Insinuação 2.8

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“Tira esses cachorros daqui!” Brian gritou.

O maior dos cachorros, um rottweiler feioso ou um misto de rottweiler com sei lá o que, agarrou meu pulso com a mandíbula. Meus joelhos quase se dobraram em resposta à dor, que só piorou quando ele moveu bruscamente a cabeça para o lado e puxou meu braço. Caí, e num instante, os outros dois cachorros – um pastor alemão e uma terrier de pelo curto sem uma orelha e um olho – pularam em mim.

O pastor alemão ficou latindo e rosnando na minha cara, ocasionalmente mordendo e puxando os cabelos que estivessem na frente do meu rosto. A outra começou a me arranhar com as garras e os dentes, tentando achar algum lugar em minhas pernas, costas ou tórax que pudesse morder.

Enquanto isso, o rottweiler ainda tinha meu pulso em seus dentes, e começou a me puxar, como se quisesse me arrastar para algum lugar. Rangi os dentes com a dor, e tentei pensar em algo que eu pudesse fazer fora me curvar numa posição fetal para proteger meus braços, pernas e rosto.

“Tira essas porras de cachorros daqui!” ouvi Brian berrar de novo.

Um dente ou garra arranhou minha orelha. Acho que foi isso que me assustou, porque perdi a compostura e dei um grito.

Um instante depois, o que parece muito mais tempo do que você imaginaria quando um bando de cachorros está te atacando, houve um assobio. Ouvindo o barulho, os cães abruptamente saíram de perto de mim. A terrier de um olho só ainda me deu um latido hostil, seguido de um longo rosnado, enquanto se afastava, como se ainda tivesse maldade demais dentro de si e tivesse que liberar um pouco.

Lisa e Alec me ajudaram a levantar. Eu estava tremendo como uma folha no outono. Uma de minhas mãos agarrava o antebraço do outro lado, tanto para fazê-lo parar de tremer quanto para cuidar do ferimento. Eu tinha lágrimas nos cantos dos olhos e estava mordendo os dentes com tanta força que minha mandíbula doía.

Do outro lado da sala, Brian esfregava as costas de uma de suas mãos. Os três cachorros estavam sentados bem certinhos numa fileira a três metros de uma garota deitada no chão. A garota tinha sangue saindo das duas narinas. A reconheci da foto que tinha visto na wiki. Rachel Lindt. Hellhound. Bitch.

“Eu fodendo odeio,” Brian grunhiu para a garota, enfatizando o palavrão, “Quando você me obriga a fazer isso.”

Bitch se levantou um pouco, se inclinando na parede oposta a mim, para ter uma vista melhor da sala. Uma vista melhor de mim. Ver ela em pessoa só confirmou o que eu havia achado de suas fotos online. Ela não era atraente. Uma pessoa cruel talvez a chamasse de homem, e eu não estava me sentindo muito boazinha em relação a ela. A maioria de seus traços provavelmente ficaria melhor num rapaz do que numa moça. Ela tinha um rosto quadrado, sobrancelhas grossas, e um nariz que já havia sido quebrado mais de uma vez – talvez acabasse de ter sido quebrado de novo, julgando pelo sangue saindo de suas narinas. Até mesmo em seu biotipo corporal, ela era grande sem ser gorda. O tronco de seu corpo sozinho era maior do que o meu com os braços inclusos, só por ter um torso mais largo e mais grosso e mais carne nos ossos do que eu. Ela usava botas, jeans pretos cobertos de cortes e rasgos, e uma jaqueta militar verde por cima de um moletom cinza. Seu cabelo castanho era mais curto do que médio.

Respirei fundo. Então, falando devagar para não tropeçar nas palavras nem deixar algum tremor aparecer, perguntei “Por que bucetas você fez isso?”

Ela não respondeu. Ao invés disso, lambeu o sangue de cima da boca e sorriu. Era um sorriso mau, arrogante e zombeteiro. Mesmo que fosse ela que estivesse caída no chão com o nariz ensanguentado, de alguma forma ela ainda achava que tinha me vencido. Ou sei lá, né.

“Puta que pariu, porra!” Brian estava gritando. Ele começou a falar alguma coisa, mas eu não ouvi, por causa do zumbido de meu poder em meus ouvidos. Percebi que estava cerrando o punho, e me forcei a relaxá-lo.

Então, assim como eu tinha feito tantas vezes nos últimos dias e semanas, procurei um motivo que justificasse eu estar recuando. Era quase um reflexo. Quando as bullies vinham pra cima de mim, eu sempre tinha que tirar um momento pra me acalmar e tentar me convencer de que eu não devia retaliar.

Por alguns momentos, me senti como se estivesse flutuando. Pela hora em que percebi que não havia motivos para recuar, descobri que eu já tinha me soltado do apoio de Lisa e Alec e atravessado metade da sala correndo. Procurei os insetos e percebi que eu já estava usando meu poder sem nem pensar. Eles já estavam se juntando na escada e nas janelas. Tudo o que eles precisaram foi de uma ideia, e começaram a entrar na sala em grande quantidade. Baratas, piolhos, aranhas e moscas. Não tantos quanto eu gostaria, eu não estivera usando meu poder por tempo o suficiente para coletar muitos insetos nas bordas dessa vizinhança, mas ainda era uma quantidade significativa.

Bitch viu eu me aproximando e levou os dedos à boca, mas não dei a ela a chance de alertar seus animais. Chutei a cara dela como eu chutaria uma bola de futebol, e ela desistiu do assobio para cobrir a cabeça com os braços. Meu pé quicou em um de seus braços e o corpo todo dela se encolheu.

Como eu não havia diminuido a minha velocidade antes de chegar nela, tive que usar as mãos para não dar com a cara na parede. Uma linha de dor quente e vermelha correu pelo meu braço com o impacto, começando pelo lugar onde o rottweiler havia mordido meu pulso. Lembrando dos cachorros, olhei para a direita, e vi o maior deles se levantando, pronto para acudir sua mestre. Coloquei uma grande parte dos meus insetos entre eu mesma e as feras. A última coisa que eu vi deles antes que o enxame bloqueasse a minha visão foi os cachorros se afastando rapidamente do enxame, assustados.

Me descobrindo em pé acima de Bitch, encolhida contra a parede, pressionei o ataque. Seus braços cobriam seu rosto e peito, mas vi sua orelha exposta como um alvo e taquei o pé nela. Sua cabeça quicou no chão, e sangue apareceu do topo de sua orelha. A visão do sangue quase me parou, mas eu sabia que recuar agora daria a ela a chance de mandar os cachorros pra cima de mim com um assobio. Meu pé encontrou seu estômago exposto, e quando ela juntou os joelhos para proteger a barriga mirei um chute entre suas pernas. Consegui chutar firmemente três vezes suas costelas antes de ela protegê-las com um cotovelo.

Não tive chance de fazer mais do que isso, porque os cachorros estavam superando seu medo dos insetos e estavam se aproximando de mim e de Bitch enquanto o enxame se expandia. Abandonei meu ataque a Bitch para me afastar e encará-los. Eu sabia que podia tacar os insetos neles, mas algo me disse que os cachorros não iam ficar ganindo e fugir enquanto sua mestre estava machucada. Eu poderia mandar o enxame atacá-los, mas se a dor das picadas e mordidas não os detesse, eles me atacariam e eu estaria na mesma situação de um minuto atrás. Eu duvidava que Bitch fosse deter os cachorros desta vez.

Uma sombra caiu sobre minha visão, como uma cortina negra se fechando na minha frente, bloqueando minha visão de metade da sala e dos cachorros. Se dissolveu em resíduos de fumaça preta um segundo depois, e me assustei ao ver Brian bem na minha frente, entre eu e os cachorros.

“Chega,” ele disse. A pequena terrier ciclope sem orelha rosnou para ele em resposta.

Ouvi um som que não reconheci. Só depois de Bitch tentar de novo, com mais sucesso, foi que eu percebi que aquilo tinha sido uma tentativa fraca de assobio. Os cachorros olharam para sua mestre e então recuaram, ainda meio afastados do enxame. Recuei um pouco também, tomando cuidado em manter Brian entre eu e as feras.

Bitch tossiu, e então levantou a cabeça para me olhar nos olhos. Ela esfregou a orelha com uma mão, e sua palma estava vermelha de sangue quando ela a abaixou. Quando o pastor alemão se aproximou dela, ela pôs a mesma mão em sua cabeça. Os outros dois cães foram para perto dela, como se pudessem protegê-la, mas sua atenção estava fixada inteiramente em mim e em Brian.

Quando uns bons segundos se passaram e Bitch não fez nenhuma menção de me atacar, mandei uma instrução para o enxame se dispersar. Pude ver Brian relaxar visivelmente enquanto eles sumiam pelas frestas.

“Nada de brigas,” ele disse, com a voz mais calma, “Estou falando com você, Rachel. Você mereceu o que a Taylor te fez.”

Ela o encarou, tossiu uma vez, e olhou para os outros dois antes de virar seu olhar raivoso para o chão.

“Taylor, senta aqui. Eu prometo que nós-”

“Não,” o interrompi, “Foda-se. Vão se foder.”

“Taylor-”

“Vocês disseram que ela não tava de boas comigo no grupo. Nunca disseram que ela estava puta o suficiente pra tentar me matar.”

Bitch e Brian começaram a falar ao mesmo tempo, mas Brian parou quando ela começou a tossir. Quando a tosse foi embora, Bitch olhou para mim e rosnou, “Se eu tivesse mandado te matar, Brutus ia ter rasgado a sua garganta antes de você conseguir gritar. Eu mandei machucar.”

Ri um pouco, só um pouco mais agudo do que eu gostaria, “Isso é ótimo. Ela tem seus cães treinados para machucar pessoas. Sério? Vão se foder. Contem isso como mais um recrutamento fracassado.”

Me dirigi para a escada, mas não pude dar dois passos antes de a cortina negra aparecer de novo, bloqueando meu caminho. Os poderes de Brian na wiki estavam listados como geração de escuridão. Eu sabia onde a escada e o corrimão estavam, então pus a mão na minha frente para me assegurar de que não ia dar com a cara num campo de força opaco, e ao descobrir que era mais parecido com fumaça, continuei meu caminho. Ao entrar na área, a escuridão serpenteou sobre minha pele, oleosa e com uma consistência esquisita. Combinado com a total ausência de luz que me impedia de saber se meus olhos estavam abertos ou fechados, era horrível.

Quando minhas mãos entraram em contato com o corrimão, um par de mãos tocou meus ombros. Me girei e o afastei de mim, minha voz alta enquanto eu gritei, “Me deixa!”

Só que as palavras quase não me alcançaram. O som ecoou como se viesse de um lugar distante, e era vazio de um jeito que me fez pensar em alguém gritando do fundo de um poço profundo. A escuridão não bloqueava apenas a luz. Engolia sons também. Eu tinha largado o corrimão ao me virar para a pessoa na escuridão, e tive um momento de pânico ao descobrir que eu não sabia mais onde a escada estava. A textura da escuridão era inconsistente, deixando difícil identificar meus movimentos. Me lembrei da sensação de se estar embaixo d’água e perder a noção de em qual direção ficava a superfície. Eu sabia onde era pra cima, claro, mas era isso.

Privação sensorial. Quando essas duas palavras me vieram à mente, relaxei um pouco. O poder de Brian bagunçava seus sentidos… Visão, audição, tato. Eu não estava limitada a eles. Usando meu poder, identifiquei onde todos os insetos do loft e da fábrica de baixo estavam. Usando-os para me localizar como um marinheiro usaria as constelações, deduzi onde a escada deveria estar e achei o corrimão. As mãos não me agarraram novamente, então corri para baixo, descendo a escada e saindo da escuridão opressiva.

Eu estava a alguns passos da porta quando Brian me chamou, “Taylor!”

Quando me virei para vê-lo, vi que ele estava sozinho.

“Vai usar seu poder em mim de novo?” perguntei, alerta, com raiva.

“Não. Não aqui fora, não sem uniforme, e não em você. Foi burrice minha fazer isso antes. Eu não estava pensando, eu só queria te impedir de fugir. Mal consigo perceber que está lá, então esqueço como isso pode afetar as outras pessoas.”

Comecei a me virar, pronta para sair andando, mas Brian deu um passo rápido em minha direção, e eu parei.

Brian tentou de novo, “Olha, desculpa. Por ter usado meu poder em você, pela Bitch.”

O cortei antes de ele falar maos alguma coisa, “Você não tem que se preocupar. Não vou contar pra ninguém o que vocês me mostraram hoje, e não vou atacar vocês se eu encontrá-los de uniforme. Eu to puta, mas não tão puta.” Não tenho certeza de quanto daquilo era mentira, mas pareceu a coisa certa a dizer.

Quando ele não disse nada em resposta, adicionei, “Vocês me ofereceram uma escolha. Eu podia pegar o dinheiro e ir embora, ou me juntar a vocês. Me deixe mudar de ideia. Depois do que a sua colega acabou de fazer, vocês me devem ao menos isso.”

“Se dependesse de mim, eu tirava a Bitch do grupo e ficava com você,” Brian falou.

