Insinuação 2.4

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“Ninguém gosta dela. Ninguém quer ela aqui,” disse Julia.

“Que lesada. Nem entregou o trabalho de artes, sexta passada,” respondeu Sophia.

“Se ela nem vai tentar, por que está vindo pra escola?”

Apesar de como a conversa soava, elas estavam falando comigo. Estavam apenas fingindo falar umas com as outras. Era calculado em como podiam manter uma negabilidade plausível ao mesmo tempo em que imaturamente faziam de conta que eu não estava ali. Uma mistura de imaturidade com esperteza que só adolescentes conseguiam fazer. Eu teria rido de como era ridículo, se não fosse comigo.

No momento em que saí da sala, Emma, Madison e Sophia me encurralaram num canto, com outras seis garotas para dar apoio. Eu não podia sair do meio delas sem ser empurrada ou acotovelada de volta para o canto, então não pude fazer mais do que me inclinar na janela, ouvindo enquanto oito garotas matraqueavam uma lista infinita de provocações e insultos. Antes que uma delas terminasse, outra já começava a falar. Enquanto isso, Emma observava ao fundo, quieta, o menor dos sorrisos em seu rosto. Eu não podia olhar para nenhuma das outras garotas sem que elas latissem uma torrente fresquinha de insultos na minha cara, então fiquei encarando Emma.

“A menina mais feia do nosso ano.”

Elas nem estavam pensando no que estavam dizendo e um monte dos insultos eram mentiras deslavadas ou contraditórios. Uma dizia que eu era uma puta, por exemplo, e outra dizia que eu fazia rapazes vomitarem ao chegar perto deles. O objetivo não era ser espertas, inteligentes ou corretas. O que importava era o sentimento por trás das palavras, repetidamente, martelando em mim. Se eu tivesse apenas um momento para falar, eu poderia ter inventado umas respostas. Se eu pudesse matar seu movimento, elas provavelmente não voltariam ao ritmo fácil de novo. De qualquer forma, eu não conseguia encontrar as palavras para isso, e não haviam brechas na conversa onde eu não seria cortada.

Mesmo que esta tática em particular fosse nova para mim, eu estive aturando esse tipo de coisa por um ano e meio já. Num certo ponto, eu havia chegado à conclusão de que era mais fácil ficar de boa e aguentar a maioria das coisas. Elas queriam que eu revidasse, porque tudo estava a favor delas. Se eu tentasse lutar contra isso e elas ‘ganhassem’, eu só teria alimentado seus egos. Se eu conseguisse alguma coisa, elas ficariam mais persistentes e más da próxima vez. Então pela mesma razão pela qual não briguei com Madison pela lição que ela tinha me roubado, simplesmente me inclinei sobre a janela e esperei elas se entediarem com a brincadeira ou ficar com fome o suficiente para ir almoçar.

“O que ela usa pra lavar o rosto? Um pedaço de Bombril?”

“Pois deveria! Ficaria mais bonita!”

“Nunca fala com ninguém. Talvez ela saiba que é uma retardada e por isso fica de boca fechada.”

“Não, ela não é esperta o suficiente pra isso.”

A não mais de um metro atrás de Emma, eu pude ver o Sr. Gladly saindo de sua sala. A tirada não parou quando observei-o por suas pastas embaixo do braço, achar as chaves e trancar a porta.

“Se eu fosse ela, eu me mataria,” uma das garotas anunciou.

O Sr. Gladly se virou para me olhar nos olhos.

“Ainda bem que não fazemos educação física com ela. Imagina ver ela no vestuário? Só de pensar já fico com ânsia de vômito.”

Não sei que expressão eu tinha na cara, mas feliz não era. Não mais que cinco minutos atrás, o Sr. Gladly estava tentando me convencer a ir com ele para a diretoria falar sobre o bullying. Observei enquanto ele me deu um olhar triste, passou as pastas para sua mão livre e foi embora.

Fiquei estupefata. Não consegui entender como ele poderia simplesmente ignorar isso. Quando tentou me ajudar, será que ele estava só se ajudando, fazendo o que era obrigado numa situação que ele não podia ignorar? Será que havia desistido de mim? Depois de tentar ajudar, de sua própria maneira completamente inútil, depois de eu ter negado sua oferta de ajuda duas vezes, será que ele havia decidido que eu não valia o esforço?

