sibilou para Grue. As palavras dela eram mais fáceis de entender, já que a máscara dela as reconstruía, de forma que elas eram enunciadas perfeitamente num monotom, mesmo com todo o chiado.

Ela me chutou na cara com uma daquelas botas rosa. Ter que mover a cabeça quase doeu mais do que ter os dentes quebrados. Ela me agarrou pelo uniforme e me arrastou por vários metros. Isso fez toda a dor em geral aumentar mais um ponto. Numa escala de um a dez, daria pra marcar um nove e meio. Nada que eu fizesse poderia doer mais do que aquilo, de modo que juntei força física e mental para erguer os braços e segurá-la pelos pulsos, como se fosse grande coisa. Ela me soltou e me deu um empurrão para que eu ficasse de lado. O movimento me deu ânsia de vômito.

Ver Grue ajudou a me manter acordada enquanto eu lutava contra a náusea e dava minúsculas golfadas de ar com a dor. Ele estava amarrado numa posição meio-sentada contra um galpão com o que parecia ser um monte de fita amarela grudenta. Onde estava Tattletale?

“Vamos ver se vocês continuam tão espertinhos depois de eu dar meu presentinho para o sr. moreno alto, bonito e sensual (N.T.: ‘tall, dark and handsome’ é uma expressão em inglês que quer dizer basicamente isso),” Bakuda ameaçou, “Deixa eu ver… ah. Essa é uma pérola. Dois vinte e sete. Agora fique quietinho. Se você sequer pensar em usar seu poder, vou enfiar essa coisa goela abaixo da pirralha pernilonga ali, e detonar. Não é como se você pudesse fazer alguma coisa para me impedir, mesmo que me deixe surda e cega.”

Ela tirou suas luvas cor de rosa e as jogou para longe. Então pegou o que parecia ser uma tesoura bem comprida e fina de dentro de sua manga. Só que as pontas não eram afiadas, era quase um alicate (N.T.: o nome disso é pinça hemostática). As pontas tilintaram ao se fechar segurando o que parecia uma pílula de metal.

“Não vai precisar de cirurgia, já que não vai ficar aí muito tempo. O que eu vou fazer é enfiar isso pela sua narina e deixar na sua cavidade nasal.” Ela pôs a mão na escuridão que estava vazando em toda a volta dele e procurou seu rosto. “Só preciso tirar essa sua máscara… capacete… Pronto.”

Se ela havia conseguido, era difícil dizer. A cabeça de Grue era só uma silhueta redonda de sombras.

Ela pôs uma mão lá dentro de novo e empurrou a cápsula no meio daquilo com a outra. “E aí está… vá devagar, coisinha, vá devagar… não quero ativá-la antes da hora, os efeitos só vão ser legais mesmo se ela estiver lá no fundo. Sabe, a minha dois vinte e sete foi meio que um acidente. Eu estava lendo sobre os poderes da pequena Vista, pensei que talvez eu pudesse fazer uma bomba de distorção espacial. Por pura sorte, quebrei o efeito Manton. Ou pelo menos o que quer que eu tenha usado ao fazer essa bomba ultrapassou o efeito Manton. Vocês sabem o que é isso, idiotas?”

Ela parou e estralou os nós dos dedos, deixando a tesoura estranha enfiada na cara do Grue. “É aquela regrinha que impede os pirocinéticos de ferver o seu sangue, que não deixa a maioria dos poderes afetar os corpos das pessoas. Ou, dependendo de qual teoria você segue, é a regra que diz que ou seu poder só funciona em coisas orgânicas, seres vivos; ou no resto das coisas.

“Então pense nisso. Um efeito de distorção espacial que só funciona em matéria viva. Eu detono essa coisa, e toda a matéria viva dentre um metro da cápsula é distorcida, inflada, encolhida, entortada. Na verdade nem mata. Essa é a segunda coisa mais incrível sobre ela, depois do efeito Manton. Tudo ainda se conecta com o resto. Totalmente não-letal, mas você vai desejar ter morrido pelo resto da sua vidinha miserável.”

Não fique aí deitada só olhando, pensei. Faz alguma coisa!

“Só um clique, e bum, você fica tão feio que dá vergonha até no homem-árvore. Pode ser uma cabeça quatro vezes maior do que o normal, com caroços espalhados feito tumores, cada parte do corpo do tamanho errado, forma errada. O cérebro muda também, mas geralmente só causa um probleminha de leve a moderado, porque eu calibrei para o foco na aparência exterior.” Ela riu. Era aquele som seco, repetitivo, não humano. Quando falou novamente, ela pronunciou cada palavra separadamente: “Irreversível. E. Fodásticamente. Hilário.”

Procurei meus insetos, mas não consegui formar pensamentos complexos o suficientes para dar a eles qualquer comando que preste. Então só os chamei para mim. Eu ainda tinha que ajudar o Grue.

Meu compartimento de utilidades. Devagar, tanto para ser discreta quanto pela minha incapacidade de me mover rapidamente sem sentir uma dor horrível, levei minha mão às costas, me lembrando do que eu tinha lá.

Spray de pimenta – não. Queimaria a pele dela, mas os óculos e a máscara deixariam o rosto dela bem protegido. Ela estava arranhada e sangrando, então talvez eu pudesse passar em seu corpo… os ferimentos dela sofreriam, mas isso salvaria a gente?

Caneta e papel. Celular. Dinheiro trocado. Não, não e não.

Cacetete. Eu não tinha forças para usá-lo, ou o espaço necessário para abri-lo.

Injeções. Não iam servir, e eu não estava confiante na minha coordenação motora o suficiente para tentar isso.

Isso era o que tinha no meu compartimento de utilidades. Deixei minha mão cair e balançar por trás das costas ao me preparar para trazê-la de volta à frente, quando meus dedos encostaram em algo.

A faca embainhada na parte inferior das minhas costas. Eu a havia prendido no ponto mais baixo possível das minhas costas, para que ficasse fácil de alcançar e fosse também protegida pela minha armadura.

A faca servia.

Houve um leve clique quando Bakuda ajustou a tesoura-alicate e a removeu do nariz de Grue. A cápsula não estava mais lá.

“Isso vai ser show,” ela celebrou, se levantando antes de eu pensar em onde cortar ou atingir. Eu não queria matar, mas tinha que detê-la. Pelo Grue.

Minha mão ainda estava atrás das costas, segurando o cabo da faca com a lâmina apontando para a parte de baixo da minha mão. Mudei minha posição um pouco para que meu ângulo fosse melhor.

“Ô, barata tonta. Qual é a sua? Se torcendo feito um peixe fora d’água? Presta atenção, vai ser bem legal quando pedaços do rosto dele começarem a saltar pra fora daquele pedacinho de breu.”

Tentei pensar numa resposta, alguma coisa que fosse alfinetar combinando com o que eu ia fazer, mas uma onda de fraqueza passou sobre mim. Minha visão começou a escurecer, de novo. Estiquei minhas pernas numa tentativa de me causar mais dor, me forçando a ficar alerta, e não consegui fazer a escuridão passar. Será que era o Grue fazendo isso? Olhei para ele. Nada. Eu só estava desmaiando mesmo.

Eu não podia apagar agora.

Anéis nos dedos dos pés.

Sem uma resposta engraçadinha, nem uma piada, nem mesmo um grito de raiva, baixei a faca para as pontas do pé dela. Dois pensamentos me vieram à mente ao mesmo tempo.

Eu havia atingido algo duro. Será que o pé ou a bota dela tinham armadura?

E o pé era sequer o certo? Tattletale nunca tinha dito qual deles tinha os anéis. Ou se eram os dois.

Uma onda de escuridão passou pela minha visão e saiu rapidamente, me deixando meio desacordada, vagamente ouvindo os gritos. A náusea estava voltando, a minha consciência se esvaindo enquanto a vontade de vomitar aumentava. Eu ia vomitar, mas eu poderia me engasgar se eu fizesse isso usando a máscara. Se eu estivesse deitada de costas, eu poderia sufocar.

Grue estava falando alguma coisa. Não consegui entender as palavras. Soava urgente.

A mulher estava berrando no meu ouvido. Uma procissão de ameaças, palavrões, coisas horríveis que ela ia fazer comigo. A inconsciência me chamava, sedutora, segura, indolor, livre de perigos.

Se é que fosse mesmo só inconsciência. A ideia aterrorizante de que eu poderia estar morrendo me atingiu, me dando um breve momento de clareza. Foquei com força na salada de imagens e sons distorcidos, onde eu estava, quem estava falando e gritando comigo.

A mulher estava rolando no chão ao meu lado. Quando ela chutou uma perna, um pouco de sangue manchou a lente da minha máscara do meu olho que enxergava. Qual era mesmo o nome dela? Bakuda. A pontinha da minha faca ainda estava enterrada no asfalto onde o pé dela havia estado. Era aquilo a coisa dura: asfalto, não armadura. Tinha um monte de sangue. O dela. Um pedaço da bota, rosa e vermelho. Dois dedinhos com unhas pintadas, rosa e vermelho, no meio do caos sangrento.

Tentei puxar a faca e falhei, embora ela só estivesse meio centímetro para dentro do chão. O esforço me deixou ofegante, tentando respirar fundo para engolir ar. Cada respiração me fazia sentir como se eu tivesse inalado arame farpado e ferros quentes estivessem pressionados contra minhas costelas. Eu estava rezando para que a ânsia de vômito fosse embora, mesmo sabendo que não iria.

Grue. O que ele estava dizendo? Eu mal podia entender Bakuda com sua pronunciação robótica. Entender Grue era dez vezes mais difícil. Como se fosse outra língua.

‘Megá a chua vaca’? Faca? A faca. Ele precisava dela.

Me deixei cair de frente, com o rosto no chão, para que eu não me engasgasse. A mão que segurava a faca permaneceu onde estava, mas meu braço se dobrou num ângulo ruim, me dando uma pontada de dor. Meu pulso e cotovelo se remexiam bizarramente, tentando voltar a uma posição natural. Resisti à vontade de soltar, continuei segurando o cabo da faca.

O chão cedeu antes de mim, e a faca se soltou. Meu braço se estendeu, se esticando à minha frente, a faca segura em minha mão enluvada de preto. Olhei acima da faca para ver uma imagem embaçada de Grue tentando se soltar da fita dourada, a última coisa que vi antes de a escuridão e a inconsciência me tomarem.

Casca 4.9

“Você foi baleado?” Perguntei ao Regent, enquanto nós quatro corríamos pela viela. Não fui respondida. Então tentei de novo, mais precisa, “Regent! Presta atenção, atiraram em você?”

Ele balançou a cabeça com o menor movimento possível e apertou uma mão contra o ombro machucado, “Não foi isso. Usei demais o meu poder em muito pouco tempo, e ele deu tilt. Cãimbras no braço esquerdo, espasmos. Não posso usá-lo. Não esquenta com isso.”