Suas palavras foram como um balde de água na minha cara, me acordando. Eu tava puta, furiosa, e por quê? Porque estava me sentindo traída e desapontada. A ironia disso, dada minha razão para estar lá, não me passou despercebida. Eu não teria me sentido desapontada ou traída se eu não gostasse da companhia deles. Aqui estava Brian, expressando sentimentos parecidos do outro lado das coisas.

Respirei fundo. Adivinhei, “Mas você não pode?”

“É complicado. Por mais que eu queira você no grupo, dependemos do chefe para as mesadas, informações, equipamento e garantia de qualquer coisa que roubarmos. Contamos com a Bitch pra chegar com o peso pesado. Perderíamos tudo isso se a tirássemos do grupo.”

“Eu virei uma-” eu quase disse super heroína, “capa pra fugir dessa merda, de babacas como a Bitch.” Também tinha o fato de que a Tattletale me assustava, mas eu não podia dizer isso em voz alta.

“Volte pra dentro, Taylor. Por favor. Eu pessoalmente te garanto que não vou deixar ela fazer outra coisa assim ou eu saio do grupo. Você está machucada, sangrando, suas roupas estão rasgadas, e você deixou sua mochila com o dinheiro lá em cima. Eu sou treinado em primeiros socorros. Pelo menos deixa a gente te ajudar com isso, te dar umas roupas novas.”

Olhei para meu braço. Minha mão direita agarrava meu outro pulso, e havia sangue na manga do meu moletom. E meu uniforme ainda estava lá em cima? Que merda.

“Tá bom,” suspirei, “Mas só pra você saber, só estou voltando porque ela não quer que eu volte. Se eu desistir, ela vai achar que ganhou. Ganhou é o caralho.”

Brian sorriu e abriu a porta pra mim, “Se é o que tem pra hoje.”

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Insinuação 2.7

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Quando aceitei me juntar aos Desajustados, houve uma pequena comemoração com alguns vivas. Me senti um pouco culpada, por estar usando de subterfúgios. Também me senti contente comigo mesma, irracionalmente.

“Para onde vamos daqui?” Lisa perguntou para o Brian.

“Não tenho certeza,” disse Brian, “Não é como se já tivéssemos feito isso antes. Acho que devíamos deixar a Rachel sabendo, mas ela disse que talvez fosse trabalhar hoje.”

“Se a garota nova estiver de boa com isso, podemos ir pro apê,” Lisa sugeriu, “Ver se a Rachel está lá, celebrar a nova recruta e atualizá-la com o que ela precisar saber.”

“Pode ser,” eu disse.

“É só a algumas quadras daqui,” disse Brian, “Mas a gente vai chamar muita atenção se você for de uniforme.”

Encarei ele por um momento, não querendo entender o que ele tinha dito. Se eu demorasse demais pra responder, me toquei, arruinaria esse plano antes de ele sequer começar direito. De qualquer forma, eu queria me bater. É claro que isso ia acontecer. Me juntar ao grupo significava que eu teria que expor minha identidade, já que eles já tinham exposto as deles. Até que eu o fizesse, eles não poderiam confiar seus segredos a mim.

Eu podia culpar minha lerdeza de pensamento no pouco sono que eu havia conseguido na noite passada ou nas distrações do meu dia, mas isso não mudava os fatos. Eu havia me encurralado.

“Tá bom,” eu disse, soando mais calma do que eu me sentia. “Esse uniforme é meio desconfortável por baixo de roupas. Se eu pudesse ter um pouco de privacidade?”

“Você quer um beco, ou…” Lisa perguntou, sem completar a frase.

“Vou me trocar aqui, só vai levar um minuto,” eu disse, num impulso, olhando em volta. A maioria dos prédios da rua tinha um ou dois andares, os únicos que eram mais altos do que este em que estávamos ficavam a meia quadra de distância, além do prédio vizinho. Ele não tinha janelas com um ângulo que permitisse me ver, e eu duvidava que alguém mais longe fosse ver mais do que uma pessoinha de cinco centímetros de altura. Se alguém pudesse me ver trocando de roupa e enxergar detalhes o suficiente para me identificar, eu ficaria surpresa.

Enquanto eles três desciam pela saída de incêndio, tirei as roupas que eu tinha enfiado na mochila. Fora os pedaços de armadura, meu uniforme era basicamente uma coisa só, com as exceções da máscara e do cinto. Mantive a máscara enquanto tirava o cinto e a parte principal do uniforme. Eu não estava pelada – estava usando regata e bermuda pretas por baixo, para não passar frio. Seda não é o melhor isolante térmico do mundo. Vesti as calças e o moletom, esfregando os braços para espantar o frio. Guardei o uniforme e a lancheira plástica na mochila.

Senti o arrependimento por não ter escolhido roupas melhores para usar do que um moletom largo e jeans que eram grandes demais pra mim. Este arrependimento logo se transformou numa pontada de ansiedade. O que eles pensariam quando vissem a eu de verdade? Brian e Alec eram rapazes atraentes, ambos bonitos, de jeitos bem diferentes. Lisa, na escala entre normal e bonita, estava mais pro lado de bonita. Já o meu nível de beleza, por outro lado, me colocava em algum lugar entre ‘nerd’ e ‘normal’. Minha opinião de onde eu estava nessa escala variava de acordo com o humor que eu estivesse quando me olhasse no espelho. Essas pessoas eram legais, descoladas, assertivas. Eu era… eu.

Parei de pensar nisso antes que começasse a surtar. Eu não era a Taylor velha de sempre, aqui. Aqui e agora, eu era a garota que havia posto Lung no hospital, mesmo que acidentalmente. Eu era a garota que iria se infiltrar para conseguir os detalhes sobre uma gangue particularmente persistente de super vilões. Eu era, até conseguir um nome melhor, Bichinho, a garota que os Desajustados queriam no seu time.

Se eu dissesse que desci a saída de incêndio cheia de energia e ânimo renovado, estaria mentindo. Mesmo assim, eu estava animada o suficiente para descer a escada, ainda com a máscara, o uniforme guardado. Houveram alguns segundos aterrorizantes em que fiquei meio cega, os traços de seus rostos meras manchas borradas, antes de colocar os óculos que eu trazia na mochila.

“Oi,” eu disse, sem graça, arrumando o cabelo com as mãos, “Acho que não daria certo vocês ficarem me chamando de Bichinho ou garota nova. Eu sou a Taylor.”

Usar meu nome real era um grande risco para mim. Fiquei com medo de ser mais uma coisa que me daria vontade de me bater dali a cinco minutos, assim como perceber que teria que tirar o uniforme. Me acalmei, usando a lógica para me lembrar de que eu já estava nessa por completo. Ser honesta com meu nome bem que poderia salvar o meu couro, se um deles decidisse pesquisar um pouco sobre mim, ou se eu encontrasse alguém conhecido enquanto estivesse com eles. Eu achei que, quando tudo isso acabasse, talvez eu pudesse pedir um favor para que alguém como o Armsmaster evitasse eles vazarem meu nome real. Não era impossível, dado o nível de segurança que algumas prisões tinham para parahumanos criminosos. De qualquer forma, eu daria um jeito quando precisasse.

Alec girou levemente os olhos ao ouvir minha introdução, Brian só sorriu. Lisa, no entanto, me envolveu com um braço, tipo um abraço com um braço só. Ela era um pouco mais velha que eu, e era bem da altura certa para fazer isso. O que me pegou de surpresa foi como eu gostei do abraço. Como se eu estivesse precisando de um (vindo de alguém que não fosse o meu pai) há muito tempo.

Andamos para o meio das Docas como um grupo. Mesmo que eu tenha vivido na periferia a vida toda, e que a maioria das pessoas afirmasse que a parte da cidade onde eu morava fazia parte das ‘Docas’, eu nunca tinha ido para as áreas que davam a esse bairro sua reputação ruim. Digo, se eu não contasse a noite passada, quando estava escuro.

Não era uma área bem cuidada, e meio que dava a impressão de uma cidade fantasma, ou como uma cidade seria se uma guerra ou um desastre natural forçasse as pessoas a abandoná-la por alguns anos. Grama e mato cresciam entre as rachaduras da calçada, a rua tinha buracos tão grandes que dava pra esconder um carro dentro deles, os prédios todos com a tinta descascando, vigas enferrujadas e argamassa rachada. As cores desbotadas dos prédios contrastavam com as pichações vívidas. Passando pelo que antes havia sido uma rua principal para os caminhões que descarregavam nos depósitos e docas, vi uma fileira de postes sem fios entre eles. Em algum momento ervas daninhas haviam se alastrado por toda a altura dos postes, apenas para murchar e morrer. Agora cada um dos postes tinha uma bagunça marrom de plantas mortas penduradas neles.

Tinha pessoas também, embora não muitas estivessem passeando na rua. Haviam aquelas que já se esperavam, como uma mendiga com um carrinho de supermercado e um idoso sem camisa com a barba quase nos quadris, catando latinhas e garrafas de uma lixeira. Haviam outras que me surpreenderam. Vi uma mulher que parecia surpreendentemente normal, com roupas que não estavam velhas o suficiente para chamar atenção, levando quatro crianças quase idênticas para uma fábrica com uma placa desbotada. Me perguntei se eles estariam vivendo lá ou se ela trabalhava ali e simplesmente não tinha onde deixar suas crianças. Passamos por um jovem artista com sua namorada, sentados na calçada com pinturas à sua volta. A garota acenou para Lisa quando passamos, e Lisa acenou de volta.

Nosso destino era uma fábrica de tijolos vermelhos com uma porta de metal enorme trancada com correntes. Ambas as correntes e a porta estavam tão enferrujadas que não achei que seriam muito úteis. O tamanho da porta e a largura da garagem me fizeram pensar que caminhões grandes ou barcos pequenos costumavam entrar na fábrica por ali quando ela funcionava. O prédio em si era enorme, cobrindo quase metade da quadra, com dois ou três andares. O fundo da placa acima da porta havia desbotado de vermelho para um rosa-alaranjado claro, mas ainda dava pra ler as letras brancas dizendo ‘Soldas Redmond’.

Brian abriu para nós uma porta pequena na lateral do prédio, ao invés da porta enorme e enferrujada. O interior era escuro, iluminado apenas por fileiras de janelas empoeiradas perto do teto. Pude ver o que haviam sido máquinas gigantes e esteiras antes de terem sido reduzidas a seus esqueletos. Lençóis cobriam a maioria dos restos vazios e enferrujados. Vendo as teias de aranha, usei meu poder e senti a presença dos insetos. Ninguém havia feito nada aqui por um bom tempo.

“Vamos,” Brian me apressou. Olhei para trás e vi que ele estava na metade de uma escada em espiral que subia para um canto. Fui atrás dele.

Depois da desolação do primeiro piso, ver o segundo andar foi um choque. Era um loft (N.T.: um tipo de apartamento), e o contraste era alarmante. As paredes do lado de fora eram tijolos vermelhos, e não havia teto além do telhado e um esqueleto de metal para suporte. Em termos de área, o loft parecia ter três seções, embora fosse difícil ter certeza por causa do layout aberto.

A escada levava ao que eu chamaria de sala de estar, embora só esse cômodo já fosse mais ou menos do tamanho do andar de baixo inteiro da minha casa. O espaço era dividido por dois sofás, posicionados a noventa graus um do outro, ambos de frente para uma mesinha de centro e uma das maiores televisões que eu já tinha visto. Embaixo da televisão tinha uma meia dúzia de consoles de videogame, um DVD player e umas duas máquinas que eu não reconheci. Alto-falantes maiores do que as TVs que eu e meu pai tínhamos em casa ficavam de ambos os lados disso tudo. Atrás dos sofás haviam mesas, um espaço aberto com tapetes e estantes encostadas nas paredes. As estantes estavam cheias só pela metade com livros e revistas, com o resto do espaço tomado por coisas e trecos, desde um pé de sapato até velas.

A segunda seção eram aparentemente quartos. Só que era difícil pensar neles com essa palavra, porque eles eram mais tipo cubículos, três em cada parede com um corredor entre eles. Eles tinham um bom tamanho, e haviam seis portas, mas as paredes de cada quarto tinham só uns três metros de altura, não chegando até o teto. Três das portas tinham sido grafitadas. A primeira porta tinha uma coroa feita num estilo dramático. A segunda tinha a silhueta branca de um homem e uma mulher num fundo azul, imitando os sinais comuns de banheiro feminino e masculino. A terceira tinha o rosto de uma garota fazendo bico. Me perguntei qual seria a história, ali.

“Arte legal,” eu disse, apontando para a porta com a coroa, me sentindo meio boba por falar uma coisa dessas logo de cara.

“Valeu,” respondeu Alec. Acho que isso queria dizer que o trabalho era dele.

Olhei em volta por mais um momento. Lá no fundo do loft, a última das três seções tinha uma mesa grande e uns armários. Embora eu não pudesse ver muito bem, a não ser que eu atravessasse o loft, deduzi que aquilo era a cozinha.