“Vocês tinham que ter visto o grupo dela se estrepar na aula agora há pouco. Doeu de assistir.”

Fechei o punho, e então me forcei a abri-lo. Se fôssemos garotos, esse cenário seria totalmente diferente. Eu estava mais em forma do que nunca. Eu poderia ter dado uns socos desde o início, ensanguentar um nariz ou dois, talvez. Sei que perderia a luta no final, sendo empurrada para o chão pela força dos números e chutada enquanto estivesse lá, mas as coisas terminariam ali. Eu ficaria fisicamente dolorida por dias, mas ao menos teria a satisfação de saber que outras também estavam machucadas, e não teria que aceitar esse rio de insultos. Se conseguíssemos fazer bastante estrago, seria chamada a atenção da escola, e eles não poderiam ignorar as circunstâncias de uma luta de uma contra nove. Violência ganha atenção.

Mas as coisas não funcionavam assim. Garotas pegavam pesado. Se eu atacasse Emma, ela correria para a diretoria com alguma história inventada, suas amigas testemunhando a favor dela. Para a maioria das pessoas, pedir ajuda para a escola era suicídio social, mas Emma estava no topo da pirâmide. Se ela fosse para a diretoria, as pessoas só levariam tudo mais a sério. Quando eu voltasse para a escola, a história já teria se espalhado como uma videira, de um jeito que me fizesse parecer uma psicopata. Tudo pioraria. Emma seria vista como a vítima e as garotas que haviam se juntado a ela no bullying a defenderiam.

“E ela é fedida,” uma garota disse, bestamente.

“Tem cheiro de suco de uva e de laranja vencidos,” cortou Madison com uma risadinha. De novo, esse negócio do suco? Suspeitei que essa tivesse sido ideia dela.

Pareceu que elas estavam perdendo o fôlego. Calculei que seria só mais um minuto ou dois antes que se entediassem e fossem embora.

Emma deve ter tido a mesma impressão, porque veio à frente. O grupo se dividiu para dar espaço a ela.

“O que aconteceu, Taylor?” disse Emma. “Você parece tão tristinha.”

Suas palavras não combinavam com a situação. Eu havia mantido a compostura por todo esse tempo. O que eu sentia era mais frustração e tédio do que qualquer outra coisa. Abri a boca para dizer alguma coisa. Um simples “Vai se foder” teria servido.

“Tão triste que tem chorado até dormir essa semana inteira?” ela perguntou.

Minhas palavras pararam na garganta ao processar o que ela havia dito.

Quase um ano antes de começarmos o ensino médio, eu estava na casa dela, ambas tomando o café da manhã e ouvindo música alto demais. A irmã mais velha de Emma havia descido as escadas com o telefone. Abaixamos a música, e era meu pai do outro lado da linha, esperando para me contar com a voz fraca que minha mãe havia morrido num acidente de carro.

A irmã de Emma havia me dado uma carona para minha casa, e eu chorei o caminho inteiro. Lembro de Emma chorando também, por empatia, talvez. Pode ter sido o fato de que ela achava minha mãe a adulta mais legal do mundo. Ou talvez foi porque realmente éramos melhores amigas e ela não tinha ideia de como me ajudar.

Eu não queria pensar nos meses que se seguiram, mas fragmentos me vieram à memória sem eu pedir. Eu podia lembrar de ter ouvido meu pai falando mal do corpo de minha mãe, porque ela estava mandando mensagens enquanto dirigia, e era a única culpada nisso tudo. Houve um ponto em que eu fiquei quase sem comer por cinco dias, porque meu pai estava tão mal que não prestava atenção em mim. Eventualmente pedi ajuda a Emma, pedindo para comer na casa dela por alguns dias. Acho que a mãe dela descobriu o que estava rolando e conversou com o meu pai, porque ele começou a se endireitar. Estabelecemos nossa rotina, e não nos separaríamos como família de novo.