“Deu tilt?” perguntei.

“Não esquenta com isso!” Sua resposta violenta foi ainda mais surpreendente por ter vindo de alguém que normalmente era tão plácido e despreocupado. Como se para compensar, ele murmurou uma desculpa, “Porra. Desculpa. Isso dói, mas eu me viro. Vocês se preocupem em resolver essa situação.”

“Tattletale,” eu ainda estava segurando a sua mão, então a apertei para chamar a atenção dela, “Agora seria uma hora fantástica pra você mostrar seu talento.”

“Ainda mais depois de ter pisado na bola deixando a gente se meter nessa merda toda,” Grue grunhiu.

“Ok,” Tattletale ofegou tanto pelo fato de estar correndo quanto por estar irritada, soltando minha mão para por os cabelos pra trás das orelhas, “Pra começar: ela está mentindo.”

“Sobre?” perguntei.

“Ela não é a nova líder da ADM.”

“O quê? Quem é?” Grue perguntou.

“Sei tanto quanto você. Ela não se vê como a chefe, por mais que goste de representar este papel. Ela está fingindo.”

O chão estremeceu, e olhamos para trás para ver destroços voando para fora da escuridão que Grue tinha usado para cobrir nosso recuo estratégico.

Foi graças a isso que vimos o foguete saindo de lá. Nos abaixamos, sem necessidade, porque o míssil voou um metro acima de nossas cabeças e continuou em direção ao fim da rua, diretamente para onde estava uma bomba holográfica.

Cobrimos a cabeça quando ambos explodiram, um logo após o outro. A primeira explosão nem mexeu um fio de cabelo, embora estivéssemos a menos de trinta metros de distância. A segunda, no entanto, passou por nós com o frio mais intenso que eu já tinha sentido na vida. Eu pude senti-lo mesmo através do uniforme.

Quando abrimos os olhos, havia um espetáculo à nossa frente. A segunda explosão havia congelado a primeira bomba no meio da detonação, e provavelmente tinha sido o que absorveu o bruto da explosão. Fumaça, destroços e poeira haviam congelado numa torre de gelo, tão alta quanto um prédio de dois andares, feita de pingentes de gelo e geada que irradiavam para cima e para todos os lados. Os postes, espaçados por toda a área de depósito, iluminavam a maior parte da escultura. Ela já estava se destruindo – pedaços mais pesados de concreto estavam quebrando o gelo que os sustentava, caindo e estraçalhando camadas de geada finas como papel.

Aquela mesma geada cobria o chão e todas as paredes que estivessem de frente para a área de explosão, até onde eu podia ver. Estava nos cobrindo também. Pingentes de gelo tão finos e minúsculos que mais pareciam pequenos cílios cobriam as partes do meu uniforme que tinham estado expostas. Havia até uma escultura cheia de curvas, onde a fumaça de Grue tinha se congelado.

“Tá todo mundo bem?” Grue perguntou. Ele estava protegendo Tattletale com seu corpo, fazendo o gelo deslizar para fora deles ao se levantarem. Ele me pegou olhando e explicou, “O uniforme da Tattletale deixa mais pele exposta do que o de qualquer um de nós. Se ela tivesse sido totalmente exposta-”

“Não,” eu respondi, “De boas. Ótima ideia. Mas a gente tem que dar o fora.”

Saímos correndo. Em toda a nossa volta, minúsculos cristais de gelo estavam espiralando para o chão, brilhando na luz.

Tattletale continuou o fluxo de informação sobre Bakuda, “Mentira número dois: ela está blefando sobre o modo como as bombas explodem na cabeça das pessoas. Ela disse que detona as bombas com um pensamento, mas ela não tem nenhum hardware externo na cabeça, e não deixaria alguém fazer cirurgia nela. Controladora demais, orgulhosa demais do próprio cérebro.”

“Então você não sabe como ela está detonando as bombas?” perguntei.

“Eu sei exatamente como. Anéis nos dedos dos pés.”

“Nos dedos dos pés,” Grue disse, a incredulidade óbvia em seu tom, mesmo com a voz distorcida.

“Ela tem um anel no dedão e outro no dedo ao lado. Quando ela cruza um dedo por cima do outro, o contato entre as superfícies dos anéis manda um sinal. Ela escolhe o alvo por meio de um sistema embutido nos óculos de proteção. Não parece que ela está fazendo nada, o que é provavelmente o efeito que ela quer. Aparências.”

“Bom saber,” Grue disse, “Mas isso não nos ajuda agora. Quais são as fraquezas dela?”

Houve o ruído de uma explosão atrás de nós. A área se iluminou brevemente, longe o suficiente de nós para não ser preocupante.

“Distúrbio de personalidade narcisista. Megalomania. Ela passou a vida toda sendo mais inteligente do que o resto das pessoas, mesmo antes de ter poderes. O tempo todo sendo elogiada, mimada. Mas ela quase nunca ouvia críticas, provavelmente nunca deram um chega pra lá nela, e isso foi um grande fator em fazer o ego dela inflar perigosamente. Ela deve ter se formado no ensino médio com anos de antecedência. Aposto que o evento de gatilho dela teve algo a ver com isso. Outra pessoa era melhor que ela, ou alguém falou umas verdades, e ela não soube lidar com isso.”

Eu tinha algo a mencionar, “A primeira coisa que ela fez com seus poderes, a única, antes de vir pra Brockton Bay, foi fazer uma universidade refém. Talvez ela tenha tirado uma nota baixa, reprovado numa matéria ou sido rejeitada para algum cargo que ela queria. Prejudicando tanto a sua imagem de si mesma, que ela… teve um troço.”

“Alguma coisa útil, gente!” Grue exigiu.

“O distúrbio de personalidade,” Tattletale disse, “Até mesmo uma pequena vitória por nossa parte vai gerar uma reação enorme dela. Em se tratando de ego, ela tem um telhado de vidro. É difícil dizer se uma vitória nossa faria ela dar a louca e explodir tudo, ou se ela simplesmente desmoronaria, mas eu garanto que ela não ia lidar bem com isso.”

Grue assentiu, começou a falar, mas tropeçou. Tentei meu melhor para ampará-lo, mas ele provavelmente pesava uma eu e meia. Ele conseguiu se equilibrar, grunhiu e perguntou, “O que temos que fazer para ganhar? Ou para não perder? Quais são as cartas que ela tem na manga?”

“Os óculos. Ela está usando visão térmica. É assim que ela fica achando a gente. Esse gelo na verdade é uma sorte, acho que está nos escondendo. Ela deve ter um motivo. Hã. As armas dela só funcionam com suas impressões digitais, então não podemos pegar o lançador de granadas pra usar contra ela.”

“E o que mais?”

“Isso é tudo o que eu pude deduzir até agora. Se você quer um plano, é melhor pensar rápido. Acho que ela está nos procurando com o jipe.”

“Então vamos nos dividir,” Grue limpou a garganta, “Eu machuquei o tornozelo chutando aquela porta quando o buraco negro apareceu. Depois de correr tanto ele tá pior ainda. Vou ver o que posso fazer, ficando aqui.”

“Mas o quê?” exalei, “Não.”

“Assim vocês ganham tempo. Vão logo. Agora!”

“Nem pensar,” falei, mas ele estava parando, se virando para trás. Tentei parar também, mas Tattletale pegou minha mão e me arrastou atrás dela. “Grue!” Gritei.

Ele não respondeu, se virando para jogar escuridão nas luzes mais perto dele, escurecendo a rua toda. Lentamente, ele andou na direção oposta à que estávamos seguindo, mancando com uma perna.

Com um assobio e um estrondo ressoante, outro foguete colidiu com a torre de gelo. A coisa toda caiu como um enorme castelo de cartas, com o som de cem mil janelas quebrando. Mesmo com toda essa cacofonia, pude ouvir pneus cantando. Vi a forma embaçada do jipe se aproximando, atravessando a nuvem de neve e geada que estava rolando para fora da torre destruída.

Grue não recuou quando o jipe acelerou em sua direção, e nem se virou. Ele gritou o mais alto que pôde, em sua voz alterada, “Vem pra cima!”

“Grue!” gritei, mas ele não reagiu. “Porra!”

Nada de insetos. Ainda muito escassos. Estivéramos constantemente correndo, então meus bichinhos não tinham tido oportunidade de se agrupar, e esse lugar era muito barulhento pra eles de qualquer forma, tanto em qualidade quanto em quantidade. Como eu pude ter sido tão ridiculamente estúpida? Eu deveria estar sempre preparada, e agora eu não podia ajudar um amigo e um colega quando ele mais precisava, porque achei que nunca fosse ficar sem insetos.

Só tinha três pessoas no jipe, com a pessoa em pé na traseira sendo a muito reconhecível Bakuda, segurando seu lançador de granadas. O bandido no banco do carona tinha uma pistola em cada mão, e o motorista estava dirigindo com uma mão só, segurando uma arma na outra.

Grue nem se mexeu quando o motorista pisou no acelerador. Ele estava brincando de pega-pega com um carro?

“Vem pra cima!” Grue gritou novamente.

“Não fica aí só olhando!” Tattletale puxou meu braço, me levando para a esquina, “Temos que ir agora, faça isso valer a pena!”

Era burrice, mas eu resisti, agarrando a borda de um armário para me certificar que eu poderia pelo menos ficar o suficiente para ver o que aconteceria com o Grue. Talvez ele ficasse bem.

Minhas esperanças foram rapidamente despedaçadas. O carro atingiu a silhueta enrolada em escuridão com tamanha velocidade que tive certeza que ele não sairia andando daquilo.

Os pneus cantaram e o jipe fez uma meia volta, parando. Bakuda ajeitou sua posição, em pé no jipe segurando a barra enquanto olhava à sua volta, procurando por nós.

“Anda logo!” Tattletale me apressou num sussurro nervoso, “Vamos embora!”

Percebi antes dela. “O carro está intacto.”

Os puxões repetidos de Tattletale no meu braço pararam, pois ela pausou para verificar o que eu havia dito. Nenhuma janela quebrada, depressões no capô, ou arranhões na lateral.

Uma nuvem de escuridão surgiu das sombras de um lado da ruela e engoliu o jipe com seus três ocupantes.

Dois segundos depois, o jipe saiu rugindo da escuridão, as rodas escorregando no asfalto coberto de gelo. O motorista o dirigiu em nossa direção, enquanto Bakuda carregava seu lançador de granada, com seu foco na nuvem de escuridão da qual ela tinha acabado de sair. O cara no banco do carona… não estava lá.

Bakuda mirou o lançador de granadas na escuridão.

“Bosta, o Grue me deve uma por essa,” Regent murmurou. Ele soltou seu ombro, levantou a mão na direção do jipe e a jogou para um lado. Quando fez isso, soltou um grito selvagem, instintivo de dor.