Por todo o lugar, havia bagunça. Me senti quase grossa por ter reparado, mas tinham caixas de pizza empilhadas numa das mesas, dois pratos sujos na mesinha de centro, e algumas roupas jogadas num dos sofás. Vi latinhas de refrigerante – ou talvez de cerveja – arrumadas numa pirâmide na mesa da cozinha. Não era bagunçado o suficiente que fosse meio ofensivo, no entanto. Era uma bagunça significativa, como se dissesse, ‘Este é o nosso espaço.’ Nada de supervisão adulta.

“Estou com inveja,” admiti, sendo honesta.

“Nerd,” Alec disse, “Inveja do quê?”

“Eu quis dizer que é maneiro,” protestei, meio na defensiva.

Lisa falou antes que Alec pudesse responder, “Acho que o que o Alec quer dizer é que esse lugar é seu também. Esse é o nosso espaço, do grupo, e você é um membro do grupo, agora.”

“Ah,” eu disse, me sentindo burra. Lisa e Alec foram para a sala de estar, enquanto Brian foi andando até a cozinha. Quando Lisa me chamou com um gesto, a segui. Alec se deitou, tomando um sofá inteiro com isso, então me sentei do outro lado do sofá onde estava Lisa.

“Os quartos,” disse Lisa, “Do lado de lá, do mais perto para o mais longe, o do Alec, o banheiro, o meu.” Isso significava que o quarto de Alec era o da coroa, e o de Lisa era o da menina fazendo bico. Ela continuou, “Do lado de cá, quarto da Rachel, quarto dos cachorros da Rachel, e o quarto da bagunça.”

Lisa pausou, olhou para Alec e perguntou, “Você acha que ela-”

“Dãã,” Alec a cortou.

“O que?”, perguntei, meio perdida.

“Nós vamos limpar o quarto da bagunça,” Lisa decidiu, “Para que você tenha um quarto.”

Fui pega de surpresa. “Vocês não tem que fazer isso,” eu disse, “Eu tenho onde ficar.”

Lisa fez uma careta, quase que de dor. Ela me perguntou, “Podemos fazer isso, mesmo assim? Seria muito melhor se você tivesse seu próprio espaço aqui.”

Eu devi ter parecido confusa, porque Alec explicou, “Brian tem um apartamento, e foi bastante firme em não precisar ou querer um quarto aqui, mas ele e Lisa discutem o tempo todo por causa disso. Ele não tem outro lugar pra dormir, fora o sofá, se ele se machucar e não puder voltar pra casa, e não tem lugar pra deixar suas coisas, então elas acabam ficando por todo o lugar. Pegue o quarto. Você nos faria um favor.”

“Tá bom,” eu disse. Adicionei, “Obrigada, tanto pela explicação quanto pelo quarto em si.”

“Da última vez que ele encontrou a Shadow Stalker, voltou pra cá e sangrou um monte no sofá branco,” grunhiu Lisa, “um sofá de novecentos dólares, e tivemos que comprar um novo.”

“A porra da Shadow Stalker,” concordou Alec.

Brian voltou do outro lado do loft, falando alto para ser ouvido de longe, “Rachel não está aqui, nem os cachorros. Ela deve estar levando eles pra passear ou trabalhando. Droga. Fico estressado quando ela está fora.” Ele se aproximou dos sofás e viu Alec deitado em um.

“Tira as pernas daí,” Brian disse a ele.

“Tô cansado. Senta no outro sofá,” Alec falou, cobrindo a cara com um braço.

Brian olhou para Lisa e eu, e Lisa foi mais pro lado para abrir espaço. Brian olhou feio para Alec e então sentou-se entre nós. Mudei de posição e sentei em cima de uma das pernas para abrir espaço também.

“Então,” Brian explicou, “O negócio é esse. Dois mil por mês, só pra ser um membro do grupo. Isso quer dizer que você ajuda a decidir quais trabalhos a gente faz, você vai junto fazer os trabalhos, você fica ativa, e fica disponível se ligarmos pra você.”

“Eu não tenho celular,” admiti.

“A gente te arranja um,” ele disse, como se não fosse a menor preocupação. Provavelmente não era, mesmo. “Geralmente a gente consegue de uns dez a trinta e cinco mil por trabalho. Isso é dividido por quatro – por cinco, agora que você entrou.”

Assenti, e exalei devagar. “Não é pouca coisa.”

Brian acenou com a cabeça, um sorrisinho brincalhão nos lábios, “Não. Agora, quanto você sabe, sobre o que vamos enfrentar?”

Pisquei algumas vezes, e chutei, “Sobre as capas locais? Pesquisei online, li religiosamente as revistas de capas por alguns anos, um pouco mais desde que ganhei meus poderes – mas sei lá. Se eu aprendi alguma coisa nas últimas vinte e quatro horas, foi que tem muita coisa que eu não sei, e só vou descobrir do jeito difícil.”

Brian sorriu. Tipo, sorriu de verdade. Me fez pensar mais em um menino do que em um homem quase adulto. Ele respondeu, “A maioria não aprende nem isso, sabe? Vou tentar compartilhar o que sei, pra você não ser pega de surpresa, mas não tenha medo de perguntar sobre qualquer dúvida que você tenha, ok?”

Concordei, e seu sorriso aumentou. Ele disse, com uma risada tranquila, “Você não tem noção de como é um alívio saber que você leva essas coisas a sério, já que certas pessoas -” ele parou para se inclinar e chutar o lado do sofá onde Alec estava deitado, “- precisam ter o braço torcido pra ouvir alguma coisa, e outras pessoas,” ele apontou para o lado com o dedão, “acham que sabem tudo.”

“Mas eu sei tudo,” disse Lisa. “É o meu poder.”

“O quê?” eu disse, interrompendo Brian. Meu coração acelerou, mesmo que não estivesse exatamente relaxado pra começo de conversa. “Você é onisciente?”

Lisa riu, “Não, não. Mas eu sei coisas. Meu poder me conta elas.”

Engolindo em seco, esperando não estar chamando atenção por fazer isso, perguntei, “Tipo o que?” Tipo por que eu estava me juntando a eles?

Lisa sentou-se mais para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos, “Tipo como eu sabia que você estava na biblioteca quando mandei as mensagens. Se eu estivesse afim disso, e soubesse como, eu poderia ter descoberto entrando no banco de dados do site e procurando os logs para achar o endereço de onde você havia se conectado, mas meu poder me deixa pular esse passo assim.” Ela estalou os dedos.

“E por que exatamente você mencionou que sabia onde ela estava?” Brian perguntou, sua voz um pouco calma demais.

“Eu queria ver a reação dela. Zoar ela um pouquinho,” Lisa sorriu.

“Puta que p-” Brian começou, mas Lisa fez um gesto de descaso.

“Estou falando com a novata,” ela disse, “Grite comigo depois.”

Não dando a ele uma chance de responder, ela se virou para mim e explicou, “Meu poder preenche as lacunas do meu conhecimento. Eu geralmente preciso de alguma informação e partir dali, mas posso usar os detalhes que o meu poder me fornece para descobrir mais coisas, e tudo meio que se encaixa, me dando um fluxo estável de informações.”

Engoli em seco de novo, “E você sabia que uma capa estava vindo noite passada?”

“É,” ela disse, “Pode chamar isso de um chute calculado.”

“E é assim que você sabia as coisas que aconteceram no QGP?”

O sorriso de Lisa aumentou, “Tenho que admitir que trapaceei com isso. Descobrir senhas é bem fácil com meu poder. Eu dou uma olhada nos arquivos do QGP, e assisto um pouco de reality TV (N.T.: como reality shows) nas suas câmeras de segurança quando estou entediada. É útil não apenas para descobrir a roupa suja com o que vejo, ouço e leio, mas meu poder preenche os detalhes em coisas como mudanças na rotina deles e como são as relações entre os grupos em geral.”

Encarei ela, uma boa parte de mim horrorizada por eu ter me metido numa infiltração num grupo com uma garota com uma super intuição.

Interpretando meu silêncio como admiração, ela sorriu seu sorriso vulpino, “Não é tão incrível assim. Eu realmente me dou melhor com coisas concretas. Onde coisas estão, horários, criptografia, bla bla bla. Eu sei ler mudanças de linguagem corporal e rotina, mas é menos confiável e meio que um saco. Já tenho informação demais sem isso, entende?”

Eu entendia, sua explicação ecoando meus próprios pensamentos sobre minha habilidade de ver e ouvir coisas pelos meus insetos. Mesmo assim, suas palavras não me fizeram sentir muito melhor.

“E,” disse Brian, ainda olhando feio para Lisa, “mesmo que ela saiba um monte de coisas, isso não quer dizer que a Lisa não possa ser uma anta às vezes.”

Lisa socou o braço dele.

“Então, quais são seus poderes?” perguntei a Brian e Alec, querendo mudar de assunto.

Eles não tiveram chance de responder. Ouvi latidos do andar de baixo. Em questão de segundos eu estava em pé, a três passos do sofá. Três cães, rosnando, haviam me encurralado contra a parede, baba voando enquanto suas bocas escancaradas mostravam os dentes, tentando morder meu rosto e minhas mãos.

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Insinuação 2.6

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Apareci de uniforme. Eu não dava a mínima se eles achassem que eu estava sendo grossa ou paranóica, eu achava melhor estar à prova de facadas do que ser legal.

Eu havia pegado um ônibus da biblioteca para a minha casa e vestido o uniforme por baixo das roupas. A maior parte da armadura do meu uniforme eram pedaços separados, seguros por faixas que iam por dentro do tecido do uniforme. Nem todos eram, no entanto. Eu havia feito um pouco da armadura parte do bodysuit, seções finas e rígidas de armadura em locais como o centro do peito, costas, canelas, pulsos, quadris e em cima dos ombros; para que, quando eu vestisse os pedaços maiores, a textura da parte de dentro da armadura fizesse os pedaços se encaixarem e impedisse que eles saíssem do lugar. Me olhei no espelho antes de sair, e não achei que alguém ia notar a não ser que eu fizesse uma pose estranha e a pessoa estivesse prestando bastante atenção no que eu estava vestindo. Pus roupas largas por cima do uniforme, um dos meus jeans mais soltos e um moletom, e mesmo assim não me senti muito discreta.

Me troquei do mesmo jeito que o tinha feito na noite passada, encontrando uma viela deserta, rapidamente colocando a máscara, tirando as roupas que eu usava por cima e as colocando dentro de uma mochila velha do meu pai. Eu tinha escondido a mochila antes de sair patrulhando ontem à noite, mas hoje optei por levá-la comigo. Saí pelo outro lado da rua.

Quando eu estava a uma distância curta do local da luta de noite passada, mandei uma dúzia de moscas para pesquisar o terreno. Me foquei no que elas estavam sentindo.

Insetos, provavelmente nem preciso dizer isso, sentem as coisas de um jeito muito diferente do nosso. Mais do que isso, eles sentem e processam as coisas numa velocidade muito diferente. O resultado era de que os sinais que meu poder conseguia traduzir e me mandar de uma maneira que o meu cérebro pudesse entender vinham enfraquecidos. Informação visual vinha como manchas de tinta num monotom de claro e escuro, alternando entre embaçadas demais e nítidas demais. Sons eram quase dolorosos de se ouvir, se transformando em vibrações de baixo que distorciam minha visão e ruídos agudos que se pareciam com unhas arranhando um quadro negro. Multiplique isso por cem, mil, dez mil, e era demais. Quando meu poder era novo para mim, eu não conseguia desligá-lo. A overdose de sentidos nunca realmente me machucou, mesmo nos piores momentos, mas me deixava muito miserável. Agora, eu mantinha aquela parte do meu poder desligada noventa e nove porcento do tempo.

Meu método preferido de sentir com os insetos era o toque. Não é como se o tato deles fosse traduzido muito melhor do que a audição ou a visão, tinha mais a ver com o fato de que eu podia sentir onde eles estavam em relação a mim. Eu tinha total noção de quando eles estavam bem quietinhos, se estavam se mexendo, ou se alguma coisa estava movimentando eles. Aquilo era uma coisa que se traduzia bem.

Então, quando mandei os bichinhos pesquisarem, primeiro os doze pares de olhos compostos identificaram o trio como silhuetas borradas em cima de uma sombra maior e mais definida, iluminados por trás por um foco de luz branca que só podia ser o sol. Mandei as moscas mais perto, em direção às ‘cabeças’ das figuras, e elas aterrissaram em pele. Nenhum dos três estava de máscara, o que me deu motivos para acreditar que Tattletale estivera falando a verdade. Eles não estavam de uniforme. Não haviam garantias de que os três eram mesmo Tattletale, Grue e Regent, mas me senti confiante o suficiente para dar a volta na saída de incêndio e subir no telhado.

Eram eles, sem dúvidas. Os reconheci mesmo sem os uniformes. Dois rapazes e uma moça. A moça tinha seu cabelo loiro escuro preso numa trança, um punhado de sardas espalhadas pelo nariz e bochechas e o mesmo sorriso vulpino que reconheci da noite anterior. Ela usava uma camiseta de manga comprida preta com um desenho estilizado e uma saia jeans na altura dos joelhos. Fui tomada de surpresa pelo verde fundo-de-garrafa de seus olhos.