Foi um mês depois de minha mãe ter morrido que Emma e eu estávamos sentadas na ponte de um brinquedo no parque, nossos traseiros frios por causa da madeira úmida, tomando um café que havíamos comprado na Buraco de Donut. Não tínhamos nada pra fazer, então só ficamos andando e falando sobre qualquer coisa. Nossa caminhada havia nos levado ao parquinho, e estávamos descansando os pés.

“Sabe, eu admiro você,” ela havia dito, abruptamente.

“Por quê?” eu havia respondido, completamente encantada com o fato de que alguém linda e incrível e popular como ela poderia achar algo para se admirar em mim.

“Você é tão forte. Depois que a sua mãe morreu, você ficou em pedacinhos, mas você está tão de boa depois de um mês. Eu não conseguiria fazer isso.”

Eu podia me lembrar de ter admitido, “Eu não sou forte. Eu consigo me segurar durante o dia, mas tenho chorado até dormir essa semana inteira.”

Aquilo havia sido o suficiente para abrir as comportas ali mesmo. Ela me deu seu ombro para chorar, e nosso café esfriou antes de eu me recompor.

Agora, eu olhava para Emma, de boca aberta, sem palavras, seu sorriso alargado. Ela lembrava o que eu tinha dito, então. Ela sabia as memórias que isso traria à tona. Em algum ponto, aquela lembrança havia passado por sua mente, e ela havia decidido transformá-la numa arma. Esteve esperando para atirá-la em mim.

Me fodi, porque funcionou. Senti uma lágrima escorrendo pela bochecha. Meu poder rugiu nas bordas da minha consciência, agitado, me pressionando. Eu o suprimi.

“Tem mesmo! Ela está chorando!” Madison riu.

Com raiva de mim mesma, passei a mão na bochecha para limpar a lágrima. Mais já estavam chegando, prontas para substituí-la.

“É como se você tivesse um superpoder, Emma!” uma das garotas falou.

Eu havia tirado minha mochila para poder me recostar na parede. Me inclinei para pegá-la, mas antes que eu pudesse fazê-lo, um pé deslizou pela alça e a arrastou para longe de mim. Olhei para cima e vi a dona do tal pé – esbelta, corada Sophia – me dando um sorrisinho arrogante.

“Ai meu deus! O que ela está fazendo?” uma das garotas disse.

Sophia se recostava na parede, um pé casualmente em cima da minha mochila. Não pensei que fosse valer a pena lutar para ter a mochila de volta, se isso desse a ela uma oportunidade de continuar seu joguinho. Deixei a mochila onde estava e abri caminho empurrando as outras garotas, esbarrando num observador curioso forte o suficiente para fazê-lo tropeçar. Corri para as escadas e pela porta da frente no andar térreo.

Fugi. Não chequei, mas provavelmente elas estavam olhando da janela no fim do corredor. Não importava muito. O fato de eu ter prometido pagar trinta e cinco pratas do meu próprio dinheiro por um livro novo de Questões Mundiais para substituir o que havia sido encharcado com suco de uva não era minha prioridade. Mesmo que fosse quase todo o dinheiro que eu tinha depois de comprar as partes do meu uniforme. Meu trabalho de artes também estava na mochila, recém-consertado. Eu sabia que não o conseguiria de volta inteiro, se o conseguisse.

Não, minha preocupação no momento era sair de lá. Eu não quebraria a promessa que havia feito a mim mesma. Nada de usar poderes nelas. Este era o limite que eu não ultrapassaria. Mesmo se eu fizesse algo inócuo, como passar piolhos pra todas elas, eu não achava que ia parar ali. Eu não confiava em mim mesma o suficiente para manter minhas habilidades em segredo, sem nenhuma pista óbvia, só para ver a cara delas quando percebessem que a garota que tinham estado atormentando era uma super heroína em formação. Era algo em que eu não podia deixar de pensar, mas eu sabia que as consequências a longo prazo estragariam isso.

Talvez a coisa mais importante, pensei, fosse manter os dois mundos separados. De que me servia uma rota de fuga, se o mundo para o qual eu fugia estivesse cheio das pessoas e coisas que eu queria evitar?

Antes que o pensamento de voltar para a escola passasse por minha mente, me vi pensando no que eu faria esta tarde.

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