A mão que o motorista mantinha no volante se moveu assim como a de Regent, balançando loucamente para o lado. O jipe virou, cambaleou, e girou, jogando Bakuda e o conteúdo de uma meia dúzia de caixas com explosivos no meio da rua. O veículo colidiu com um galpão, destroçando uma porta no caminho, e espiralou até parar com um único airbag acionado e um motorista imóvel.

Quase ao mesmo tempo, Regent começou a cair no chão, inconsciente. Eu o segurei para tentar pará-lo e o coloquei devagar no chão, para que ele não batesse a cabeça. Olhei para Tattletale, “Deu tilt?”

“Não, mas quase isso,” Tattletale disse, “Depois de um tilt, ele tem que descansar seus poderes. É como dar um soco com uma mão quebrada. Ele vai ficar dolorido e provavelmente sem poder usar seus poderes por um tempo, mas vai se recuperar.”

“Que bom,” eu disse, olhando para a cena. O carro batido, a rua coberta de gelo cheia de granadas, Bakuda deitada imóvel no meio de tudo. Grue saiu mancando da nuvem de escuridão, a pistola do carona em sua mão.

“Grue!” gritei. Corri até ele e o abracei. Meu alívio foi tão intenso que eu nem fiquei com vergonha.

“Oie,” sua voz ecoou, “Eu tô bem. Foi uma encenação. É difícil saber se sou eu ou um boneco de sombras que parece uma pessoa quando as luzes estão apagadas, né? Enganei ela.”

“Me enganou também. Me assustou pra caralho,” eu respondi, “Seu bosta.”

“Que bom que você se importa,” ele riu um pouco, me dando um tapinha na cabeça como se faz com um cachorro, “Vamos nessa. A gente precisa prender essa maluca, tirar ela daqui pra podermos interrogá-la e saber o que aconteceu com a Bitch e o dinheiro. Talvez aprender alguma coisa sobre o que anda rolando com a ADM.”

Sorri por trás da máscara, “Parece um bom pl-”

Não pude terminar. Tudo ficou branco, e então cada fibra do meu ser vibrou numa agonia cortante que fazia a pior das dores parecer um carinho.

Desde termos encontrado Über e Leet, tinha sido uma correria atrás da outra. Fomos cercados e perseguidos por uma multidão, tivemos armas apontadas na nossa cara, escapamos de um mini buraco negro, quase ficamos congelados no tempo como um inseto em âmbar, inúmeras explosões. Tínhamos escapado cada uma das ameaças por um triz, sabendo o tempo todo que bastaria um tiro bem acertado, e já era, a gente já era.

Tudo o que levou foi um tiro bem acertado.

Casca 4.8

Eu estava descobrindo que enfrentar mais de uma dúzia de armas de fogo, trinta pessoas com armas improvisadas e uma cientista maluca com um fetiche por bombas me fazia apreciar muito, muito mais o que a Bitch oferecia à minha equipe.

“Tudo isso,” Tattletale falou com muito cuidado, “Você estava brincando com a gente. É por isso que você não mandou atirarem na gente logo de cara.”

“Você está corretíssima.” A máscara de Bakuda havia alterado a voz dela para algo que parecia Robbie o Robô com dor de garganta, mas eu tive a impressão de que ela tentava corrigir isso com linguagem corporal. Ela balançou um dedo para Tattletale como se estivesse dando bronca num cachorro. “Mas eu acho que você, especificamente, devia ficar quietinha. Rapazes?”

Ela pôs a mão na cabeça de um membro da ADM que estava na frente do jipe com uma pistola na mão. Ele se encolheu com o toque. “Se a loirinha abrir a boca de novo, atire no grupo todo. Não importa o que os outros falem, mas ela fica calada.”

Seus soldados ajustaram suas miras, e mais de um mirou na direção da Tattletale, especificamente. Olhando para ela, vi seus olhos se estreitarem, seus lábios pressionados firmemente numa linha.

“É,” Bakuda endireitou a coluna, pisou com um pé no topo da porta do jipe e descansou os braços no joelho, inclinada para nós. “Você é a única que eu não entendo. Não sei seus poderes. Mas já que foi você e o magrelo que distraíram meus mercenários inúteis, para minha segurança vou manter você quietinha. Talvez seja alguma coisa subsônica, alterando emoções enquanto fala, talvez seja outra coisa. Eu sei lá. Mas você cala a boca. Tá?”

De soslaio, vi Tattletale acenar minimamente com a cabeça.

“Agora, estou meio que enrascada,” Bakuda sibilou, examinando o dorso da mão. Parecia que ela não estava só compensando a voz mecânica com linguagem corporal; ela gostava de falar. Não que eu estivesse reclamando disso. “Sabe, o Lung me ensinou muita coisa, mas a lição que eu realmente levei a sério é a de que ser um líder tem tudo a ver com medo. Nessa nossa carreira, as pessoas só vão ser leais a alguém se esse alguém meter um medo do caralho nelas. Com medo o bastante, elas param de se preocupar com seus próprios interesses, param de pensar em usurpar seu lugar, e se dedicam totalmente a te fazer feliz. Ou pelo menos, a não te fazer infeliz.”

Ela desceu do jipe e agarrou o cabelo de um rapaz japonês mais alto que ela, de cabelos compridos, do grupo de estudantes. Brincando com o cabelo em suas mãos, ela fez ele se curvar até sua orelha estar bem na frente dela, “Não é mesmo?”

Ele murmurou uma resposta e ela o soltou, “Mas vai além disso, não é? Sabe, eu posso ter herdado a ADM-”

Foi quase imperceptível, mas eu vi um breve movimento no rosto de Tattletale. Uma mudança de expressão ou movimento da cabeça. Quando olhei na direção dela, no entanto, não pude adivinhar o que era.

Bakuda continuou sem pausa alguma, “Mas eu também herdei os inimigos do Lung. Então eu tenho um dilema, sabe. O que posso fazer com vocês que vá convencê-los de que vale a pena ficar longe de mim? Que gesto seria efetivo o suficiente para fazer as pessoas correrem para as colinas quando me vissem chegando?”

Ela se virou e pegou uma pistola das mãos de um dos seus bandidos, “Dá aqui.”

Então ela andou até o meio da multidão.

“Não tem muitos insetos aqui.” Aproveitei a chance da pausa em seu monólogo para sussurrar o mais baixo que pude, rezando para que os outros escutassem e que eu não estivesse falando muito alto. Pelo menos minha máscara cobria meu rosto, escondendo o fato de que meus lábios estavam se movendo, “Regent?”

“Não posso desarmar todos eles,” ele sussurrou sua resposta. “Digo, eu-”

“Você.” Bakuda chamou, nos assustando. Mas ela não estava prestando atenção em nós. Um menino coreano-americano num uniforme da Immaculata estava se encolhendo na frente dela. A multidão se afastou lentamente, deixando uns dois metros de espaço em volta dos dois.

“S-sim?” O garoto respondeu.

“Park Jihoo, não é? Já segurou uma arma antes?”

“Não.”

“Já deu uma surra em alguém?”

“Por favor, eu nunca… não.”

“Nunca se meteu numa briga? Tipo uma briga de verdade, mordendo, arranhando, procurando qualquer coisa que pudesse ser usada como arma?”

“N-não, Bakuda.”

“Então você é perfeito para minha pequena demonstração.” Bakuda pressionou a pistola nas mãos dele, “Atire num deles.”

O rapaz segurou a arma como se fosse um escorpião vivo, com dois dedos, o mais longe que conseguiu, “Por favor, eu não posso.”

“Vou deixar fácil pra você,” Bakuda pode ter tentado soar reconfortante ou animadora, mas a máscara não permitia esse tipo de inflexão, “Você nem tem que matar eles. Pode atirar no joelho, no cotovelo, ou no ombro. Tá? Espera um pouco.”

Ela deixou a arma nas mão do garoto e se afastou, apontando para um de seus homens, “Pega a câmera e começa a filmar.”

Como ordenado, ele foi até o jipe pegar uma pequena câmera de mão. Ele mexeu nela por alguns segundos antes de segurá-la acima da cabeça para ver através da multidão, olhando pelo painel na lateral para se assegurar de que a mira estava certa.
“Obrigada por esperar, Park Jihoo,” Bakuda voltou sua atenção para o rapaz com a arma, “Você pode atirar agora.”

O menino disse algo em coreano. Talvez uma oração, “Por favor. Não.”

“Sério? Eles são bandidos, se você está preocupado com morais.” Bakuda virou a cabeça para um lado.

Ele piscou, tentando limpar as lágrimas, olhando para o céu. A arma caiu de suas mãos no asfalto.

“Isso parece um não. Uma pena. Não serve pra mim como soldado.” Bakuda o chutou na barriga, derrubando-o com força no chão.

“Não! Não não não!” O menino olhou para ela, “Por favor!”

Bakuda deu uns passos meio saltitados para longe. As pessoas em volta tomaram isso como uma deixa para se afastarem também.

Ela não fez nada, não disse nada, não deu nenhum sinal. Houve um som, como o vibrar de um celular numa mesa, e Park Jihoo se liquefez numa bagunça fluida em menos de um segundo.

Morto. Ele estava morto, simples assim.

Era difícil ouvir através dos gritos, do choro, das vozes exaltadas. Quando a multidão tentou fugir de cena, todos se escondendo atrás uns dos outros, um dos bandidos atirou para cima. Todos pararam. Depois de alguns gritos de surpresa, houve a menor das pausas, longa o suficiente para um som levar todos ao silêncio.

Parecia o barulho que era feito por um ancinho colhendo folhas secas, mas mais alto, artificial como o som de uma secretária eletrônica. Todos os olhares se voltaram para Bakuda. Ela estava se segurando, dobrada ao meio.

Risadas. O som eram suas risadas.

Ela deu um tapa na perna ao levantar, fez um barulho que pode ter sido uma respiração funda ou algo assim, que sua máscara tornou irreconhecível – um mero sibilar quase sem variação. Ela virou num semi-círculo ao exclamar, “A seis-dezoito! Eu tinha até esquecido que tinha feito ela. Perfeita! Melhor do que eu pensava!”

Se a intenção dela era causar terror, tinha dado certo. Comigo, pelo menos. Eu queria vomitar, mas eu teria que tirar minha máscara para isso, e estava com medo de que se eu me mexesse, seria baleada. O medo das armas foi o suficiente para a náusea não virar algo mais, mas o resultado era de que eu estava chacoalhando. Não apenas tremendo, meu corpo estava se mexendo tanto que eu tinha que me esforçar para ficar de pé.

“Isso foi tão foda.”

Com essas palavras, Regent conseguiu tantos olhares espantados quanto Bakuda havia conseguido com sua risada. Incluindo de mim. Não era só o que ele tinha dito. Era como ele estava calmo.