O menor e mais novo dos dois rapazes – por volta da minha idade – era com certeza Regent. Reconheci os cachos pretos. Ele era um cara atraente, mas não de um jeito que me faria dizer que ele era lindo. Ele era bonitinho, com um rosto triangular, pele clara, olhos azuis e lábios cheios virados numa leve expressão de desagrado. Ele me parecia ter ascendência francesa ou italiana. Dava pra imaginar as garotas caindo em cima dele, mas eu não estaria interessada. Os moços bonitinhos – Leonardo DiCaprio, Marcus Firth, Justin Bieber, Johnny Depp – nunca chamavam a minha atenção. Ele estava usando uma jaqueta branca com capuz, jeans e tênis, de pé na borda do telhado, uma garrafa de coca na mão.

Em contraste, Grue tinha uma aparência surpreendente. Pelo menos uns vinte centímetros mais alto que eu, Grue tinha a pele escura, cornrows (N.T.: um tipo de penteado) na altura dos ombros e aquela mandíbula masculina que geralmente era associada com super heróis homens. Ele estava de jeans, botas e uma camiseta verde lisa, que me pareceu um pouco fria para a primavera. Eu notei que ele tinha uma definição muscular considerável em seus braços. Esse era um cara que malhava.

“E ela chegou,” Tattletale anunciou, “Pode pagar.”

A careta mau-humorada de Regent se pronunciou por um segundo, e ele pegou em seu bolso um maço de notas, que entregou para Tattletale.

“Vocês apostaram se eu ia vir ou não?” eu adivinhei.

“Apostamos se você viria de uniforme,” Tattletale me disse. Em seguida, mais para o Regent do que para mim, falou, “e eu ganhei.”

“De novo,” murmurou Regent.

“Culpa sua por ter apostado, pra começo de conversa,” disse Grue, “Mesmo se não fosse a Tattle, era uma aposta inútil. Aparecer com uniforme faz sentido demais. É o que eu faria.” Ele tinha uma voz bacana. Era uma voz adulta, mesmo que sua aparência me desse a impressão de um rapaz no final da adolescência.

Ele estendeu a mão para mim, “Oi, eu sou Brian.”

Apertei sua mão, e ele não teve vergonha de apertar firme. Eu disse, “Podem me chamar de Bichinho, acho. Pelo menos até eu achar um nome melhor, ou até eu ter certeza de que isso não é um truque ardiloso.”

Ele deu de ombros, “Ok.” Não havia o menor sinal de ele ter ficado ofendido com a minha desconfiança. Eu quase me senti mal.

“Lisa,” Tattletale se introduziu. Ela não me ofereceu um aperto de mão, mas acho que teria sido estranho se ela tivesse oferecido. Não que ela não parecesse amigável, mas ela não tinha a mesma aura de bacanisse que o Grue tinha.

“Meu nome é Alec,” Regent me informou, com uma voz quieta, e completou, “E a Bitch é Rachel.”

“Rachel não quis vir hoje,” disse Grue, “Ela não concordou com o nosso objetivo aqui.”

“O que nos traz a questão,” cortei, “Qual é o objetivo aqui? Estou estranhando vocês revelarem suas identidades secretas assim, ou fingirem estar fazendo isso.”

“Desculpe,” Grue… Brian se desculpou, “Isso foi ideia minha. Achei que seria legal mostrar confiança.”

Por trás das lentes amarelas da minha máscara, meus olhos se estreitaram, indo de Lisa para Alec para Brian. Não consegui decifrar nada em suas expressões.

“Por que, exatamente, vocês precisam da minha confiança?”

Brian abriu a boca, e a fechou. Olhou para Lisa, que se abaixou e pegou uma lancheira de plástico. Ela a ergueu para mim.

“Eu disse que a gente te devia uma. Todo seu, sem compromissos.”

Sem pegar a lancheira, virei a cabeça para ver melhor a imagem, “Alexandria. Ela era a minha membro preferida do Protetorado quando eu era criança. A lancheira é colecionável?”

“Abra,” sugeriu Lisa, girando os olhos.

Peguei a lancheira. Pelo peso e por como o conteúdo se mexia, imediatamente saquei o que era. Abri a lancheira.

“Dinheiro,” respirei fundo, abobada por ganhar tanto assim de repente. Oito maços de notas, envoltos por faixas de papel. Cada uma tinha um número escrito com canetinha. Duzentos e cinquenta cada…

Lisa respondeu antes de eu somar de cabeça, “Dois mil.”

Fechei a lancheira. Sem a menor ideia do que falar, me mantive em silêncio.

“Você tem duas opções,” explicou Lisa, “Pode aceitar isso como um presente. Um obrigado por, intencionalmente ou não, salvar nossa pele do Lung noite passada. E talvez um incentivozinho para contar a gente como seus amigos quando for sair de uniforme pra fazer suas traquinagens.”

Seu sorriso aumentou, como se ela tivesse dito algo que achou engraçado. Talvez fosse a ironia de uma vilã dizendo “traquinagens”, ou como a frase soava brega. Ela continuou, “Entre disputas territoriais, diferenças ideológicas, e discrepâncias de egos e poderes em geral, são raras as pessoas na comunidade vilã que não nos atacam à primeira vista.”

“E a segunda opção?” perguntei.

“Você pode aceitar isso como seu primeiro pagamento da mensalidade que ganharia como membro dos Desajustados,” Brian falou, “Como uma de nós.”

Fiquei olhando os três de um para o outro, procurando a piada. Lisa ainda tinha um sorrisinho na cara, mas eu estava começando a ver aquilo como sua expressão normal de sempre. Alec parecia meio entediado. Brian estava bem sério. Caramba.

“Dois mil por mês,” eu disse.

“Não,” Brian me cortou, “Isso é só o que o chefe paga pra gente continuar juntos e ativos. Nós ganhamos, hã, um bom tanto além disso.”

Lisa estampou um sorriso malandro na cara, e Alec riu um pouquinho ao chacoalhar sua garrafa de coca. Anotei mentalmente essa menção a um ‘chefe’.

Não querendo mudar de assunto, me apressei em repassar mentalmente a conversa toda, agora ciente do contexto de uma oferta de ‘emprego’.

Perguntei, “Então Bitch não veio porque ela era contra o, er, recrutamento?”

“É,” disse Alec, “Fizemos uma votação, e ela disse não.”

“Em compensação, o resto de nós votou sim,” Brian completou rapidamente, olhando feio para Alec. “Ela vai aceitar. Ela sempre vota contra membros novos, porque não quer dividir o dinheiro por cinco.”

“Então vocês já fizeram esse negócio de recrutar antes,” concluí.

“Hã, sim,” Brian parecia meio envergonhado, esfregou a nuca, “A gente não se deu bem. Tentamos com a Spitfire, e ela fugiu assustada antes mesmo de oferecermos a vaga a ela. Nossa culpa, por ter levado a Bitch junto daquela vez.”

“E daí ela foi recrutada por outro grupo,” disse Alec.

“É,” Brian deu de ombros, “Ela foi laçada pela Faultline antes de a gente conseguir uma segunda chance. Fizemos uma oferta à Circus, também, e ela deixou bem claro que trabalha sozinha.”

“E aproveitou a chance pra me ensinar alguns xingamentos novos,” disse Alec.

“Ela foi bem expressiva sobre como segue carreira solo,” Brian admitiu.

“Então vocês estão dando um passo a mais, sem uniformes, mostrando confiança e uma grana extra logo de cara, pra eu me juntar a vocês,” eu disse, ao juntar as peças mentalmente.

“É, mais ou menos isso aí,” Brian concordou. “Agora, sem o Lung para chefiar a ADM, é certeza que vai ter um empurra-empurra com relação aos territórios das várias gangues e grupos daqui. Nós, a Galera da Faultline, o resto da ADM, o Império Oitenta e Oito, os vilões solo e quaisquer grupos ou gangues de fora da cidade afim de pegar um pedaço de Brockton Bay. Quando rolar isso, queremos ter músculos. Não estragamos nenhum trabalho até agora, mas do jeito que tá, nós três aqui achamos que é uma questão de tempo até a gente se meter numa luta que não podemos ganhar, com Bitch sendo a única que pode foder mesmo com alguém.”

“Só não entendo o que vocês querem comigo,” eu disse, “Eu controlo insetos. Isso não vai deter a Alexandria, a Glory Girl ou o Aegis.”

“Você fodeu legal o Lung,” Lisa deu de ombros ao dizer, “Tá bom pra mim.”

“Hã, na verdade não,” rebati, “Caso não tenham notado, vocês é que o impediram de me executar ontem à noite. Isso só prova o meu argumento.”

“Querida,” disse Lisa, “Grupos inteiros de capas lutaram contra o Lung e tiveram suas bundas chutadas. Ter conseguido o que você fez é fantástico. O fato de aquele cuzão estar numa cama de hospital por sua causa é só a cereja do bolo.”

Minha resposta travou antes mesmo de sair da minha boca. Só consegui um “Hein?”

“É,” Lisa ergueu uma sobrancelha, “Você sabe que bichos mandou picar ele, né? Viúva Negra, Aranha Marrom, Mariposa Marrom, Mildei, Formigas de Fogo-”

“É,” a cortei, “Eu não sei os nomes oficiais, mas eu sei exatamente o que mordeu ele, o que picou e o que os venenos fazem.”

“Então por que está surpresa? Um ou dois desses insetos seriam perigosos pra caralho se mordessem só uma vez, mas você fez eles morderem várias vezes. Pior ainda, quando Lung foi preso e foi examinado por médicos, o chefe idiota deles disse algo como, ‘Oh, bem, isso parece mesmo com mordidas e picadas de insetos, mas os venenosos de verdade não mordem mais de uma vez. Vamos combinar de checar de novo daqui a algumas horas’.”

Entendi onde aquilo ia dar. Tapei a boca com as mãos, deixando escapar um “Ai meu deus” baixinho.

Tattletale sorriu, mostrando os dentes. “Não acredito que você não sabia.”

“Mas ele se regenera!” protestei, tirando as mãos da boca, “Toxinas não deviam ter nem um porcento do efeito normal contra alguém que se cura como ele.”

“Têm efeito o suficiente, eu acho, ou a regeneração dele parou de funcionar em algum ponto,” Lisa me disse, “Pela hora em que foram vê-lo, o grandalhão estava começando a apresentar sinais de necrose de tecido em larga escala. Seu coração até parou algumas vezes. Você lembra bem onde mandou os bichinhos picarem?”

Fechei os olhos. Eu podia ver minha reputação indo pro fundo do poço. Uma das aranhas que eu estivera usando era a aranha marrom. Provavelmente a aranha mais perigosa dos Estados Unidos, mais até que a Viúva Negra. Uma picada da aranha marrom já fazia um bom pedaço de carne em volta da mordida apodrecer. Eu havia feito os bichinhos picarem Lung nas partes mais sensíveis de sua anatomia.

“Digamos que mesmo com a habilidade de se curar várias vezes mais rápido do que uma pessoa normal, Lung vai ter que se sentar para usar o banheiro.”

“Tá, isso basta,” Brian impediu Lisa de continuar, “Lung vai se recuperar, certo?”

Do jeito que o Brian estava olhando pra ela, achei que a Lisa fosse mentir, qualquer que fosse a verdade. Ela deu de ombros e me disse, “Ele já está se recuperando. Devagar, mas ele está indo, e deve estar em perfeitas condições em de seis meses a um ano.”

“É melhor você rezar pra ele não fugir,” Alec disse, sua voz ainda quieta mas com um tom divertido, “Porque se alguém fizesse meu homenzinho cair pra fora, eu ia ficar sanguinário.”

Brian beliscou o nariz dele, “Obrigado por isso, Alec. Do jeito que vocês dois estão, nossa recruta em potencial vai fugir num ataque de pânico antes da ideia de virar uma Desajustada sequer passar pela mente dela.”

“Como sabem disso?” perguntei, assim que o pensamento me passou pela cabeça. Quando Brian se virou para mim com uma cara como se ele pensasse ter me ofendido com alguma coisa, esclareci, “Tattletale, ou Lisa, ou o que quer que eu deva te chamar. Como você sabe essas coisas sobre o Lung… ou que eu estava na Biblioteca, ou que a capa estava vindo, noite passada?”

“Biblioteca?” Brian perguntou, olhando feio de novo para Lisa.

Ela ignorou a pergunta dele e piscou para mim, “Uma garota tem seus segredos.”

“Lisa é metade da razão de não termos falhado em nenhum trabalho ainda,” Alec disse.

“E nosso chefe é uma boa parte do resto,” ela completou sua frase.

“É o que vocês falam,” Brian resmungou, “Mas não vamos entrar nesse assunto.”

Lisa sorriu para mim, “Se você quiser saber, temo que os detalhes do que fazemos só vêm com a carteirinha de membro. O que eu posso te contar é que somos um grupo bom. Nosso histórico é top de linha, e fazemos isso por diversão e dinheiro. Nada de planos grandiosos. Nenhuma responsabilidade de verdade.”

Apertei os lábios, por trás da máscara. Embora eu tivesse conseguido informações, me senti como se eu tivesse muito mais perguntas. Quem era esse chefe deles? Estaria ele bancando outros grupos de vilões bem-sucedidos, em Brockton Bay ou onde quer que fosse? O que fazia desses caras tão eficientes, e será que eu poderia copiar ou roubar esse segredo?

Não era como se eu estivesse fazendo um pacto de sangue ou coisa parecida. Eu podia ganhar tanto com isso.

“Tá bom então, eu tô dentro,” disse a eles.

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Insinuação 2.5

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Se você olhasse para Brockton Bay como uma mistura de nata e escória, classe alta e classe baixa sem meio-termo, então o centro era uma das partes bacanas. As ruas e calçadas eram largas, e isso significava que, mesmo com arranha-céus em cada quarteirão, dava pra ver bem o azul do céu do chão.

Depois de minha fuga da escola, eu não tinha certeza do que fazer. Meu pai trabalhava com um horário maluco, então eu não podia passar a tarde em casa sem arriscar ter que explicar o que eu estava fazendo em casa num dia de aula. Eu também não queria ficar por perto da escola, então isso me deixava as opções de uma caminhada de meia hora até o centro ou uma ida ao Calçadão. Entre minhas corridas matinais e as escapadas de noite passada, eu estava enjoada do Calçadão, então decidi ir para o centro.

Eu não queria pensar na escola ou em Emma, então mudei meu foco para a mensagem recente de Tattletale. Ela queria se encontrar comigo, presumivelmente para pagar o favor que me devia. Considerei a possibilidade de ser uma armadilha, mas não conseguia imaginar porque seria uma. Ela simplesmente não tinha motivo nenhum pra me atacar. A pior possibilidade seria de que não era mesmo a Tattletale, mas eu não tinha tido essa impressão. O que ela disse na mensagem parecia fluir com o jeito dela na noite passada. Eu seria cuidadosa, de qualquer forma.

Era surpreendente. Esses caras eram, em grande parte, pessoas desconhecidas. Do pouco que eu sabia de Grue e Hellhound, eles eram vilões de meia tigela, se virando nos trinta. Agora ambos estavam num grupo que cometia crimes de alto nível e confundindo pessoas como o Armsmaster. Eles dois pareciam totalmente diferentes em metodologia e estilo, e, se eu não me engano, ambos eram de outra cidade antes de formar um grupo e ficar em Brockton Bay. Isso trazia a seguinte questão: o que ou quem havia juntado esses quatro indivíduos tão diferentes?

Era possível que Tattletale ou Regent fossem os fatores de união, mas eu não conseguia imaginar isso de verdade, tendo visto o que eu sabia de sua dinâmica em grupo. Grue havia tirado sarro de Regent ao invés de tê-lo tratado como um líder, e eu não tinha certeza do porquê, mas quanto mais eu imaginava Tattletale unindo aquele grupo de pessoas com poderes, menos fazia sentido. Na real, pensando no assunto, Grue não tinha dito que eles brigaram um monte ao discutir o que fazer quanto ao Lung? Não parecia que eles tinham qualquer liderança que se preze.

Não era difícil simpatizar com o Armsmaster. Todo esse cenário era bizarro, e ficava pior ainda por não haver praticamente nenhum detalhe quanto a quem Tattletale ou Regent eram. Informação, aparentemente, era um fator importante ao se lidar com capas.

As ruas estavam cheias com pessoas em horário de almoço. Trabalhadores e trabalhadoras de escritório estavam indo para restaurantes e lanchonetes. Meu estômago roncou quando passei por uma fila de pessoas esperando sua vez num carrinho de lanches. Chequei os bolsos e fiz uma careta ao perceber que não tinha o suficiente nem para um cachorro-quente. Meu almoço estava na minha mochila.

Me forcei a parar de pensar naquilo antes que eu piorasse ainda mais o meu humor pensando no que havia acontecido na escola. Ainda assim, enquanto eu voltava a pensar no círculo de vilões e na mensagem de Tattletale, o pensamento divertido que passou pela minha cabeça foi pedir a eles para me pagarem o favor me comprando um almoço. Não era um pensamento sério, mas a imagem mental ridícula – eu comendo um hambúrguer com um grupo de supervilões – pôs um sorriso bobo na minha cara. Eu tinha certeza que parecia uma idiota para qualquer pessoa que me visse na rua.

Pensando nisso, no entanto, a ideia de que eu poderia considerar aceitar a oferta de encontrar Tattletale não saía da minha cabeça. Quanto mais eu pensava sobre isso, mais assustadora a ideia me parecia, e mais sentido ela fazia.

E se eu aceitasse a oferta deles? Eu podia encontrá-los, conversar com eles, ver o que eles tinham pra oferecer e, ao mesmo tempo, coletar dados. Se eu conseguisse alguma coisa decente, poderia dar a informação para o Armsmaster para que ele a usasse contra eles. Indo pelo que ele tinha dito desses e considerando o pouco que se sabia sobre eles, seria um bom esquema para a galera do bem.

Ok, eles provavelmente veriam meu plano como uma traição monumental se e quando eu conseguisse por ele em prática. Eu faria inimigos. Mesmo assim, eu suspeitava que quando eles descobrissem que eu era uma heroína e não uma vilã eles iam contar isso como traição mesmo assim. Não fazia sentido então pegar quanta informação eu conseguisse antes de eles perceberem que estavam enganados?

Me virei para ir em direção à biblioteca pública. Era apenas a algumas quadras de distância.

A biblioteca estava cheia, o que fazia sentido, dado o número de escritórios e comércios por perto, o número de pessoas querendo um lugar quieto para passar a hora do almoço, e as pessoas fazendo pesquisa ou usando o computador como quisessem, coisa que não podiam fazer em seu local de trabalho. Eu teria incluído a maior e mais chique escola de Brockton Bay, Arcadia High, que ficava ali perto, na generalização, mas eu não achava que muitos estudantes passavam seu horário de almoço na biblioteca.

A Biblioteca Central parceria mais um museu ou uma galeria de arte do que qualquer outra coisa, com um teto alto, colunas e grandes obras de arte penduradas emoldurando o corredor entre as seções principais do prédio. Fui para o segundo andar, onde haviam uns vinte computadores e uma fila de pessoas esperando sua vez de usá-los. Calculei que seria uma espera de uns quinze ou vinte minutos, mas à medida em que o relógio se aproximava de uma da tarde, pessoas saíam para voltar ao trabalho e a fila rapidamente diminuiu. Um computador ficou livre alguns minutos depois de eu entrar na fila. Dei a frente para a pessoa atrás de mim, esperando por um computador um pouco mais pro canto ser liberado para eu ter mais privacidade.

Quando sentei, já tinha uma boa noção do que queria escrever. Encontrei a mensagem com a função de busca e cliquei no nome de usuário ‘Tt’. Um menuzinho apareceu, e escolhi ‘mandar mensagem privada’. Eu tinha as opções de criar uma conta, fazer login numa conta já existente, ou mandar a mensagem em anônimo. Escolhi a última opção, e digitei:

Assunto: Re:Bichinho

Bichinho aqui. Gostaria de te encontrar, mas quero provas de que você é Tt. Posso provar quem sou também, se necessário.

Não enviei logo de cara, levando um momento para pensar. Conseguir provas decentes previniria problemas em potencial, como a mensagem ser uma armadilha de, por exemplo, Bakuda. Deixando o fardo da prova para Tattletale e deixando ela decidir se queria ou não verificar se eu era mesmo ‘Bichinho’ significava que eu não tinha que me preocupar em como exatamente se prova sua própria identidade. Reli duas vezes, e então enviei a mensagem.

A resposta veio apenas dois ou três minutos depois. Foi rápido o suficiente que eu não podia imaginar Tattletale levando tempo para examinar e reexaminar cada aspecto de sua mensagem como eu havia feito com a minha. Seria isso insensatez dela, ou só experiência mesmo?

Fechei as abas que eu havia aberto enquanto isso e fui ver o que ela tinha escrito. Era uma mensagem privada, de ela para mim, e deixou meus instintos de lutar ou fugir em alerta total:

Assunto: re:Bichinho

Provas? Noite passada você não disse nada até que te perguntei seu nome. O grandalhão estava cheio de picadas horrendas e você jogou spray de pimenta nele e eu contei isso para meu amigo G quando ele perguntou. Serve isso?

G R e eu vamos encontrar você no mesmo local em que cruzamos caminho ontem à noite, ok? Não precisa se arrumar se é que você entende. A gente vai estar usando roupas normais.

Se marcarmos às 3 isso te dá tempo pra chegar lá da biblioteca com tudo o que você precisa? me conte

Ta ta

Meu coração pulou. Ela sabia onde eu estava, e estava deixando isso claro. Por quê? Aliás, como? Será que eu havia acabado de conversar, sem saber, com um hacker? Eu sabia usar computadores, minha mãe se assegurou que eu tivesse um antes mesmo de saber ler e escrever, mas eu estaria mentindo se dissesse que sabia se estava sendo hackeada ou fazer alguma coisa sobre isso.

Eu interpretaria a menção casual de onde eu estava como uma ameaça sutil se isso não fosse contraditório com o resto de suas mensagens. Além disso – Tattletale estava falando em me encontrar com roupas casuais. Ou seja, eles não estariam de uniforme. Eu não conseguia entender o porquê, mas era difícil imaginá-la me ameaçando logo depois de se oferecer para um encontro que a deixaria totalmente vulnerável.

Tattletale havia, sem querer, aumentado os riscos do meu esquema. Meu objetivo principal era coletar informações sobre eles, e aqui estava eu tendo a chance de vê-los sem máscaras. Era bom demais pra ser verdade, o que me fez pensar em que tipo de defesas eles tinham para se proteger.

Eu só não fazia ideia de no que eu estaria me metendo.

O protetor de tela apareceu enquanto eu encarava o monitor com os pensamentos voando em minha cabeça. As palavras ‘BIBLIOTECA CENTRAL DE BROCKTON BAY’ rolavam pela tela em várias cores.

Se eu fosse, na melhor das hipóteses, eu conseguiria informação o suficiente para entregá-los. Eu ganharia muchos créditos dos caras do bem e respeito de uma celebridade internacional. Se eu havia julgado corretamente o Armsmaster, eu ganharia ainda mais pontos se eu lhe desse as informações e o deixasse – ou ajudasse – fazer a surpresa. Por outro lado, a pior das hipóteses era de que era uma armadilha, ou que eles descobririam o que eu estava fazendo. Poderia significar uma luta, talvez uma surra. Havia uma possibilidade de eu ser morta, mas por algum motivo isso não me preocupou tanto quanto talvez devesse ter preocupado. Parte disso talvez fosse, acho, o fato de que essa possibilidade existia toda vez que eu saísse de uniforme. Isso, e por minhas interações com eles ontem à noite, eles não tinham uma vibe de ‘assassinos’.

Falando do status quo… se eu não fosse, o que aconteceria? Esta oportunidade em particular provavelmente passaria, quanto a descobrir a roupa suja de Tattletale e sua turma. Sem problemas, pensei. Era uma aventura de grande risco, grande recompensa de qualquer forma. Tomar esse caminho significaria declinar a oferta de encontro, e então matar o tempo pelo resto da tarde, tentando evitar pensar no fato de que eu havia matado duas tardes seguidas de aula e poderia, talvez, matar mais. Era deprimente pensar nisso.

“Com licença?”

Assustada, olhei para cima. Uma mulher de meia idade e jaqueta vermelha estava bem atrás de mim. Quando olhei pra ela, ela me perguntou, “Não vai mais usar?” Ela apontou para o computador, onde o protetor de tela ainda rolava.

Tonta de alívio por ela não ser, irracionalmente, Tattletale, sorri e disse, “Mais um minutinho.”

Assunto: Re:Bichinho

Te vejo às três.

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Insinuação 2.4

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“Ninguém gosta dela. Ninguém quer ela aqui,” disse Julia.

“Que lesada. Nem entregou o trabalho de artes, sexta passada,” respondeu Sophia.

“Se ela nem vai tentar, por que está vindo pra escola?”

Apesar de como a conversa soava, elas estavam falando comigo. Estavam apenas fingindo falar umas com as outras. Era calculado em como podiam manter uma negabilidade plausível ao mesmo tempo em que imaturamente faziam de conta que eu não estava ali. Uma mistura de imaturidade com esperteza que só adolescentes conseguiam fazer. Eu teria rido de como era ridículo, se não fosse comigo.

No momento em que saí da sala, Emma, Madison e Sophia me encurralaram num canto, com outras seis garotas para dar apoio. Eu não podia sair do meio delas sem ser empurrada ou acotovelada de volta para o canto, então não pude fazer mais do que me inclinar na janela, ouvindo enquanto oito garotas matraqueavam uma lista infinita de provocações e insultos. Antes que uma delas terminasse, outra já começava a falar. Enquanto isso, Emma observava ao fundo, quieta, o menor dos sorrisos em seu rosto. Eu não podia olhar para nenhuma das outras garotas sem que elas latissem uma torrente fresquinha de insultos na minha cara, então fiquei encarando Emma.