“Eu sei, né?” Bakuda se virou para ele, virando a cabeça para um lado, “Eu a modelei baseada no trabalho de vibrações do Tesla. Ele tinha essa teoria de que, com a frequência certa, dava até pra estilhaçar a Terra intei-”

“Sem ofensa,” Regent disse, “Bem, vou me corrigir: não me importo se eu te ofender. Mas não atire em mim. Eu só quero fazer uma pausa pra dizer que eu não ligo pra esse papinho de ciência e tecnologia explicando como você fez acontecer. Isso é um porre. Eu só quero dizer que é meio que foda ver como uma pessoa fica quando se dissolve desse jeito. Nojento, estranho, bizarro, mas é legal.”

“Sim,” Bakuda exultou com a atenção, “Como a resposta para uma pergunta que você nem sabia que estava perguntando!”

“Como você fez isso? Colocou bombas em todas essas pessoas pra elas trabalharem pra você?”

“Todas elas,” Bakuda respondeu, quase delirando com o sucesso de sua ‘experiência’ e a atenção de Regent. Ela meio saltitou, meio girou pela multidão e se inclinou para um de seus capangas, tocando a bochecha dele, “Até os meus servos leais. Foi chato pra caralho. Não o procedimento em si, colocar as coisas nas cabeças deles. Depois das primeiras vinte vezes, eu podia fazer a cirurgia de olhos fechados. Literalmente. Eu realmente fiz algumas assim.”

Ela fez biquinho, “Mas ter que tranquilizar os primeiros dez ou doze e fazer a cirurgia sem que eles acordassem, para ter a mão-de-obra necessária pra fazer os outros? Um após o outro? Bem entediante depois que a novidade passa.”

“Eu sou preguiçoso demais pra fazer isso, mesmo se eu tivesse seus poderes,” Regent falou, “Posso chegar mais perto do corpo? Dar uma olhada melhor?”

O humor dela mudou num instante, e ela apontou com raiva um dedo na direção dele. “Não. Não pense que eu não sei que você está tentando algo. Eu sou um super gênio foda, sacou? Eu penso doze passos à frente antes de você sequer decidir no primeiro. É por isso que vocês estão aí e eu…” ela se puxou para cima para se sentar na lateral do jipe, “Estou aqui.”

“Tá, foda-se,” Regent respondeu, “Foi só uma pergunta.”

Eu podia ver pela expressão dela que a Tattletale estava pensando o mesmo que eu. Mostre mais respeito à louca das bombas. Eu falei baixinho o que Tattletale não podia.

“Abaixa a bola aí, Regent,” sussurrei.

“Graaaaande booooosta,” Bakuda esticou as palavras, “O magricela acabou de perder qualquer boa-vontade que tinha por apreciar minha arte. Ou pelo menos ter sido convincente.” Ela cutucou o cara com a câmera no ombro, “Ainda tá filmando?”

O homem acenou com a cabeça. Ao olhar para ele, vi gotas de suor correndo por seu rosto, embora fosse uma noite fresca. Parece que os capangas dela também estavam bem assustados.

“Ótimo,” Bakuda esfregou suas mãos enluvadas de rosa, “Vamos cortar as partes conversativas depois, e botar na internet e mandar cópias pras emissoras de jornais. O que você acha?”

O camera-man respondeu com sotaque, “Bom plano, Bakuda.”

Ela juntou as mãos numa palma. Então apontou para a multidão, “Certo! Então, você… é, você, a garota de blusa amarela e calça jeans. Se eu mandasse, você pegaria a arma e atiraria em alguém?”

Levei um segundo pra achar a garota, do outro lado da multidão. Ela olhou para Bakuda com uma expressão aterrorizada e conseguiu responder, “A arma d-derreteu também, senhora.”

“Me chame de Bakuda. Você sabe. Nada chique. Se a arma ainda estivesse ali, você atiraria? Ou se eu mandasse alguém te dar uma arma?”

“A-acho que talvez sim,” os olhos dela se voltaram para a poça que havia sido Park Jihoo.

“O que conclui minha demonstração,” Bakuda se dirigiu ao nosso grupo, “Terror! É porque o Lung foi atrás de mim para me recrutar. Eu sempre soube, bem lá no fundo, que o medo era uma ferramenta poderosa. Ele tinha uma frase tão boa. ‘O medo verdadeiro é uma mistura do inegável com o imprevisível.’ Meu povo sabe que se eles me enfurecerem, eu só preciso pensar pra fazer as bombas em suas cabeças dar um estouro. Boom. Eles sabem que se eu morrer, cada bomba que eu fiz explode. Não só as que eu enfiei em suas cabeças. Toda porra de bomba. E eu fiz um monte delas. Esse é o inegável.”

Lisa pegou minha mão, apertando com força.

“Já o imprevisível?” Bakuda balançou as pernas no ar, como uma criancinha sentada numa cadeira grande, “Eu gosto de misturar meu arsenal, então você nunca sabe o que tem na sua cabeça. Mas eu tenho que deixar eles imaginando, né? Pisando em ovos, na pontinha do pé? Falando nisso: Shazam!”

A palavra coincidiu com o começo de uma explosão muito real que foi seguida imediatamente por algo parecendo um trovão, mas Lisa já estava puxando meu braço, me puxando para longe.

Vi o caos de relance, pessoas gritando e correndo do local da explosão que havia ocorrido bem no meio do grupo da própria Bakuda. O grupo de pessoas fugindo estava obstruindo a visão das pessoas com armas.

Regent esticou o braço, o mexendo para o lado e fazendo umas dez pessoas tropeçarem umas nas outras, transformando a multidão numa bagunça desordenada. Ouvi o barulho alto demais de balas sendo atiradas, vi Regent agarrando o ombro de seu braço esquerdo amolecido, e não tive certeza se as duas coisas estavam conectadas.

Finalmente, lá estava Bakuda, ainda sentada na lateral do jipe. Ela estava ou gritando ou rindo. Ela estava nos deixando sair de seu controle, seus subordinados estavam quase se matando num pânico insensato, e ela tinha acabado de matar pelo menos mais um deles só porque sim. De acordo com o que eu havia acabado de descobrir sobre ela, achei que ela provavelmente estava rindo disso tudo.

Quase sem eu perceber, a noite havia chegado, como se nos convidasse a entrar ainda mais no labirinto, os postes piscando e se ligando acima de nós. Com Grue cobrindo nossa fuga com uma cortina de escuridão, nós corremos.

Casca 4.7

Grue levantou as mãos e acobertou toda a área com escuridão. Não ajudaria muito. Mesmo se eles hesitassem ou se confundissem no escuro, a massa de corpos eventualmente nos encontraria, e seríamos derrubados e espancados pela simples força numérica. A única vantagem era que se eles tivessem armas de fogo, provavelmente não atirariam, por medo de atingir seus próprios aliados.

Senti mãos agarrarem minha cintura, e brandi meu cacetete. As mãos sumiram, e o cacetete atingiu só ar. Um momento depois, senti as mãos me segurarem de novo, mais gentilmente. Não era um inimigo. Grue, percebi.

“Desculpe,” murmurei. Ele podia ouvir dentro da escuridão, não podia?

Ele me ergueu no ar, e imediatamente entendi seu plano. Levantei os braços e senti tijolos, e então encontrei o metal ondulado do telhado. Me puxei para cima e me virei para puxar a próxima pessoa, com uma mão agarrando a borda do telhado para me manter no lugar.

Encontrei as mãos de Regent e Tattletale no escuro e os ajudei a subir. Eu sabia que nenhum deles era o Grue, porque eram leves demais. Cinco ou seis segundos tensos e compridos se passaram até que Grue pegou minha mão e se puxou para cima.

Descemos pelo outro lado, e Grue desvaneceu a escuridão em volta de nós.

Haviam três membros da ADM na boca da viela na qual havíamos acabado de entrar, e um quarto, sozinho, na outra ponta. Ambos os grupos estavam olhando para o lado errado, e nós bem quietinhos, o que indicava que eles não tinham nos notado.

O número de soldados que tínhamos visto antes não podia estar certo, e eu disse em voz alta, “Que porra é essa? Quantas pessoas tinha ali?”

Grue aparentemente estava pensando a mesma coisa. “A ADM não deveria ter tantos membros.”

“Agora eles têm,” Tattletale deu uma olhada por cima do ombro para os membros da ADM atrás de nós, e depois para o solitário à nossa frente que ainda não havia reagido à nossa presença, “É uma cilada! Chão!”

Ela praticamente me jogou no chão, e se abaixou também.

A pessoa em nossa frente brilhou, e então desapareceu. Em seu lugar, por uma fração de segundo, estava um objeto cilíndrico do tamanho de uma caixa de correio. Sabendo o tipo de especialização de Bakuda, juntei minhas pernas bem próximas ao corpo, fechei os olhos com força e cobri minhas orelhas.

A força da explosão me atingiu com tanta intensidade que eu senti meus ossos reverberando. Fui levantada do chão. Por um momento, me senti como se estivesse flutuando, sendo carregada por um vento quente e poderoso. Caí no chão com os joelhos e cotovelos, que vibraram com a agonia do impacto.

Caos. Os quatro ou cinco galpões que haviam estado mais perto do cilindro estavam reduzidos a pedaços de tijolo em chamas, nenhum deles maior do que uma bola de praia. Outros armários próximos tiveram suas portas, paredes e telhados jogados para longe. Parece que não era só o nosso galpão que tinha coisas dentro de si, porque a explosão havia esvaziado muitos. Pedaços de mobília, caixas de livros, roupas, pacotes de jornais e caixas de papéis estavam espalhados pelo beco.

“Todo mundo ok?” Grue perguntou, enquanto tentava se levantar.

“Ai. Estou queimada. Merda! Ela estava nos esperando,” Tattletale gemeu. O quão graves que fossem suas queimaduras, não eram ruins o suficiente para serem visíveis pela fumaça e poeira. “Fez armadilhas, deixou as pessoas esperando. Bosta, a gente só estava meia hora atrasado. Como?”

“Temos que sair daqui,” Grue nos apressou, “Isso vai ficar muito pior se ela nos encontrar. Tattletale, procure-”

“Já achei vocês,” Bakuda avisou no que poderia ser uma voz cantarolante, se sua máscara não a transformasse num ruído monótono e sem ritmo. Ela emergiu da fumaça que saía do local de detonação; seu capuz estava para trás e seus cabelos pretos e lisos flutuavam ao vento. As lentes de seus óculos de proteção vermelho-escuros eram quase da mesma cor que o céu acima dela. Havia uns cinco ou seis delinquentes bem atrás dela, um homem de meia-idade que não parecia um membro de gangue, e um menino magricela que provavelmente era mais novo que eu. Eu estava feliz em ver que nenhum deles tinha armas de fogo, mas todos estavam armados com alguma coisa.

“Não que vocês sejam difíceis de achar,” Bakuda continuou, abrindo os braços para apontar a devastação à sua volta. “E se você acha que isso só fica pior s-”

Grue tacou uma nuvem nela, efetivamente calando a sua boca, e a escuridão inchou ao tocá-la, envolvendo todo o grupo. Tomamos vantagem de sua cegueira momentânea para correr até a outra ponta da viela.

Estávamos só na metade do caminho quando um som veio por trás, como o estalo de um chicote. Isso me pareceu profundamente impossível, já que não devíamos ser capazes de ouvir nada através da escuridão de Grue. De repente, era como se estivéssemos correndo contra um vento muito forte.

Só que não era vento. Ao procurar a fonte do ruído, vi a nuvem de escuridão de Grue encolhendo. Destroços começaram a escorregar para o epicentro da escuridão, e o vento – o repuxo – começou a aumentar de intensidade.

“Segurem algo!” Grue berrou.

Mudar de posição e me jogar para um lado era como me forçar a saltar sobre um abismo de cinquenta metros. Eu não sei se eu calculei errado, ou se o efeito que estava me puxando ficou mais forte quando eu pulei, mas minha mão deixou de alcançar a maçaneta por um triz. Não consegui agarrar o galpão seguinte também.

Eu soube num instante que mesmo se eu conseguisse botar a mão em alguma coisa, a força do puxão me arrancaria dela antes de eu conseguir me segurar bem. Peguei minha faca de onde estava embainhada às minhas costas e a enterrei com toda a força que consegui na primeira porta que vi. Ela se encravou na madeira, me impedindo de ser arrastada para trás, ou de cair para o lado. Entretanto os 55 kg do corpo que se agarrava nela foram demais, e quase imediatamente a faca começou a sair do buraco.

Pelo menos serviu para me desacelerar. Enquanto a força do puxão aumentava ao ponto de meu corpo ficar paralelo ao chão, eu esperava com o coração na boca, observando a área onde a faca estava na porta, vendo ela escorregar milímetro por milímetro. Assim que ela saiu da porta, agarrei a maçaneta que estava próxima aos meus pés. Meu braço se estirou dolorosamente, mas consegui me segurar e enfiar a faca na divisa entre a porta e a moldura. Mesmo com dois pontos de apoio, eu não me sentia segura.

De uma vez só, o efeito parou. Meu corpo foi jogado no chão à base do galpão, e forcei meus dedos dormentes a soltar o cabo da faca e a maçaneta. Por toda a rua, nuvens enormes de poeira rolavam até o ponto onde o dispositivo havia sido detonado. As partes dos galpões que estiveram pegando fogo haviam sido apagadas, mas ainda estavam quentes o suficiente para mandar colunas de fumaça escura para o céu.

Regent havia encontrado um ponto de apoio na borda do telhado de um galpão, que ou já estava torto antes de ele segurá-lo, ou a força do puxão havia entortado o metal enquanto ele se agarrava nele. Tattletale e Grue aparentemente haviam conseguido abrir a porta de um galpão, porque saíram de dentro dele juntos, Grue mancando um pouco.

“Mas que porra foi essa?” ofeguei, “Um buraco negro em miniatura?”

Tattletale deu uma risada sem graça, “Acho que sim. Aquilo foi-”

Do outro lado dos galpões, um cilindro voou pelo ar, bateu no telhado de metal de um galpão e aterrissou bem no meio do nosso grupo.

Grue focou nele imediatamente, usando seu pé chutá-lo para dentro do armário do qual ele e Tattletale haviam acabado de sair. Sem parar, ele abriu bem os braços e nos enxotou para longe enquanto corria.

Mesmo com tijolo e concreto no caminho, a explosão tirou nossos pés do chão. Aquilo não foi a pior parte. Depois que o impacto inicial acabou, o restante da explosão pareceu acontecer em câmera lenta. Pedaços espalhados do armário de tijolos flutuavam pelo ar tão devagar que quase não dava pra perceber que estavam se movendo. Enquanto eu olhava, pude vê-los parando.

Então olhei para a frente e vi filetes de fumaça em alta velocidade e destroços sendo jogados no chão duas vezes mais rápido do que o normal, meros três metros à nossa frente. Demorou um precioso segundo até eu descobrir por quê.

Ainda estávamos na área de impacto.

“Rápido!” gritei, ao mesmo tempo em que Tattletale berrou, “Corram!”

Nos jogamos para a frente, mas eu podia ver as coisas ainda aumentando de velocidade bem na nossa frente. O que significava, é claro, que nós é que estávamos parando no tempo. Logo ficaríamos estáticos.

De alguma forma, eu não achei que esse efeito passaria em alguns minutos como o de Clockblocker.

Quebramos a barreira do efeito com o que pareceu uma mudança abrupta na pressão atmosférica. Eu não tive chance de checar o quão próximos havíamos estado de ficarmos presos para sempre no tempo, porque Bakuda estava atrás da fileira de galpões, lançando mais uma leva – três projéteis que voavam alto no ar, soltando linhas de fumaça roxa.

Grue jogou escuridão neles, provavelmente com a intenção de abafar os efeitos, e exclamou, “Pra lá do galpão!”

Regent e eu subimos nos galpões primeiro, do mesmo jeito que tínhamos feito quando a multidão estava atrás de nós. Assim que Regent desceu pelo outro lado para nos dar espaço, Tattletale e eu ajudamos Grue a subir, e descemos juntos.

Novamente, de cada lado da ruela, havia membros da ADM. Eles não estavam se movendo, o que significava que ou eles não nos tinham notado, ou que eram só imagens holográficas para esconder armadilhas. Eu apostaria na segunda opção.

“De novo,” ofeguei, “Vamos lá.” Não podíamos arriscar outra cilada, outra bomba explodindo tão perto de nós. Então atravessamos a ruela de novo e escalamos a próxima fileira de galpões.

De repente estávamos de frente com uma dúzia de membros armados da ADM. Só que não eram os típicos membros de gangue. Um deles era um chinês idoso, segurando um rifle de caça. Havia uma garota que não podia ter mais de doze anos, segurando uma faca, deve ter sido a neta dele. Dos onze ou doze deles, apenas três tinham o ar de bandido que marcava eles como membros da gangue. O resto parecia estar aterrorizado.

O homem idoso apontou sua arma para nós, hesitante.

Um bandido com uma tatuagem no pescoço cuspiu instruções numa língua oriental que eu não consegui reconhecer, com a frase terminando em inglês, “Atire!”

Descemos pelo outro lado dos armários antes que ele pudesse se decidir. Grue criou uma nuvem de escuridão sobre o topo dos armários, para desencorajar uma perseguição.

“Mas o quê?” Regent exclamou. Não tínhamos parado de correr desde que Bakuda havia se revelado a nós.

“Eles estão com medo, não são leais,” Tattletale falou, não tão sem fôlego quanto Regent, mas definitivamente sentindo o efeito dos minutos de corrida e escalada, “Ela está forçando eles a serem soldados. Ameaçando a eles ou suas famílias, provavelmente.”

“Então ela tem planejado isso por um bom tempo,” Grue disse.

“Desde que o Lung foi preso,” Tattletale confirmou, “Para onde a gente vai?”

“De volta para a mesma parede,” Grue decidiu. “Vou cegá-los, a gente atravessa num lugar diferente caso eles queiram atirar onde nos viram antes.”

Antes de podermos colocar o plano em ação, houve outra explosão. Tropeçamos para a parede frontal do galpão de onde tínhamos acabado de descer, caindo num montinho. Todo o meu corpo estava quente, minhas orelhas estavam tinindo, e nem estávamos perto da bomba.

Ao levantar a cabeça, vi que um dos galpões do outro lado havia sido totalmente obliterado. Pelo rombo, vi Bakuda em pé na parte traseira de um jipe, com uma mão segurando uma das barras de segurança que saíam do topo do veículo. Ela estava dizendo algo para os bandidos nos assentos da frente, mas eu não consegui ouvir por causa do ruído intenso em meus ouvidos. Eles seguiram à direita, e por uma fração de segundo, ela olhou para mim.

Chamei meus insetos e os mandei em sua direção, mas ela estava se movendo rápido demais. Isso me deixava a opção de espalhá-los para que ficassem na frente dela, na esperança de que ela desse de cara com eles, e talvez alguns deles sobrevivessem ao impacto contra o vidro para me dar um senso de onde ela estava.

“Ela vai virar,” eu disse, agarrando o pulso de Tattletale, “Não podemos subir pela parede.”

“Temos que continuar correndo,” Regent ofegou. Eu estava com dificuldade em ouvi-lo.

“Não,” Grue o segurou, “Isso é o que ela quer. Ela está encurralando a gente para a próxima armadilha.”

“Para onde vamos, então?” Regent perguntou, impaciente, “Vamos lutar contra ela? Pegar ela de surpresa? Se eu conseguir vê-la, posso estragar a mira dela.”

“Não. As bombas são poderosas o bastante para nos matar mesmo que ela erre a mira,” Grue balançou a cabeça, “Não temos muitas opções. Se atravessarmos novamente a parede, não vamos ter que lidar só com os bandidos e o velhinho. Vamos ter que descer pela viela, e vai ter uma bomba lá. Então temos que voltar. Não temos escolha.”

Eu queria que houvesse outra opção. Voltar significava entrar de novo no meio do barracão, significava prolongar nossa fuga, e possivelmente dar de cara com as tropas da ADM.

Fomos em direção ao buraco que a última explosão de Bakuda havia criado nos galpões, e Grue encheu a viela que estávamos abandonando com escuridão, para ajudar a cobrir nossa fuga. A pequena rua estava vazia, exceto pelas silhuetas imóveis em cada ponta.

Ao começarmos a escalar a próxima fileira de galpões, sentimos uma série de explosões detonando na área atrás de nós. Bakuda estava bombardeando a nuvem de escuridão com uma série de explosivos. Acho que não se precisa de visão quando se tem poder o suficiente.

Descemos dos galpões e nos encontramos no mesmo lugar que havíamos achado quando fugimos da multidão. Ainda haviam três silhuetas paradas numa ponta da viela, sem dúvida uma bomba disfarçada, e a destruição causada pelas explosões e pelo ‘buraco negro em lata’ da outra ponta. Se escalássemos o galpão, correríamos o risco de nos jogar de cabeça na multidão da qual havíamos escapado. Teríamos a vantagem da surpresa, mas eles ainda estavam em maior número e tinham mais armas.

Por um acordo não-falado, fomos até a ponta da ruela onde a bomba-holograma havia detonado, onde nuvens de poeira ainda estavam se assentando.

Fomos recebidos pelo som de armas sendo carregadas.