“A menina mais feia do nosso ano.”

Elas nem estavam pensando no que estavam dizendo e um monte dos insultos eram mentiras deslavadas ou contraditórios. Uma dizia que eu era uma puta, por exemplo, e outra dizia que eu fazia rapazes vomitarem ao chegar perto deles. O objetivo não era ser espertas, inteligentes ou corretas. O que importava era o sentimento por trás das palavras, repetidamente, martelando em mim. Se eu tivesse apenas um momento para falar, eu poderia ter inventado umas respostas. Se eu pudesse matar seu movimento, elas provavelmente não voltariam ao ritmo fácil de novo. De qualquer forma, eu não conseguia encontrar as palavras para isso, e não haviam brechas na conversa onde eu não seria cortada.

Mesmo que esta tática em particular fosse nova para mim, eu estive aturando esse tipo de coisa por um ano e meio já. Num certo ponto, eu havia chegado à conclusão de que era mais fácil ficar de boa e aguentar a maioria das coisas. Elas queriam que eu revidasse, porque tudo estava a favor delas. Se eu tentasse lutar contra isso e elas ‘ganhassem’, eu só teria alimentado seus egos. Se eu conseguisse alguma coisa, elas ficariam mais persistentes e más da próxima vez. Então pela mesma razão pela qual não briguei com Madison pela lição que ela tinha me roubado, simplesmente me inclinei sobre a janela e esperei elas se entediarem com a brincadeira ou ficar com fome o suficiente para ir almoçar.

“O que ela usa pra lavar o rosto? Um pedaço de Bombril?”

“Pois deveria! Ficaria mais bonita!”

“Nunca fala com ninguém. Talvez ela saiba que é uma retardada e por isso fica de boca fechada.”

“Não, ela não é esperta o suficiente pra isso.”

A não mais de um metro atrás de Emma, eu pude ver o Sr. Gladly saindo de sua sala. A tirada não parou quando observei-o por suas pastas embaixo do braço, achar as chaves e trancar a porta.

“Se eu fosse ela, eu me mataria,” uma das garotas anunciou.

O Sr. Gladly se virou para me olhar nos olhos.

“Ainda bem que não fazemos educação física com ela. Imagina ver ela no vestuário? Só de pensar já fico com ânsia de vômito.”

Não sei que expressão eu tinha na cara, mas feliz não era. Não mais que cinco minutos atrás, o Sr. Gladly estava tentando me convencer a ir com ele para a diretoria falar sobre o bullying. Observei enquanto ele me deu um olhar triste, passou as pastas para sua mão livre e foi embora.

Fiquei estupefata. Não consegui entender como ele poderia simplesmente ignorar isso. Quando tentou me ajudar, será que ele estava só se ajudando, fazendo o que era obrigado numa situação que ele não podia ignorar? Será que havia desistido de mim? Depois de tentar ajudar, de sua própria maneira completamente inútil, depois de eu ter negado sua oferta de ajuda duas vezes, será que ele havia decidido que eu não valia o esforço?

“Vocês tinham que ter visto o grupo dela se estrepar na aula agora há pouco. Doeu de assistir.”

Fechei o punho, e então me forcei a abri-lo. Se fôssemos garotos, esse cenário seria totalmente diferente. Eu estava mais em forma do que nunca. Eu poderia ter dado uns socos desde o início, ensanguentar um nariz ou dois, talvez. Sei que perderia a luta no final, sendo empurrada para o chão pela força dos números e chutada enquanto estivesse lá, mas as coisas terminariam ali. Eu ficaria fisicamente dolorida por dias, mas ao menos teria a satisfação de saber que outras também estavam machucadas, e não teria que aceitar esse rio de insultos. Se conseguíssemos fazer bastante estrago, seria chamada a atenção da escola, e eles não poderiam ignorar as circunstâncias de uma luta de uma contra nove. Violência ganha atenção.

Mas as coisas não funcionavam assim. Garotas pegavam pesado. Se eu atacasse Emma, ela correria para a diretoria com alguma história inventada, suas amigas testemunhando a favor dela. Para a maioria das pessoas, pedir ajuda para a escola era suicídio social, mas Emma estava no topo da pirâmide. Se ela fosse para a diretoria, as pessoas só levariam tudo mais a sério. Quando eu voltasse para a escola, a história já teria se espalhado como uma videira, de um jeito que me fizesse parecer uma psicopata. Tudo pioraria. Emma seria vista como a vítima e as garotas que haviam se juntado a ela no bullying a defenderiam.

“E ela é fedida,” uma garota disse, bestamente.

“Tem cheiro de suco de uva e de laranja vencidos,” cortou Madison com uma risadinha. De novo, esse negócio do suco? Suspeitei que essa tivesse sido ideia dela.

Pareceu que elas estavam perdendo o fôlego. Calculei que seria só mais um minuto ou dois antes que se entediassem e fossem embora.

Emma deve ter tido a mesma impressão, porque veio à frente. O grupo se dividiu para dar espaço a ela.

“O que aconteceu, Taylor?” disse Emma. “Você parece tão tristinha.”

Suas palavras não combinavam com a situação. Eu havia mantido a compostura por todo esse tempo. O que eu sentia era mais frustração e tédio do que qualquer outra coisa. Abri a boca para dizer alguma coisa. Um simples “Vai se foder” teria servido.

“Tão triste que tem chorado até dormir essa semana inteira?” ela perguntou.

Minhas palavras pararam na garganta ao processar o que ela havia dito.

Quase um ano antes de começarmos o ensino médio, eu estava na casa dela, ambas tomando o café da manhã e ouvindo música alto demais. A irmã mais velha de Emma havia descido as escadas com o telefone. Abaixamos a música, e era meu pai do outro lado da linha, esperando para me contar com a voz fraca que minha mãe havia morrido num acidente de carro.

A irmã de Emma havia me dado uma carona para minha casa, e eu chorei o caminho inteiro. Lembro de Emma chorando também, por empatia, talvez. Pode ter sido o fato de que ela achava minha mãe a adulta mais legal do mundo. Ou talvez foi porque realmente éramos melhores amigas e ela não tinha ideia de como me ajudar.

Eu não queria pensar nos meses que se seguiram, mas fragmentos me vieram à memória sem eu pedir. Eu podia lembrar de ter ouvido meu pai falando mal do corpo de minha mãe, porque ela estava mandando mensagens enquanto dirigia, e era a única culpada nisso tudo. Houve um ponto em que eu fiquei quase sem comer por cinco dias, porque meu pai estava tão mal que não prestava atenção em mim. Eventualmente pedi ajuda a Emma, pedindo para comer na casa dela por alguns dias. Acho que a mãe dela descobriu o que estava rolando e conversou com o meu pai, porque ele começou a se endireitar. Estabelecemos nossa rotina, e não nos separaríamos como família de novo.

Foi um mês depois de minha mãe ter morrido que Emma e eu estávamos sentadas na ponte de um brinquedo no parque, nossos traseiros frios por causa da madeira úmida, tomando um café que havíamos comprado na Buraco de Donut. Não tínhamos nada pra fazer, então só ficamos andando e falando sobre qualquer coisa. Nossa caminhada havia nos levado ao parquinho, e estávamos descansando os pés.

“Sabe, eu admiro você,” ela havia dito, abruptamente.

“Por quê?” eu havia respondido, completamente encantada com o fato de que alguém linda e incrível e popular como ela poderia achar algo para se admirar em mim.

“Você é tão forte. Depois que a sua mãe morreu, você ficou em pedacinhos, mas você está tão de boa depois de um mês. Eu não conseguiria fazer isso.”

Eu podia me lembrar de ter admitido, “Eu não sou forte. Eu consigo me segurar durante o dia, mas tenho chorado até dormir essa semana inteira.”

Aquilo havia sido o suficiente para abrir as comportas ali mesmo. Ela me deu seu ombro para chorar, e nosso café esfriou antes de eu me recompor.

Agora, eu olhava para Emma, de boca aberta, sem palavras, seu sorriso alargado. Ela lembrava o que eu tinha dito, então. Ela sabia as memórias que isso traria à tona. Em algum ponto, aquela lembrança havia passado por sua mente, e ela havia decidido transformá-la numa arma. Esteve esperando para atirá-la em mim.

Me fodi, porque funcionou. Senti uma lágrima escorrendo pela bochecha. Meu poder rugiu nas bordas da minha consciência, agitado, me pressionando. Eu o suprimi.

“Tem mesmo! Ela está chorando!” Madison riu.

Com raiva de mim mesma, passei a mão na bochecha para limpar a lágrima. Mais já estavam chegando, prontas para substituí-la.

“É como se você tivesse um superpoder, Emma!” uma das garotas falou.

Eu havia tirado minha mochila para poder me recostar na parede. Me inclinei para pegá-la, mas antes que eu pudesse fazê-lo, um pé deslizou pela alça e a arrastou para longe de mim. Olhei para cima e vi a dona do tal pé – esbelta, corada Sophia – me dando um sorrisinho arrogante.

“Ai meu deus! O que ela está fazendo?” uma das garotas disse.

Sophia se recostava na parede, um pé casualmente em cima da minha mochila. Não pensei que fosse valer a pena lutar para ter a mochila de volta, se isso desse a ela uma oportunidade de continuar seu joguinho. Deixei a mochila onde estava e abri caminho empurrando as outras garotas, esbarrando num observador curioso forte o suficiente para fazê-lo tropeçar. Corri para as escadas e pela porta da frente no andar térreo.

Fugi. Não chequei, mas provavelmente elas estavam olhando da janela no fim do corredor. Não importava muito. O fato de eu ter prometido pagar trinta e cinco pratas do meu próprio dinheiro por um livro novo de Questões Mundiais para substituir o que havia sido encharcado com suco de uva não era minha prioridade. Mesmo que fosse quase todo o dinheiro que eu tinha depois de comprar as partes do meu uniforme. Meu trabalho de artes também estava na mochila, recém-consertado. Eu sabia que não o conseguiria de volta inteiro, se o conseguisse.

Não, minha preocupação no momento era sair de lá. Eu não quebraria a promessa que havia feito a mim mesma. Nada de usar poderes nelas. Este era o limite que eu não ultrapassaria. Mesmo se eu fizesse algo inócuo, como passar piolhos pra todas elas, eu não achava que ia parar ali. Eu não confiava em mim mesma o suficiente para manter minhas habilidades em segredo, sem nenhuma pista óbvia, só para ver a cara delas quando percebessem que a garota que tinham estado atormentando era uma super heroína em formação. Era algo em que eu não podia deixar de pensar, mas eu sabia que as consequências a longo prazo estragariam isso.

Talvez a coisa mais importante, pensei, fosse manter os dois mundos separados. De que me servia uma rota de fuga, se o mundo para o qual eu fugia estivesse cheio das pessoas e coisas que eu queria evitar?

Antes que o pensamento de voltar para a escola passasse por minha mente, me vi pensando no que eu faria esta tarde.

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Insinuação 2.3

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Não tive tempo para ficar pensando na mensagem que havia recebido de Tattletale. O sinal tocou e tive que me apressar para sair da minha conta e desligar o computador antes de ir para a próxima aula. Ao pegar minhas coisas, percebi que eu tinha me entretido tanto em pesquisar os vilões que havia conhecido noite passada e pensando na mensagem de Tattletale que esqueci de me preocupar com estar encrencada por ter matado aula. Senti um pouco de resignação ao perceber que eu teria que lidar com isso mais tarde hoje, de qualquer forma.

Madison já estava em seu lugar quando entrei na sala. Ela tinha duas garotas agachadas de ambos os lados de sua carteira, e as três deram risadinhas ao me ver. Escrotas.

Meu lugar preferido para sentar era à direita, na primeira fileira, o mais perto da porta. A hora do almoço e a de ir embora era quando o trio tendia a me atormentar mais, então eu tentava sentar o mais perto possível da porta, para poder sair rápido. Vi uma poça de suco de laranja no assento, com a garrafa vazia embaixo da cadeira. Madison estava matando dois coelhos com uma cajadada só. Era tanto uma ‘pegadinha’ quanto um lembrete de como elas haviam me encharcado com suco e refrigerante sexta passada. Irritada, tomei o cuidado de não olhar para ela e me sentei num lugar vazio algumas fileiras mais para trás.

O Sr. Gladly entrou na sala, ele era baixinho e jovem o suficiente que quase dava pra confundi-lo com um estudante ali da escola. Levou alguns minutos para ele começar a aula, e imediatamente ele nos mandou formar grupos de quatro para compartilhar nossa lição de cada uns com os outros e nos preparar para apresentá-la para a turma. O grupo que contribuísse mais ganharia o prêmio que ele havia mencionado na sexta, os doces da máquina de guloseimas.

Eram coisas desse tipo que faziam do Sr. Gladly o professor que eu menos gostava. Eu tinha a impressão de que ele ficaria surpreso em saber que ele era o professor que algum aluno menos gostava, mas isso só seria um ponto a mais contra ele para mim. Não acho que ele entenderia porque pessoas não gostariam dele, ou quão miserável era fazer trabalhos em grupo quando você não se identificava com nenhum dos grupos ou panelinhas da escola. Ele deduzia que as pessoas gostavam de trabalhos em grupo pra poder conversar com seus amigos na aula.