Meu coração parou. Uns vinte membros da ADM apontavam armas de vários tipos em nós. Ajoelhados, sentados ou agachados na frente dos dois grupos, para que não ficassem no caminho das armas e fora de vista, havia umas trinta pessoas que Bakuda havia “recrutado”. Tinha um executivo e uma mulher que poderia ser sua esposa, uma garota usando o uniforme escolar da Immaculata, uma escola particular cristã da parte sul da cidade, mais ou menos da minha idade. Haviam dois homens mais velhos, três mulheres de meia-idade com cabelos grisalhos, e um grupo de rapazes e moças que pareciam ser estudantes universitários se agrupando perto um do outro. Pessoas normais.

Eles não eram membros da gangue, mas eu podia vê-los como soldados dela. Cada um segurava um tipo de arma. Haviam facas de cozinha, tacos de baseball, canos, pás, alicates, correntes, pés-de-cabra e um cara até tinha uma espada que, por incrível que pareça, era estilo ocidental. Eles tinham um olhar de resignação amarga em suas faces, e olheiras que mostravam exaustão ao olhar para nós.

Atrás desse grupo, de pé no jipe, com um pé em seu lançador de bomba modificado e um lança-granadas pendurado de uma tira em seus ombros, estava Bakuda. Em toda a sua volta haviam caixas de suas granadas especializadas e lançadores, atados na parte traseira do jipe, piscando com LEDs de várias cores.

Ela pôs as mãos em seu lançador de granadas e virou a cabeça para o lado. Sua voz robótica atravessou o ar parado.

“Cheque-mate.”

Casca 4.6

Não éramos os únicos a estar discutindo estratégia. Ao virar minha atenção para eles, vi
que Über e Leet estavam cochichando um para o outro.

Quando perceberam que eu estava olhando para eles, pararam de conversar. Über limpou
o sangue embaixo do nariz com a mão de novo e deu um passo à frente. “Chega de
falação.”

Eu gostaria que mais insetos estivessem na área. O depósito tinha uma seleção bem
decepcionante. Insetos tinham que se alimentar com alguma coisa, e não tinha muita
coisa aqui fora asfalto, concreto e tijolos. Isso me dava apenas algumas baratas e
mariposas que haviam sobrevivido do que tinha nos galpões que conseguiam acessar, e
aranhas que se escondiam nos cantos escuros. Eu não estava feliz por ter que enfrentar
dois supervilões com tão pouco material, por mais toscos que eles fossem.

Não tive chance de ficar pensando muito no assunto, porque Über nos atacou. Me
apressei em sair do caminho. Os poderes do Über davam talentos a ele. Não importava se
fosse tocar sanfona, fazer parkour ou lutar Muay Thai, ele se virava como se tivesse
treinado aquilo algumas horas por dia por décadas. Se ele realmente quisesse, pelo que eu
entendia, ele poderia ser realmente incrível.

Resumindo, nunca que eu ia deixar ele se aproximar de mim.

Grue tinha uma perspectiva bem diferente. Ele deu um passo adiante e sumiu de vista com
a escuridão que emanava dele. Um segundo depois, Über tropeçou para fora do outro lado
da nuvem, caiu de bunda no chão, e deu um chute giratório com uma manobra cheia de
floreios para ficar em pé de novo. A combinação de técnica e falta de jeito era
simplesmente bizarra.

Meus bichinhos estavam se juntando ali perto, agora, mas apenas uma parcela muito
pequena deles era útil. Em algum lugar na periferia da minha consciência, fiz uma conexão
com um ninho de vespas pendurado num galpão perto da ferrovia. Elas eram mais úteis,
mas tirar todas elas do ninho e trazer até onde eu estava demoraria um tempinho. Juntei o
resto dos meus insetos num pequeno enxame ali perto, deixando o grupo crescer até eu
poder usá-lo. Tanto o Kid Win quanto o Lung haviam destruído meu enxame quando eu os
ataquei, e eu não podia arriscar ficar impotente se o Leet conseguisse fazer o mesmo.

Leet entrou na cena enquanto Über dava voltas em torno de nós, pegando atrás de suas
costas o que parecia uma bomba retrô: preta, redonda e com um pavio aceso em cima.
Mas o jeito que a luz batia nela mostrava algo de errado. Como se fosse um desenho de
uma bomba ao invés de uma bomba de verdade.

Regent fez um gesto com a mão, e a bomba caiu da mão do Leet, rolando alguns metros.
A boca de Leet se abriu num ‘o’, e ele saiu correndo. Über não estava muito atrás.

Ao sair correndo como o resto de nós, Regent deu uma meia volta e fez um movimento
brusco com o braço. Über tropeçou e caiu a uns três metros da bomba prestes a detonar.

A área da explosão foi pequena, para nosso alívio. A onda de choque que sucedeu a
detonação nem me fez perder o equilíbrio. Über, no entanto, foi jogado para o ar.

Leet observou seu amigo rolar com o impacto, tentar se levantar e cair de novo. Ele se
virou para nós com o rosto contorcido de raiva.

“Eu vivo imaginando quando vocês vão desistir,” Tattletale sorriu, “Tipo, vocês perdem
muito mais do que ganham, vocês ganham mais dinheiro com o vlog do que com os crimes
de verdade, e já foram presos não menos do que três vezes. Vocês tão ligados que da
próxima vez é a Gaiola, né?”

“Nossa missão vale a pena,” Leet ergueu o queixo – ou o que ele chamava de queixo – em
superioridade.

“Claro,” Tattletale disse, “Pregando a palavra sobre a nobre e subestimada arte do
videogame. Estou recitando do seu site, palavra por palavra. As pessoas não assistem seu
programa porque acham que vocês estão certos. Elas assistem porque vocês são tão
ridículos que chega a ser hilário.”

Leet deu um passo à frente, punhos cerrados, mas Über disse, “Ela está te provocando.”

“Óbvio que estou. E eu posso fazer isso porque não tenho medo de vocês. Não tenho
nenhum poder que seja útil numa luta, e vocês não me intimidam nem um pouquinho. Um
cara que é bom em tudo e ainda consegue se foder o tempo todo, e um Engenheiro que só
sabe fazer coisas que quebram comicamente.”

“Eu posso fazer qualquer coisa,” Leet se gabou.

“Só uma vez. Você pode fazer qualquer coisa uma vez. Mas quanto mais próxima a sua
invenção é de algo que você já fez antes, mais provável é que essa coisa exploda na sua
cara ou saia muito errado. Bem impressionante.”

“Eu poderia fazer uma demonstração,” Leet ameaçou, apontando para trás.

“Me poupe disso. Ouvi falar que cinzas de geek carbonizado são muito difíceis de lavar do
uniforme.”

“Você fala geek como se fosse um insulto,” Über disse, em seu tom caracteristicamente
dramático, “É uma honra.”

“Entre geeks, talvez,” Regent respondeu, “Mas tem palhaços por aí que consideram ser um
palhaço uma coisa muito nobre, enquanto o resto de nós dá risada deles. Tá me
entendendo?”

“Já chega,” Leet grunhiu, “Está claro que vocês estão tentando encher o saco-”

“Eu acabei de falar isso. Não é só claro. É um fato,” Lisa apontou.

“Não vamos cair nessa!” Leet ergueu a voz, “Acho que é hora da nossa grande revelação,
nossa convidada-”

Ele foi cortado quando Grue atirou uma nuvem de escuridão na cara dele. Leet se afastou
da nuvem, balbulciando.

“Eles estão rindo da sua cara, Leet,” Tattletale alfinetou, “Você está tentando ser todo
dramático, todo intenso pros seus espectadores, e eles estão sentados na frente do
computador, rindo do seu papel de trouxa. Até o Über dá risada de você pelas suas
costas.”

“Cala a boca!” Leet cuspiu as palavras, dando uma olhadela para seu colega por cima do
ombro, “Eu confio no Über.”

“Por que você perde tempo com esse cara, Über?” Regent perguntou, “Tipo, você é meio
tosco, mas podia conseguir alguma coisa se ele não estragasse metade dos seus planos.”

“Ele é meu amigo,” Über respondeu, como se fosse a coisa mais simples do mundo.

“Então você não nega que ele te atrapalha.” Lisa notou.

“Calem-se!” Leet rugiu. Só que ele não tinha uma voz muito grave, então provavelmente
soou mais parecido com um ganido. Ele pegou outra bomba e a jogou em nossa direção
antes que o Regent pudesse fazê-lo tropeçar. Caímos fora, com Regent, Tattletale e eu
saindo correndo enquanto Grue envolvia a si mesmo e ao Über em escuridão.

Enquanto eu procurava abrigo, direcionei meus insetos para atacar Leet. Ele havia feito
algo diferente dessa vez, porque a bomba não demorou nem metade do tempo que a
primeira bomba tinha levado para detonar. Isso me pegou de surpresa, e não tive tempo
de me jogar no chão. A explosão me acertou em cheio nas costas.

O ar e o fogo que me cobriram não estavam quentes. Aquilo foi o que mais me
surpreendeu. Não que não tivesse doído, mas foi mais como se eu tivesse levado um soco
de uma mão gigante do que o que eu havia imaginado que uma explosão seria. Me lembrei
dos jatos de fogo de Lung, Kid Win estraçalhando a parede com seu canhão. Isso
parecia… falso.

“São bombas de mentira?” perguntei em voz alta, ao me levantar do chão. Eu estava
dolorida, mas não queimada.

“São hologramas sólidos,” Tattletale disse, “Na verdade isso é bem legal, se você ignorar
que elas são meio que inúteis. Acho que ele não consegue fazer bombas de verdade sem
estragar tudo.”

Leet sibilou, embora fosse difícil dizer se era por causa das palavras de Tattletale or das
mariposas, vespas e baratas que estavam em cima dele. Como eu suspeitara, elas não
estavam sendo muito efetivas. Mesmo entrando em seu nariz e boca, não fizeram ele
parar. Talvez isso fosse uma desvantagem de deixar ele furioso, como Tattletale e Regent
estavam planejando.

Ele agarrou mais duas bombas e Regent foi mais rápido dessa vez, estalando os dedos.
Leet se recuperou antes de derrubar as bombas, e empurrou os braços para trás para
jogá-las. Mas Regent estava preparado, e uma das pernas de Leet escorregou embaixo
dele. Ele caiu no chão, as bombas rolando para mais ou menos um metro dele antes de
explodir.

Ele deu de cara numa porta com tanta força que pensei que ele pudesse ter morrido.
Antes de eu me aproximar para checar seu pulso, no entanto, ele começou a tentar se
levantar.

“Sorte sua ter feito bombas não-letais,” murmurei, “Você é apenas um, contra quatro de
nós.”

Olhando feio para nós, ele pegou do compartimento em suas costas uma espada.

“A espada do Link?” Regent provocou, “Isso não é nem do jogo certo. Você está saindo do
tema.”

“Acho que falo por todos ao dizer que acabamos de perder o pouco respeito que a gente
tinha por vocês,” Tattletale ajudou.