Enquanto a turma se dividia, resolvi não ficar lá sendo a lesada sem amigos com quem formar grupo. Fui até a mesa do professor.

“Sr. Gladly?”

“Me chame de Sr. G. Sr. Gladly é meu pai,” ele disse, com um tom brincalhão de professor austero.

“Desculpe, hã, Sr. G. Preciso de um livro novo.”

Ele me olhou, curioso, “O que aconteceu com o seu?”

Foi encharcado com suco de uva por um trio de harpias. “Eu perdi,” menti.

“Livros novos são trinta e cinco dólares. Não vou pedir agora, mas…”

“Eu pago até o final da semana,” terminei a frase por ele.

Ele me deu um livro, e procurei pela sala um grupo no qual poderia entrar: Brilhante e Greg. Havíamos formado grupos várias vezes antes, os restos que sobravam quando todos os grupos e panelinhas se juntavam.

Brilhante aparentemente tinha conseguido seu apelido na terceira série, quando um professor o chamou disso ironicamente, e ficou, ao ponto em que eu duvidava que qualquer um além de sua mãe soubesse o nome dele. Ele era um baterista, de cabelos compridos, e era tão fora da casinha que você podia parar de falar no meio de uma frase e ele nem notaria. Ele vivia a vida num torpor calmo, presumivelmente enquanto não estivesse com sua banda.

Greg era bem o contrário. Ele era mais inteligente que a média, mas falava tudo o que lhe vinha à cabeça – sua linha de pensamento não tinha freios. Ou linhas propriamente ditas. Teria sido mais fácil estar num grupo só com o Brilhante e fazer todo o trabalho sozinha do que trabalhar com o Greg.

Tirei minha lição da mochila nova. O Sr. Gladly havia pedido para fazermos uma lista de como capas haviam influenciado a sociedade. Entre as várias etapas de me preparar para minha primeira noite de uniforme, tomei um tempo para consertar meu trabalho de artes e fiz uma lista bem bacana para o trabalho do Sr. Gladly. Eu tinha até usado reportagens de jornais e revistas para reforçar meus pontos. Eu estava me sentindo bem com ela.

“Eu não fiz muita coisa,” Greg disse, “Me distraí com esse jogo novo que eu comprei e é realmente muito bom, se chama Space Opera, já jogou?”

Um minuto inteiro depois ele ainda estava no mesmo assunto, mesmo que eu não estivesse prestando atenção ou dado qualquer resposta ao que ele estava falando, “…você tem que entender que é um gênero, um que eu estou muito envolvido ultimamente, desde que assisti aquele anime que – Oh, oi, Julia!” Greg quebrou seu monólogo para acenar com tanta energia e animação que eu senti um pouco de vergonha por estar do lado dele. Me virei no meu assento para ver uma das amigas de Madison chegar atrasada.

“Posso ficar no grupo da Madison?” Julia perguntou para o Sr. Gladly.

“Isso não seria justo. O grupo do Greg só tem três pessoas. Ajude eles,” disse o Sr. Gladly.

Julia andou para onde estávamos e fez uma careta. Alto o suficiente para só a gente ouvir, ela murmurou um “Eca” enojado. Eu sentia o mesmo em relação a ela se juntar a nós.

Foi de mal a pior desde então. O grupo de Madison veio para mais perto do nosso para que Julia pudesse conversar com elas e ficar no nosso grupo ao mesmo tempo. A presença de todas as garotas atraentes e populares da turma só deixou Greg ainda mais animado, e ele começou a se meter na conversa delas, para logo ser cortado ou ignorado. Era vergonhoso de assistir.

“Greg,” falei, tentando distraí-lo do outro grupo, “Aqui o que o fiz no final de semana. O que você acha?”

Entreguei o trabalho que eu tinha feito. Um ponto para Greg, por ter lido ele todo.

“Isso está muito bom, Taylor,” ele disse, quando terminou.

“Deixa eu ver,” disse Julia. Antes que eu pudesse contê-lo, Greg entregou meu trabalho a ela. Observei-a dar uma olhada, e então jogá-lo na carteira de Madison. Houve risadinhas.

“Me devolve,” eu disse.

“Devolver o quê?” disse Julia.

“Madison,” eu disse, ignorando Julia, “Me devolve.”

Madison, fofa e pequena e a paixão de metade dos caras do nosso ano, se virou e conseguiu combinar um olhar e tom de tamanha condescendência que poderia fazer um homem feito se encolher de medo, “Ninguém está falando com você, Taylor.”

E foi aquilo. Fora ir correndo para o professor para reclamar, não ia ter jeito de eu conseguir meu trabalho de volta, e qualquer pessoa que considerasse o professor uma opção claramente nunca tinha estado no ensino médio. Greg olhou entre eu e as garotas com um tipo de pânico antes de ficar numa fossa, Brilhante estava com a cabeça na mesa, dormindo ou quase isso, e eu fiquei lá, fula da vida. Tentei salvar as coisas, mas fazer o Greg se focar era impossível, pois ele estava constantemente me pedindo desculpas e tentando débilmente convencer o outro grupo a me devolver o trabalho. Nosso tempo esgotou, e o Sr. Gladly escolheu uma pessoa de cada grupo para ir lá na frente apresentar o que o grupo tinha conseguido.

Suspirei quando o professor escolheu Greg para apresentar pelo nosso grupo, e fui forçada a assistir enquanto Greg ferrou tanto com o trabalho que o Sr. Gladly pediu para ele ir se sentar antes que ele terminasse. Greg era uma daquelas crianças que eu sempre pensei que fizessem os professores xingar mentalmente quando levantavam a mão na aula. O tipo de aluno que demorava o dobro do tempo que outros levariam para responder, e frequentemente estava só meio certo ou tão errado que desviava o assunto da aula. Eu não podia imaginar o que havia possuído o Sr. Gladly para ele escolher Greg para apresentar pelo nosso grupo.

O que deixou as coisas piores foi quando eu tive que assistir Madison matraquear sobre minha muito impressionante lista de modos como capas mudaram o mundo. Ela falou todas as minhas coisas; moda, economia, Engenheiros e o boom tecnológico, o fato de que o cinema, a televisão e as revistas haviam se distorcido para acomodar celebridades capas, e por aí vai. Mesmo assim, ela explicou errado na parte de como a segurança (N.T.: polícia, exército, etc) havia mudado. Meu ponto tinha sido que com capas qualificadas diminuindo o trabalho e se responsabilizando pelas maiores crises e ameaças, policiais e militares de todos os níveis tinham mais liberdade para treinar e expandir suas habilidades, sendo policiais mais espertos e versáteis. Madison fez parecer que eles só ganhassem um monte de férias.

O Sr. Gladly nomeou outro grupo como vencedor, por eles terem conseguido achar mais coisas ainda, embora ele tenha falado que a qualidade do trabalho de Madison era quase boa o suficiente para contar. Daí em diante, ele passou sua matéria.

Eu estava puta e mal pude me concentrar na aula, meus poderes estalando e puxando minha atenção para a periferia de minha consciência, me deixando extremamente consciente de cada inseto num raio de 150 metros. Eu poderia desligar isso, mas a concentração extra que isso me exigiria, juntamente com a raiva que eu sentia em relação a Madison e ao professor, me distrairiam tanto que eu não poderia me focar na matéria. Tomei a deixa do Brilhante e abaixei a cabeça sobre a mesa. Exausta que eu estava depois da noite passada, quase cochilei. Mesmo assim, passar a aula meio dormindo fez ela acabar mais rápido. Me assustei quando o sinal tocou.

Enquanto todos pegavam suas coisas e saíam da sala, o Sr. Gladly veio me dizer baixinho, “Eu gostaria que você ficasse aqui por alguns minutos, por favor.”

Assenti com a cabeça e guardei meus livros, e então esperei o professor terminar de combinar onde encontraria os integrantes do grupo vencedor para pagá-los seu prêmio.

Quando estávamos só eu e o Sr. Gladly na sala, ele pigarreou e me disse, “Eu não sou burro, sabe.”

“Tá bom,” respondi, sem saber direito o que falar.

“Eu tenho uma noção de o que acontece na minha sala de aula. Não tenho certeza de quem, mas eu sei que algumas pessoas têm te incomodado.”

“Ok,” eu disse.

“Eu vi a bagunça na cadeira onde você geralmente senta hoje. Lembro que algumas semanas atrás havia cola espalhada em sua cadeira e carteira. Também houve aquele incidente no começo do ano. Todos os seus professores tiveram uma reunião sobre aquilo.”

Não consegui olhar em seus olhos quando ele falou daquele evento. Baixei o olhar para meus pés.

“E acho que tem mais coisa nisso do que o que eu sei?”

“É,” eu disse, ainda olhando para baixo. Era difícil explicar como eu me sentia quanto a essa conversa. Eu estava grata, acho, que alguém havia tocado no assunto, mas irritada que esse alguém fosse o Sr. Gladly. Fiquei com um pouco de vergonha também, como se eu tivesse dado de cara com uma porta e alguém estivesse tentando demais em se assegurar que eu estava bem.

“Eu perguntei depois do incidente da cola. Estou perguntando de novo. Você gostaria de ir para a secretaria comigo, conversar com a diretoria?”

Depois de pensar por algum tempo, olhei para ele e perguntei, “O que aconteceria?”

“Teríamos uma discussão sobre o que tem acontecido. Você daria o nome ou os nomes de quem você acredita serem os responsáveis, e cada um deles seria chamado para falar com a diretora, em seguida.”

“E eles seriam expulsos?” perguntei, mesmo que já soubesse a resposta.

O Sr. Gladly balançou a cabeça, “Se houvesse prova o suficiente, eles seriam suspensos por vários dias, a não ser que tivessem feito algo muito sério. Mais ofensas poderiam levar a suspensões mais longas ou expulsão.”

Dei uma risada amarga, sentindo a frustração aumentar, “Ótimo. Então pode ser que elas percam alguns dias de aula, e só se eu conseguir provar que estão por trás disso, e sendo suspensas ou não, elas se sentem totalmente justificadas em fazer o que quer que seja para o rato de laboratório por vingança.”

“Se você quer que as coisas melhorem, Taylor, tem que dar o primeiro passo.”

“Isso não é um primeiro passo. É atirar no meu próprio pé,” eu disse, colocando a mochila nas costas. Quando ele não respondeu, saí da sala.

Emma, Madison, Sophia e uma meia dúzia de outras garotas estavam no corredor, esperando por mim.

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Insinuação 2.2

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A corrida me ajudou a acordar, assim como o banho quente e a xícara de café que meu pai havia deixado para mim. O cansaço aumentou ainda mais o senso de dissonância que eu sentia indo para a aula, um dia tão normal. Meras horas atrás, eu havia estado numa luta de vida ou morte, eu até conheci o Armsmaster. Agora era um dia como qualquer outro.

Me senti um pouco nervosa ao chegar na primeira aula. Tendo basicamente matado duas aulas na sexta passada, não entregando um trabalho importante, pensei que provavelmente a Sra. Knott já sabia. Não me senti aliviada quando ela olhou para mim e me deu um sorriso duro antes de voltar sua atenção para o computador. Aquilo só significava humilhação dobrada quando a aula fosse interrompida por alguém vindo da secretaria. Uma parte de mim queria matar essa aula também, só pra evitar a possível humilhação e para não chamar a atenção.

Enfim, eu estava ansiosa ao sentar-me na frente do computador, o que era um saco porque aula de Informática era uma das poucas partes do meu dia de aula que eu não odiava. Pra começar, era a aula em que eu estava indo bem. Além disso, nem a Madison, nem Sophia nem Emma estavam na minha classe, embora algumas de suas amigas estivessem. Essas garotas geralmente não sentiam necessidade de me atormentar sem o trio por perto, e estavam afastadas de mim pelo fato de eu estar na turma avançada da aula. Uns três quartos das pessoas na sala não sabiam nada sobre computadores, vindo de famílias que não tinham dinheiro para comprar um ou que não se interessavam muito por isso, então eles praticavam digitar sem olhar o teclado e tinham aulas de como usar mecanismos de busca (tipo o Google). Contrastando, eu estava no grupo que estava aprendendo programação básica e bancos de dados. Não ajudava muito a melhorar a reputação de nerd que eu já tinha, mas eu podia lidar com isso.

A Sra. Knott era uma mulher alta, de ombros largos e mandíbula forte (????). Ela era uma professor bacana, geralmente se contentava em passar um trabalhinho para a turma avançada e então focar na maioria ignorante da sala pelo resto da aula. Eu gostava disso – porque eu geralmente terminava o trabalho em meia hora, o que me deixava uma hora para fazer o que eu quisesse. Minha cabeça tinha estado cheia dos acontecimentos da noite passada quando fui correr, e a primeira coisa que eu fiz quando o computador antigo terminou seu processo agonizante de abrir a área de trabalho foi procurar informações.