Leet avançou para eles dois. Ele não conseguiu dar nem três passos antes de o Regent
fazer ele tropeçar e cair de quatro. A espada escorregou de sua mão e caiu no chão antes
de piscar e deixar de existir.

Ele estava apenas a alguns metros de mim, focado demais na Tattletale e no Regent para
prestar atenção em mim. Peguei meu cacetete atrás de mim e o estendi por completo.
Quando ele começou a se levantar, tateando nas suas costas pelo que percebi ser uma
mochila fina e dura, bati na mão dele com a parte de metal do cacetete. Ele gritou,
levando a mão ao peito para protegê-las. Bati de novo em sua canela, bem abaixo do
joelho, com mais força do que eu pretendia. Ele se encolheu no chão.

Dando a volta nele, segurando o cacetete pelas duas pontas, empurrei o comprimento de
metal com força contra sua garganta.

Leet começou a sufocar. Ele me pegou de surpresa ao se jogar para trás, jogando nós dois
no chão, ele por cima de mim. Estremeci quando o impacto empurrou o peso dele bem na
área machucada do meu peito onde a Glory Girl havia atirado a Tattletale em mim. Mas
não soltei o cacetete. Fora os 60 kg de bandido em cima de mim, eu estava contente com
a vantagem que estar no chão me dava.

“Tudo bem aí?” Grue me perguntou em sua voz ecoante. Ele deu um passo adiante, ficando
diretamente acima de mim.

“Excelente,” respondi, bufando um pouco com o esforço.

“Não aperte a traquéia dele. Você vai ficar cansada ao ponto de soltar a mão antes de ele
desmaiar. Aqui,” ele se abaixou e forçou a cabeça do Leet para o lado, movendo o
cacetete para que este apertasse o lado do pescoço de Leet, “Agora você está apertando
a artéria, obstruindo o fluxo de sangue para o cérebro. Bem mais eficiente. Se você
pudesse aplicar pressão nas duas artérias, só levaria trinta segundos.”

“Obrigada,” bufei, “Pela lição.”

“Boa garota. O Über já era, mas eu vou ajudar os outros a deixar ele bem preso. Estamos
perto de você, grite se precisar de ajuda.”

Não foi rápido, mesmo com a técnica que Grue havia mostrado. Não foi bonito também.
Leet fez um monte de sons desagradáveis, tentando debilmente alcançar sua mochila.
Pressionei fortemente o meu corpo sobre ela, e ele desistiu. Então, ele tentou empurrar a
barra do cacetete para longe, para aliviar a pressão. Quando isso não funcionou, ele
passou a arranhar minha máscara, sem efeito.

O soltei quando ele finalmente amoleceu, desacordado. Saindo de baixo dele, ajustei minha
máscara, peguei minha faca e cortei as alças da mochila. Terminado isto, o revistei. Se
fôssemos interrogá-lo, sem chance de ele simplesmente pegar algum aparelho pra se
libertar ou nos incapacitar. Seu uniforme era bem colado ao corpo, então foi fácil ver que
não havia bolsos ou dispositivos escondidos nele. Só pra ter certeza, cortei a antena de
sua cabeça e retirei seu cinto.

Os outros voltaram com um Über ferido e inconsciente em seus braços, com os braços
amarrados com algemas de plástico atrás dele. Eles o jogaram ao lado de Leet.

“Agora temos que descobrir onde eles puseram a Bitch e o dinheiro,” Tattletale falou. Ela
olhou para mim, “Você não teria sais de cheiro (N.T.: uns sais que fazem a pessoa
recobrar a consciência, vejo bastante na literatura em inglês, nunca ouvi falar de nada
parecido em português)?”

Balancei a cabeça, “Não. Esses caras têm capangas, não é? Devem ter deixado eles
cuidando do dinheiro. Provavelmente vamos encontrar a Bitch no mesmo lugar.”

“Quase, mas sem chance,” um ruído mecânico me respondeu.

Nos viramos para ver uma mulher no mesmo uniforme que Über e Leet estavam usando. A
diferença era que ela usava uma coisa no estilo de uma máscara de gás na parte inferior
do rosto, e as lentes de seus óculos de proteção eram vermelhas, não pretas.

A máscara da mulher parecia transformar tudo o que ela dizia num chiado robótico e
monótono, “Eu realmente esperava que eles tirassem um ou dois de vocês do jogo, ou pelo
menos machucassem alguém. Que decepcionante. Eles nem conseguiram introduzir sua
convidada especial.”

“Bakuda?” Tattletale foi a primeira a nomear a moça, “Puta merda, o jogo em que estavam
se inspirando era… Bomberman?”

Bakuda se levantou e se curvou em um único movimento fluido. Regent levantou as mãos,
mas ela se deixou cair de joelhos, agarrando a borda do telhado com uma mão para não
escorregar.

“Na na ni na não,” ela abanou um dedo para ele, “Eu sou esperta o suficiente pra aprender
com os erros dos outros.”

“Sério que você largou a ADM pra se juntar ao Über e o Leet?” Regent perguntou,
incrédulo.

“Não exatamente,” Bakuda disse. Ela estalou os dedos da mão que não estava segurando
o telhado.

Abaixo dela, a porta para o galpão se abriu. Três homens nas cores da ADM saíram de
dentro de lá, cada um segurando uma arma. Uma pistola, um taco de baseball, um
machado.

Então outras portas se abriram, por todo o corredor de galpões. Trinta ou quarenta
portas, cada uma com pelo menos uma pessoa dentro. Algumas com três ou quatro. Todas
armadas.

“Aqueles dois foram mão-de-obra barata. Eles só queriam uns dois, três mil dólares e eu
tinha que usar esse uniforme. Parece que coisas baratas realmente não têm qualidade.

“Nem preciso dizer que ainda estou com a ADM,” Bakuda falou o óbvio para nós. “Sou a
chefe deles, na verdade. Acho apropriado eu comemorar minha nova posição lidando com
as pessoas que derrubaram meu antecessor, não concordam comigo?”

Ela não esperou por uma resposta. Apontou para nós e gritou, “Acabem com eles!”

Insinuação 2.2

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A corrida me ajudou a acordar, assim como o banho quente e a xícara de café que meu pai havia deixado para mim. O cansaço aumentou ainda mais o senso de dissonância que eu sentia indo para a aula, um dia tão normal. Meras horas atrás, eu havia estado numa luta de vida ou morte, eu até conheci o Armsmaster. Agora era um dia como qualquer outro.

Me senti um pouco nervosa ao chegar na primeira aula. Tendo basicamente matado duas aulas na sexta passada, não entregando um trabalho importante, pensei que provavelmente a Sra. Knott já sabia. Não me senti aliviada quando ela olhou para mim e me deu um sorriso duro antes de voltar sua atenção para o computador. Aquilo só significava humilhação dobrada quando a aula fosse interrompida por alguém vindo da secretaria. Uma parte de mim queria matar essa aula também, só pra evitar a possível humilhação e para não chamar a atenção.

Enfim, eu estava ansiosa ao sentar-me na frente do computador, o que era um saco porque aula de Informática era uma das poucas partes do meu dia de aula que eu não odiava. Pra começar, era a aula em que eu estava indo bem. Além disso, nem a Madison, nem Sophia nem Emma estavam na minha classe, embora algumas de suas amigas estivessem. Essas garotas geralmente não sentiam necessidade de me atormentar sem o trio por perto, e estavam afastadas de mim pelo fato de eu estar na turma avançada da aula. Uns três quartos das pessoas na sala não sabiam nada sobre computadores, vindo de famílias que não tinham dinheiro para comprar um ou que não se interessavam muito por isso, então eles praticavam digitar sem olhar o teclado e tinham aulas de como usar mecanismos de busca (tipo o Google). Contrastando, eu estava no grupo que estava aprendendo programação básica e bancos de dados. Não ajudava muito a melhorar a reputação de nerd que eu já tinha, mas eu podia lidar com isso.

A Sra. Knott era uma mulher alta, de ombros largos e mandíbula forte. Ela era uma professor bacana, geralmente se contentava em passar um trabalhinho para a turma avançada e então focar na maioria ignorante da sala pelo resto da aula. Eu gostava disso – porque eu geralmente terminava o trabalho em meia hora, o que me deixava uma hora para fazer o que eu quisesse. Minha cabeça tinha estado cheia dos acontecimentos da noite passada quando fui correr, e a primeira coisa que eu fiz quando o computador antigo terminou seu processo agonizante de abrir a área de trabalho foi procurar informações.

O lugar para se procurar notícias e discussões sobre capas era o Parahumanos Online. A página principal mostrava as mais recentes notícias internacionais envolvendo capas. Daí, eu podia ir para a wiki, onde havia informações específicas sobre cada capa, grupo e evento, ou para os fóruns, que se dividiam em quase cem sub-fóruns, para cidades e capas diferentes. Abri a wiki numa aba, e então procurei e abri o fórum de Brockton Bay em outra.

Eu tinha a sensação de que o líder do grupo que eu tinha encontrado era ou Tattletale ou Grue. Procurei por ela na wiki. O que achei foi uma decepção minúscula que começava dizendo: “Este artigo é um toco. Seja um herói e nos ajude a expandi-lo.” Era uma frase descrevendo-a como uma suposta vilã ativa em Brockton Bay, com uma foto borrada. A única informação nova para mim era que seu uniforme era lilás. A pesquisa nos fóruns não me deu absolutamente nenhum resultado. Nem mesmo uma dica de qual era o poder dela.

Procurei pelo Grue. Até tinha informação sobre ele, mas nada detalhado ou definitivo. A wiki dizia que ele estava ativo há quase três anos, cometendo crimes pequenos como assaltar lojas pequenas e sendo uma espécie de segurança para alguém que quisesse um pouco de músculo superpoderoso num trabalho. Recentemente, ele havia passado para crimes maiores, incluindo roubos a corporações e um assalto a um cassino, junto com seu grupo novo. Seu poder estava listado como geração de escuridão na barrinha embaixo de sua foto. Ela parecia ter uma qualidade decente, mas seu foco, Grue, era apenas uma silhueta preta borrada no centro.

A seguir, procurei por Bitch. Nenhum resultado. Fiz outra busca por seu nome mais oficial, Hellhound, e achei um monte de informações. Rachel Lindt nunca havia realmente tentado esconder sua identidade. Ela havia vivido nas ruas durante a maior parte de sua carreira criminal, fugindo sempre que a polícia ou uma capa fosse atrás dela. As visões e encontros com a garota sem-teto terminaram mais ou menos um ano atrás – inferi que foi quando ela se juntou a Grue, Tattletale e Regent. A imagem na barrinha era de uma câmera de segurança – uma garota de cabelo escuro, sem máscara, que eu não chamaria de bonita. Ela tinha um rosto meio quadrado, com feições grosseiras e sobrancelhas grossas. Ela estava montando um de seus ‘cachorros’ monstruosos como um jóquei monta um cavalo, bem no meio de uma rua.

De acordo com a wiki, seus poderes haviam se manifestado quando ela tinha catorze anos, seguidos quase imediatamente por ela demolindo a casa da família que a havia adotado, ferindo sua mãe adotiva e outras duas crianças adotadas no processo. Isto havia se seguido por dois anos de brigas e recuos pelo Maine enquanto vários heróis e grupos tentavam apreendê-la, e ela sempre conseguia derrotá-los ou fugir. Ela não tinha nenhum poder que a deixasse mais forte ou mais rápida que uma garota qualquer, mas aparentemente era capaz de transformar cachorros comuns nas criaturas que eu tinha visto no telhado. Monstros do tamanho de um carro, puro músculo, ossos, presas e garras. Uma caixa vermelha quase no fim da página dizia, “Rachel Lindt tem uma identidade pública, mas é particularmente hostil, anti-social e violenta. Caso a reconheça, não se aproxime e não a provoque. Deixe a área imediatamente e notifique as autoridades quanto a sua última localização conhecida.” Bem no final da página havia uma lista de links relacionados a ela: dois fansites e uma reportagem sobre suas atividades iniciais. Uma busca nos fóruns me deu resultados demais, me incapabilizando a discernir entre lixo, discussões, especulações e adoração a vilões para encontrar os núcleos de verdade naquilo tudo. Ao menos, ela era famosa. Suspirei e continuei, anotando mentalmente um lembrete de investigar melhor quando tivesse tempo.

O último membro do grupo era Regent. Já que o Armsmaster havia dito que ele era discreto, eu não estava esperando achar muita coisa. Fiquei surpresa ao encontrar menos que isso. Nada. Minha pesquisa na wiki resultou numa resposta automática, “Não há resultados para esta busca. 32 endereços IP buscaram a Wiki de Parahumanos.net por ‘Regent’ em 2011. Gostaria de criar uma página?” Os fóruns também não me mostraram nada. Até procurei por outras escritas de seu nome, como Regence e Recant, caso eu tivesse ouvido errado. Não achei nada.

Se meu humor já estava azedo quando cheguei na primeira aula, os becos sem saída só pioraram a situação. Voltei minha atenção ao trabalho em sala, fazer uma calculadora em Visual Basic, mas era muito trivial para me distrair. Os trabalhos de quinta e sexta já haviam nos dado as ferramentas para fazer isso, então era só juntar e encher linguiça. Eu não me importava em aprender coisas, mas trabalhar só por trabalhar era irritante. Eu fiz o mínimo, chequei que não tinha erros, movi o arquivo para a pasta de “trabalhos completos” e voltei para a internet. Afinal, o trabalho só demorou quinze minutos.

Procurei Lung na wiki, o que eu já havia feito antes, como parte de minha pesquisa e preparação para ser uma super heroína. Eu queria saber com certeza quem eram os vilões proeminentes das redondezas e o que eles podiam fazer. A busca por ‘Lung’ foi redirecionada para uma página geral sobre sua gangue, a ADM, com um bom bocado de informações detalhadas. A parte sobre os poderes de Lung se encaixava bem com a minha experiência, embora não houvesse menção de sua super audição ou de ele ser à prova de fogo. Considerei adicionar essa informação, mas decidi não fazê-lo. Não era seguro, havia a possibilidade de isso ser rastreado até a escola Winslow, e então até mim. De qualquer forma, provavelmente seria deletado como especulação sem provas.

A seção embaixo da descrição de Lung e seus poderes cobria seus subordinados. Era estimado que ele tivesse uns quarenta ou cinquenta capangas trabalhando para ele em Brockton Bay, escolhidos entre jovens asiáticos. Não era nada comum uma gangue ter membros de tantas nacionalidades como a ADM tinha, mas Lung tinha uma missão de conquistar e absorver toda gangue com membros asiáticos e muitas sem. Quando ele conseguia a mão-de-obra que precisava, as gangues não-asiáticas eram dispersadas por seus recursos, seus membros descartados. Mesmo que não houvessem mais gangues na parte leste da cidade para absorver, ele ainda estava recrutando zelosamente. Seu método agora era ir atrás de qualquer pessoa com mais de doze anos e menos de sessenta. Não importava se você era membro de uma gangue ou não. Se você era um asiático morando em Brockton Bay, Lung e seu pessoal esperavam que você ou se juntasse a eles ou pagasse um tributo de uma forma ou de outra. Haviam reportagens locais sobre isso, artigos de jornal, e eu podia lembrar dos avisos na secretaria da escola dizendo onde as pessoas que virassem um alvo deles poderiam encontrar ajuda.

Os tenentes de Lung estavam listados como Oni Lee e Bakuda. Eu já sabia o geral sobre Oni Lee, mas fiquei intrigada quanto às mudanças recentes em seu artigo da wiki. Haviam detalhes específicos sobre seus poderes: ele podia se teleportar, mas quando fazia isso, ele não desaparecia. Quando ele fazia isso, seu ‘eu original’, por falta de um termo melhor, ficaria onde estava, sendo ativo por de cinco a dez segundos antes de se desintegrar numa nuvem de cinzas de carbono. Essencialmente, ele podia criar outra versão de si mesmo em algum lugar próximo, enquanto sua versão antiga duraria tempo o suficiente para te distrair ou atacar. Se isso não fosse assustador o suficiente, haviam relatos de ele segurando uma granada em sua mão ao se duplicar repetidamente, com suas duplicatas de vida curta agindo como homens-bomba suicidas. Pra completar, a página da wiki de Oni Lee tinha uma caixa vermelha de aviso similar à que Bitch/Hellhound tinha na dela, sem o pedaço sobre identidade pública. Pelo que sabiam dele, as autoridades haviam decidido classificá-lo como um sociopata. O aviso cobria os mesmos elementos gerais: muito violento, perigoso, não devia ser provocado, e por aí vai. Olhei sua foto. Seu uniforme consistia em um bodysuit (N.T.: uma roupa que cobre o corpo todo, tipo um collant do tamanho de um macacão) preto com um cinto preto para pendurar suas facas, armas e granadas. Os únicos pontos de cor nele eram sua máscara estilo demônio japonês, vermelha com duas listras verdes de cada lado. Fora a máscara, seu uniforme tinha a aparência distinta de um ninja, o que só aumentava a impressão de que ele era um cara que podia e iria enfiar uma faca entre suas costelas.

Bakuda era um artigo novo, adicionado à página wiki da ADM apenas dez dias atrás. A foto só a mostrava dos ombroa para cima, uma moça de cabelos pretos e lisos, óculos de proteção grandes e opacos sobre seus olhos e uma máscara de metal com um filtro estilizado de máscara de gás cobrindo a metade de baixo de seu rosto. Um cordão trançado de fios pretos, amarelos e verdes dando a volta em um ombro. Não dava pra saber sua etnicidade com a máscara e os óculos, nem sua idade.

A wiki tinha um monte dos detalhes que Armsmaster havia me contado. Bakuda havia feito uma universidade de refém com sua habilidade sobre-humana de projetar e fabricar bombas de alta tecnologia. Havia um link para um vídeo chamado ‘Ameaça de Bomba em Cornell’, mas não achei inteligente tocá-lo na escola, principalmente sem fones de ouvido. Decidi ver quando chegasse em casa.

A próxima coisa que me chamou a atenção foi a seção denominada ‘Derrotas e Capturas’. Resolvi ler. De acordo com a wiki, Lung aparentemente havia sido derrotado algumas vezes por vários grupos, desde a Guilda até os grupos locais de Nova Onda, Vigilantes e o Protetorado, mas sempre conseguia escapar, até noite passada. Um pedaço dizia, ‘Armsmaster emboscou e derrotou o líder da ADM, que estava enfraquecido por um encontro recente com uma gangue rival. Lung foi levado ao QGP para custódia até ser julgado via teleconferência. Dado o histórico criminal extenso e bem documentado de Lung, é esperado que ele seja detido na Gaiola caso seja julgado culpado.

Respirei fundo e exalei devagar. Eu não sabia o que pensar. Por direito, eu deveria estar brava pelo Armsmaster ter pego os créditos da luta que poderia ter me custado a vida. Ao invés disso, senti uma alegria borbulhante. Senti vontade de chacoalhar o ombro do garoto ao meu lado e apontar para a tela, dizendo, “Eu, eu tornei aquilo possível! Eu!”

Com novo entusiasmo, abri a aba do fórum e comecei a procurar o que as pessoas estavam falando sobre isso. Um post de um fã ou subordinado de Lung ameaçou violência contra Armsmaster. Havia um pedido de alguém por mais informações na luta. Pausei ao ler um post perguntando se Bakuda poderia usar bombas em larga escala e a ameaça de potenciais milhares ou centenas de milhares de mortos, para resgatar Lung.

Tentei tirar aquilo da mente. Se acontecesse, seria responsabilidade de heróis melhores e mais experientes do que eu.

Reparei que havia uma pessoa pela qual eu não tinha procurado. Eu mesma. Abri a página de busca avançada do fórum Parahumanos.net e fiz uma busca por várias palavras. Incluí inseto, aranha, enxame, bichinho, praga, e um monte de outros termos que eu lembrava de quando eu estava procurando por um bom nome de heroína. Ajustei para pesquisar por posts feitos nas últimas 12 horas e cliquei em Pesquisar.

Meus esforços encontraram dois posts. Um se referia a um vilão chamado Pestilence (N.T.: peste), ativo no Reino Unido. Aparentemente, Pestilence era uma das pessoas que podia usar ‘magia’. Quer dizer, se você acreditasse que magia era real, e não alguma interpretação errada ou confusa de um certo conjunto de poderes.

O segundo post era na seção ‘Conexões’ do fórum, onde donzelas resgatadas deixavam seus contatos para seus heróis reluzentes, onde convenções e eventos eram organizados e onde pessoas postavam ofertas de emprego para capas e os obcecados por capas. A maioria era criptografada ou bem vaga, se referindo a coisas que somente as pessoas em questão saberiam.

O título da mensagem era, simplesmente, “Bichinho”.

Cliquei nela e esperei impacientemente para que o sistema obsoleto e o modem sobrecarregado da escola carregassem a página. Era uma mensagem curta.

Assunto: Bichinho

Te devo uma. Gostaria de pagar o favor. Que tal um encontro?

Responda a mensagem,

Tt.

O post era seguido por duas páginas de pessoas comentando. Três pessoas sugeriram que talvez fosse algo importante, enquanto uma meia dúzia os chamavam de chapéus de lata, o termo de Parahumanos.net para teoristas conspiratórios.

Era significativo, no entanto. Eu não conseguia interpretar de nenhuma outra forma; Tattletale havia achado um jeito de entrar em contato comigo.

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