O lugar para se procurar notícias e discussões sobre capas era o Parahumanos Online. A página principal mostrava as mais recentes notícias internacionais envolvendo capas. Daí, eu podia ir para a wiki, onde havia informações específicas sobre cada capa, grupo e evento, ou para os fóruns, que se dividiam em quase cem sub-fóruns, para cidades e capas diferentes. Abri a wiki numa aba, e então procurei e abri o fórum de Brockton Bay em outra.

Eu tinha a sensação de que o líder do grupo que eu tinha encontrado era ou Tattletale ou Grue. Procurei por ela na wiki. O que achei foi uma decepção minúscula que começava dizendo: “Este artigo é um toco. Seja um herói e nos ajude a expandi-lo.” Era uma frase descrevendo-a como uma suposta vilã ativa em Brockton Bay, com uma foto borrada. A única informação nova para mim era que seu uniforme era lilás. A pesquisa nos fóruns não me deu absolutamente nenhum resultado. Nem mesmo uma dica de qual era o poder dela.

Procurei pelo Grue. Até tinha informação sobre ele, mas nada detalhado ou definitivo. A wiki dizia que ele estava ativo há quase três anos, cometendo crimes pequenos como assaltar lojas pequenas e sendo uma espécie de segurança para alguém que quisesse um pouco de músculo superpoderoso num trabalho. Recentemente, ele havia passado para crimes maiores, incluindo roubos a corporações e um assalto a um cassino, junto com seu grupo novo. Seu poder estava listado como geração de escuridão na barrinha embaixo de sua foto. Ela parecia ter uma qualidade decente, mas seu foco, Grue, era apenas uma silhueta preta borrada no centro.

A seguir, procurei por Bitch. Nenhum resultado. Fiz outra busca por seu nome mais oficial, Hellhound, e achei um monte de informações. Rachel Lindt nunca havia realmente tentado esconder sua identidade. Ela havia vivido nas ruas durante a maior parte de sua carreira criminal, fugindo sempre que a polícia ou uma capa fosse atrás dela. As visões e encontros com a garota sem-teto terminaram mais ou menos um ano atrás – inferi que foi quando ela se juntou a Grue, Tattletale e Regent. A imagem na barrinha era de uma câmera de segurança – uma garota de cabelo escuro, sem máscara, que eu não chamaria de bonita. Ela tinha um rosto meio quadrado, com feições grosseiras e sobrancelhas grossas. Ela estava montando um de seus ‘cachorros’ monstruosos como um jóquei monta um cavalo, bem no meio de uma rua.

De acordo com a wiki, seus poderes haviam se manifestado quando ela tinha catorze anos, seguidos quase imediatamente por ela demolindo a casa da família que a havia adotado, ferindo sua mãe adotiva e outras duas crianças adotadas no processo. Isto havia se seguido por dois anos de brigas e recuos pelo Maine enquanto vários heróis e grupos tentavam apreendê-la, e ela sempre conseguia derrotá-los ou fugir. Ela não tinha nenhum poder que a deixasse mais forte ou mais rápida que uma garota qualquer, mas aparentemente era capaz de transformar cachorros comuns nas criaturas que eu tinha visto no telhado. Monstros do tamanho de um carro, puro músculo, ossos, presas e garras. Uma caixa vermelha quase no fim da página dizia, “Rachel Lindt tem uma identidade pública, mas é particularmente hostil, anti-social e violenta. Caso a reconheça, não se aproxime e não a provoque. Deixe a área imediatamente e notifique as autoridades quanto a sua última localização conhecida.” Bem no final da página havia uma lista de links relacionados a ela: dois fansites e uma reportagem sobre suas atividades iniciais. Uma busca nos fóruns me deu resultados demais, me incapabilizando a discernir entre lixo, discussões, especulações e adoração a vilões para encontrar os núcleos de verdade naquilo tudo. Ao menos, ela era famosa. Suspirei e continuei, anotando mentalmente um lembrete de investigar melhor quando tivesse tempo.

O último membro do grupo era Regent. Já que o Armsmaster havia dito que ele era discreto, eu não estava esperando achar muita coisa. Fiquei surpresa ao encontrar menos que isso. Nada. Minha pesquisa na wiki resultou numa resposta automática, “Não há resultados para esta busca. 32 endereços IP buscaram a Wiki de Parahumanos.net por ‘Regent’ em 2011. Gostaria de criar uma página?” Os fóruns também não me mostraram nada. Até procurei por outras escritas de seu nome, como Regence e Recant, caso eu tivesse ouvido errado. Não achei nada.

Se meu humor já estava azedo quando cheguei na primeira aula, os becos sem saída só pioraram a situação. Voltei minha atenção ao trabalho em sala, fazer uma calculadora em Visual Basic, mas era muito trivial para me distrair. Os trabalhos de quinta e sexta já haviam nos dado as ferramentas para fazer isso, então era só juntar e encher linguiça. Eu não me importava em aprender coisas, mas trabalhar só por trabalhar era irritante. Eu fiz o mínimo, chequei que não tinha erros, movi o arquivo para a pasta de “trabalhos completos” e voltei para a internet. Afinal, o trabalho só demorou quinze minutos.

Procurei Lung na wiki, o que eu já havia feito antes, como parte de minha pesquisa e preparação para ser uma super heroína. Eu queria saber com certeza quem eram os vilões proeminentes das redondezas e o que eles podiam fazer. A busca por ‘Lung’ foi redirecionada para uma página geral sobre sua gangue, a ADM, com um bom bocado de informações detalhadas. A parte sobre os poderes de Lung se encaixava bem com a minha experiência, embora não houvesse menção de sua super audição ou de ele ser à prova de fogo. Considerei adicionar essa informação, mas decidi não fazê-lo. Não era seguro, havia a possibilidade de isso ser rastreado até a escola Winslow, e então até mim. De qualquer forma, provavelmente seria deletado como especulação sem provas.

A seção embaixo da descrição de Lung e seus poderes cobria seus subordinados. Era estimado que ele tivesse uns quarenta ou cinquenta capangas trabalhando para ele em Brockton Bay, escolhidos entre jovens asiáticos. Não era nada comum uma gangue ter membros de tantas nacionalidades como a ADM tinha, mas Lung tinha uma missão de conquistar e absorver toda gangue com membros asiáticos e muitas sem. Quando ele conseguia a mão-de-obra que precisava, as gangues não-asiáticas eram dispersadas por seus recursos, seus membros descartados. Mesmo que não houvessem mais gangues na parte leste da cidade para absorver, ele ainda estava recrutando zelosamente. Seu método agora era ir atrás de qualquer pessoa com mais de doze anos e menos de sessenta. Não importava se você era membro de uma gangue ou não. Se você era um asiático morando em Brockton Bay, Lung e seu pessoal esperavam que você ou se juntasse a eles ou pagasse um tributo de uma forma ou de outra. Haviam reportagens locais sobre isso, artigos de jornal, e eu podia lembrar dos avisos na secretaria da escola dizendo onde as pessoas que virassem um alvo deles poderiam encontrar ajuda.

Os tenentes de Lung estavam listados como Oni Lee e Bakuda. Eu já sabia o geral sobre Oni Lee, mas fiquei intrigada quanto às mudanças recentes em seu artigo da wiki. Haviam detalhes específicos sobre seus poderes: ele podia se teleportar, mas quando fazia isso, ele não desaparecia. Quando ele fazia isso, seu ‘eu original’, por falta de um termo melhor, ficaria onde estava, sendo ativo por de cinco a dez segundos antes de se desintegrar numa nuvem de cinzas de carbono. Essencialmente, ele podia criar outra versão de si mesmo em algum lugar próximo, enquanto sua versão antiga duraria tempo o suficiente para te distrair ou atacar. Se isso não fosse assustador o suficiente, haviam relatos de ele segurando uma granada em sua mão ao se duplicar repetidamente, com suas duplicatas de vida curta agindo como homens-bomba suicidas. Pra completar, a página da wiki de Oni Lee tinha uma caixa vermelha de aviso similar à que Bitch/Hellhound tinha na dela, sem o pedaço sobre identidade pública. Pelo que sabiam dele, as autoridades haviam decidido classificá-lo como um sociopata. O aviso cobria os mesmos elementos gerais: muito violento, perigoso, não devia ser provocado, e por aí vai. Olhei sua foto. Seu uniforme consistia em um bodysuit (N.T.: uma roupa que cobre o corpo todo, tipo um collant do tamanho de um macacão) preto com um cinto preto para pendurar suas facas, armas e granadas. Os únicos pontos de cor nele eram sua máscara estilo demônio japonês, vermelha com duas listras verdes de cada lado. Fora a máscara, seu uniforme tinha a aparência distinta de um ninja, o que só aumentava a impressão de que ele era um cara que podia e iria enfiar uma faca entre suas costelas.

Bakuda era um artigo novo, adicionado à página wiki da ADM apenas dez dias atrás. A foto só a mostrava dos ombroa para cima, uma moça de cabelos pretos e lisos, óculos de proteção grandes e opacos sobre seus olhos e uma máscara de metal com um filtro estilizado de máscara de gás cobrindo a metade de baixo de seu rosto. Um cordão trançado de fios pretos, amarelos e verdes dando a volta em um ombro. Não dava pra saber sua etnicidade com a máscara e os óculos, nem sua idade.

A wiki tinha um monte dos detalhes que Armsmaster havia me contado. Bakuda havia feito uma universidade de refém com sua habilidade sobre-humana de projetar e fabricar bombas de alta tecnologia. Havia um link para um vídeo chamado ‘Ameaça de Bomba em Cornell’, mas não achei inteligente tocá-lo na escola, principalmente sem fones de ouvido. Decidi ver quando chegasse em casa.

A próxima coisa que me chamou a atenção foi a seção denominada ‘Derrotas e Capturas’. Resolvi ler. De acordo com a wiki, Lung aparentemente havia sido derrotado algumas vezes por vários grupos, desde a Guilda até os grupos locais de Nova Onda, Vigilantes e o Protetorado, mas sempre conseguia escapar, até noite passada. Um pedaço dizia, ‘Armsmaster emboscou e derrotou o líder da ADM, que estava enfraquecido por um encontro recente com uma gangue rival. Lung foi levado ao QGP para custódia até ser julgado via teleconferência. Dado o histórico criminal extenso e bem documentado de Lung, é esperado que ele seja detido na Gaiola caso seja julgado culpado.

Respirei fundo e exalei devagar. Eu não sabia o que pensar. Por direito, eu deveria estar brava pelo Armsmaster ter pego os créditos da luta que poderia ter me custado a vida. Ao invés disso, senti uma alegria borbulhante. Senti vontade de chacoalhar o ombro do garoto ao meu lado e apontar para a tela, dizendo, “Eu, eu tornei aquilo possível! Eu!”

Com novo entusiasmo, abri a aba do fórum e comecei a procurar o que as pessoas estavam falando sobre isso. Um post de um fã ou subordinado de Lung ameaçou violência contra Armsmaster. Havia um pedido de alguém por mais informações na luta. Pausei ao ler um post perguntando se Bakuda poderia usar bombas em larga escala e a ameaça de potenciais milhares ou centenas de milhares de mortos, para resgatar Lung.

Tentei tirar aquilo da mente. Se acontecesse, seria responsabilidade de heróis melhores e mais experientes do que eu.

Reparei que havia uma pessoa pela qual eu não tinha procurado. Eu mesma. Abri a página de busca avançada do fórum Parahumanos.net e fiz uma busca por várias palavras. Incluí inseto, aranha, enxame, bichinho, praga, e um monte de outros termos que eu lembrava de quando eu estava procurando por um bom nome de heroína. Ajustei para pesquisar por posts feitos nas últimas 12 horas e cliquei em Pesquisar.

Meus esforços encontraram dois posts. Um se referia a um vilão chamado Pestilência, ativo no Reino Unido. Aparentemente, Pestilência era uma das pessoas que podia usar ‘magia’. Quer dizer, se você acreditasse que magia era real, e não alguma interpretação errada ou confusa de um certo conjunto de poderes.

O segundo post era na seção ‘Conexões’ do fórum, onde donzelas resgatadas deixavam seus contatos para seus heróis reluzentes, onde convenções e eventos eram organizados e onde pessoas postavam ofertas de emprego para capas e os obcecados por capas. A maioria era criptografada ou bem vaga, se referindo a coisas que somente as pessoas em questão saberiam.

O título da mensagem era, simplesmente, “Bichinho”.

Cliquei nela e esperei impacientemente para que o sistema obsoleto e o modem sobrecarregado da escola carregassem a página. Era uma mensagem curta.

Assunto: Bichinho

Te devendo uma. Gostaria de pagar o favor. Encontro?

Mande uma mensagem,

Tt.

O post era seguido por duas páginas de pessoas comentando. Três pessoas sugeriram que talvez fosse algo importante, enquanto uma meia dúzia os chamavam de chapéus de lata, o termo de Parahumanos.net para teoristas conspiratórios.

Era significativo, no entanto. Eu não conseguia interpretar de nenhuma outra forma; Tattletale havia achado um jeito de entrar em contato comigo.

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